Três estudantes australianos transformaram ingredientes simples em iscas biodegradáveis, testaram os protótipos durante pescarias e continuaram aperfeiçoando a fórmula para equilibrar resistência, flexibilidade e decomposição rápida na água.
Uma isca de pesca macia costuma ser feita para balançar na água como um pequeno animal, resistir a vários lançamentos e atrair o peixe antes de ficar presa em uma pedra, galho ou estrutura submersa.
Quando isso acontece, porém, parte dessas iscas permanece no ambiente por um período muito maior do que a pescaria.
Foi pensando nesse problema que três estudantes de Darwin, no norte da Austrália, começaram a misturar ingredientes normalmente associados à cozinha e a produtos de uso doméstico.
-
Xiaomi lança nova geladeira compacta que oferece 400 litros, ocupa apenas 0,4 m² e custa US$ 369
-
Cientistas brasileiros rastreiam corredores invisíveis que levam calor dos trópicos ao coração da Antártica, associam quase 80% das ondas de calor no interior do continente a esses fluxos e ajudam a explicar salto de 43 °C
-
A primeira fotografia nítida de um eclipse solar total foi feita há 175 anos por um homem quase esquecido pela história: registrada durante uma exposição de 84 segundos, a imagem revelou a tênue coroa do Sol e abriu caminho para estudos que hoje ajudam a entender tempestades solares e danos a satélites
-
Sem lítio nem terras raras, nova bateria híbrida usa eletrodo impresso em 3D, armazena sete vezes mais carga e mantém 82% da capacidade após 1.500 ciclos
Gelatina, glicerina e água formaram a base de uma pequena isca flexível, moldada para imitar os modelos de plástico encontrados em lojas de pesca.
Biolures venceram competição científica na Austrália
O projeto, chamado Biolures, foi desenvolvido por Tye, Kian e Khadim, alunos da Dripstone Middle School.
A invenção recebeu dois prêmios no Territory Young Scientists Awards e depois venceu a categoria Agricultura, Pesca e Alimentos no ASTA i3 Awards, competição científica australiana.
A história ganhou um novo capítulo no ciclo 2025-2026 da premiação.
Khadim e Tye retornaram ao portal científico da ASTA ao lado de outro estudante, Arsenii, com a BioLure 2.0, uma versão criada para resolver uma fraqueza descoberta nos primeiros testes: a isca original se desfazia rápido demais durante o uso.
A equipe passou a experimentar novos ingredientes para aumentar a resistência na água sem abandonar a proposta de produzir um material degradável.
Kian não aparece entre os autores dessa segunda etapa na documentação pública consultada.

Pesca em Darwin inspirou alternativa ao plástico
A ideia inicial nasceu de uma atividade muito comum na região onde os adolescentes vivem.
Darwin é cercada por áreas costeiras, rios e locais usados para pesca recreativa.
Os próprios estudantes se apresentaram no relatório como pescadores interessados em encontrar uma alternativa para as iscas macias perdidas ou descartadas na água.
Essas iscas convencionais costumam ser produzidas com polímeros flexíveis que permitem criar caudas, formas e movimentos semelhantes aos de pequenos animais aquáticos.
A maleabilidade ajuda durante a pescaria, mas também dificulta a rápida degradação do objeto quando ele é abandonado no ambiente.
Uma pesquisa científica publicada em 2024 analisou 16 modelos comerciais de iscas macias e constatou que dez liberaram plastificantes, incluindo determinados ftalatos, durante 61 dias de observação na água.
O estudo tratou essas iscas como uma possível fonte de poluição química e destacou a necessidade de novas investigações sobre seus efeitos ambientais.
Como as iscas biodegradáveis foram produzidas
Os adolescentes decidiram tentar reproduzir algumas características do plástico sem usar a mesma composição.
A gelatina fornecia firmeza e ajudava a formar o corpo da isca.
Já a glicerina tinha a função de equilibrar rigidez e flexibilidade, evitando que o material ficasse duro demais logo depois de sair do molde.
