Na Flórida, o mapeamento mais recente localizou pneus muito além da área original do Osborne Reef, enquanto o projeto de Yarmouth, em Massachusetts, mantém estruturas lastreadas e monitoradas que passaram a servir de habitat para diferentes espécies marinhas.
O uso de pneus descartados para formar recifes artificiais produziu resultados muito diferentes nos Estados Unidos. Na Flórida, estruturas instaladas para atrair peixes se soltaram e passaram a atingir áreas naturais; em Massachusetts, pneus presos e lastreados com concreto permaneceram incorporados a um habitat marinho monitorado ao longo das décadas.
O caso mais conhecido ocorreu próximo a Fort Lauderdale, onde organizações envolvidas na criação do Osborne Reef lançaram pneus no Atlântico durante a década de 1970. A proposta reunia duas ideias consideradas vantajosas naquele período: retirar resíduos de terra firme e criar estruturas que servissem de abrigo à vida marinha.
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Mais de 100 mil pneus de carros e caminhões foram despejados no mar para criar recifes artificiais em 20 pontos de Washington, mas as cordas romperam e o projeto virou um desastre ambiental décadas depois.
Estimativas históricas chegaram a apontar cerca de 2 milhões de pneus, distribuídos originalmente por aproximadamente 15 hectares. O Departamento de Proteção Ambiental da Flórida, porém, ressalta que os registros da época eram deficientes e situa a quantidade estimada entre 1 milhão e 2 milhões.
O problema apareceu quando as amarrações usadas para manter os pneus agrupados não conseguiram impedir seu deslocamento. Tempestades, ondas e correntes movimentaram estruturas relativamente leves, espalhando material pelo fundo oceânico e levando parte dele contra áreas de recifes naturais.

Com o passar dos anos, pneus também foram encontrados longe do ponto inicial de lançamento, inclusive em praias distantes dos Estados Unidos. A dispersão mostrou que a remoção já não poderia se concentrar apenas na área originalmente escolhida para o recife artificial.
Levantamentos posteriores dimensionaram melhor o alcance. Uma pesquisa realizada em 2019 identificou pneus em cerca de 770 acres, enquanto um mapeamento de 2024 encontrou material nos quatro complexos de recifes avaliados e em uma área superior a 6 mil acres.
Esse resultado não significa que toda a superfície esteja continuamente coberta por pneus. O mapeamento apontou concentrações principalmente em canais arenosos entre os complexos de recifes, além de acúmulos nas bordas e, em alguns pontos, diretamente sobre ambientes recifais.
Com base nas pesquisas de 2019 e 2024 e descontando o material já retirado, o órgão estadual estimou aproximadamente 521 mil pneus visíveis e não enterrados nas áreas pesquisadas. Cerca de 429 mil estavam em ambientes arenosos e até 92 mil mantinham contato com habitat de recife de coral.
A retirada exige cuidados específicos porque parte dos pneus está parcialmente enterrada ou presa entre organismos marinhos. Em alguns locais, corais cresceram sobre estruturas que precisam ser removidas sem ampliar os danos ao ambiente que o projeto originalmente pretendia beneficiar.
Em Massachusetts, o desenho do recife foi diferente
A experiência da cidade de Yarmouth seguiu outro caminho. O primeiro recife artificial autorizado em Massachusetts foi desenvolvido em 1978, a mais de 3 quilômetros ao sul da foz do Bass River, em uma área de 127 acres no Nantucket Sound.
Os módulos iniciais não consistiam simplesmente em pneus soltos depositados no fundo. Documentos estaduais descrevem conjuntos de três a cinco pneus lastreados com concreto e presos em feixes, com cerca de 1.500 unidades instaladas em 1978 e outras mil acrescentadas em 1994.

A configuração não eliminou completamente o deslocamento, já que levantamentos posteriores encontraram parte dos pneus dispersa. Ainda assim, o local permaneceu em uso como habitat e área de pesca, enquanto a expansão passou a priorizar materiais pesados e aprovados, como concreto, granito e estruturas reaproveitadas.
A Divisão de Pesca Marinha de Massachusetts informa que, desde a reabertura da autorização para receber novos materiais em 2014, foram realizadas 22 operações de deposição. Mais de 17 mil toneladas de materiais reutilizados foram incorporadas à área, formando mais de 10 acres de habitat estruturado.
O monitoramento por mergulho e câmeras subaquáticas registra espécies como robalo-preto, mexilhões, lagostas, lulas, linguados, cações e tubarão-tigre-da-areia. Esses registros documentam o uso do recife por diferentes espécies marinhas décadas depois da instalação das primeiras estruturas.
A comparação entre os dois projetos também expõe uma diferença física relevante. Em Yarmouth, os pneus foram instalados em pequenos conjuntos presos e preenchidos com material de lastro, enquanto no Osborne Reef a falha das amarrações permitiu que grande quantidade de pneus se espalhasse pelo ambiente marinho.
Na Flórida, a retirada continua sendo tratada como um trabalho de longo prazo. O Departamento de Proteção Ambiental mantém um contrato de remoção renovado até fevereiro de 2028 e outro, firmado em 2025, com vigência prevista até setembro de 2032.
As etapas seguintes dependem de licenças e de operações específicas para reduzir o risco de novos danos durante a retirada. O trabalho permanece concentrado nos pneus remanescentes e na proteção dos recifes naturais atingidos pelo material que deixou a área original do projeto.