A água permitia misturar e aquecer os ingredientes antes da modelagem.
Corante podia ser acrescentado para mudar a aparência, enquanto óleo de peixe aparecia como componente opcional para criar cheiro e tentar aumentar a atração da isca.
O processo registrado pelos alunos começava com a medição dos ingredientes.
Depois de aquecida e misturada, a solução era colocada com uma seringa dentro de um molde no formato de isca.
O material permanecia ali por duas ou três horas até esfriar e adquirir consistência suficiente para ser retirado.
Fórmula precisou equilibrar firmeza e flexibilidade
Chegar à textura desejada exigiu várias combinações.
Os estudantes compararam proporções diferentes de gelatina, glicerina e água, observando firmeza, elasticidade, aparência, maciez e tempo de armazenamento.
Entre as três fórmulas testadas na etapa inicial, a proporção de cinco partes de gelatina, três de glicerina e duas de água obteve a avaliação mais alta do grupo.
O resultado, entretanto, foi baseado principalmente na observação dos próprios autores, e não em uma comparação laboratorial ampla com marcas comerciais.
Os alunos reconheceram no relatório que avaliações de um grupo maior de pescadores poderiam tornar o teste mais preciso.
Por isso, a afirmação de que as Biolures “funcionam como as de plástico” precisa ser entendida dentro dos limites do projeto escolar.
Os protótipos foram desenhados para imitar a forma, a flexibilidade e o movimento das iscas macias convencionais, mas não passaram por ensaios independentes que comprovassem desempenho equivalente em durabilidade, quantidade de capturas ou diferentes condições de pesca.
Protótipos conseguiram capturar peixes
Mesmo assim, os testes de campo mostraram que a ideia conseguia cumprir sua função básica.
Tye afirmou que o grupo havia capturado alguns peixes com as iscas e ainda tentava registrar novas pescarias em vídeo para reunir mais evidências.
“Já pegamos alguns peixes com elas, mas estamos tentando conseguir imagens para ter mais provas”, disse o estudante, em tradução livre.
Prazo de decomposição ainda é uma estimativa
O prazo de aproximadamente duas semanas para a decomposição também veio do relato dos estudantes.
“Se a isca ficar presa, depois de algum tempo, cerca de duas semanas, ela deve se decompor e se desintegrar”, explicou Kian, em tradução livre.
O próprio relatório original, contudo, indicava que ainda seria necessário realizar testes mais detalhados para saber quanto tempo a isca duraria submersa e determinar com maior precisão o período necessário para sua degradação completa.
Assim, as duas semanas devem ser apresentadas como uma estimativa dos criadores, não como prazo validado por um estudo independente no mar.
Resistência durante os lançamentos virou novo desafio
A rapidez da decomposição criou outro desafio.
Uma isca que desaparece quando é perdida pode reduzir a permanência de resíduos na água, mas precisa resistir tempo suficiente aos lançamentos, impactos e recolhimentos feitos durante a pescaria.
Na versão inicial, o material conseguia reproduzir a textura desejada, mas quebrava depois de poucos arremessos.
O relatório da BioLure 2.0 informa que a primeira formulação suportava aproximadamente dois a quatro lançamentos.

No teste mais recente, o modelo usado como controle resistiu a cinco.
BioLure 2.0 recebeu novos ingredientes
Para aumentar essa resistência, a nova equipe acrescentou separadamente diferentes espessantes e estabilizantes à fórmula.
Foram avaliados farinha de tapioca, amido de milho, ágar, goma xantana e carboximetilcelulose, conhecida pela sigla CMC.
Cada isca era presa a um anzol, lançada na água e recolhida repetidamente até quebrar ou se desprender.
O grupo tentou manter iguais a distância, a altura da queda, a velocidade do recolhimento e a temperatura da água.
A farinha de tapioca apresentou o melhor resultado: a isca resistiu a 39 lançamentos, diante de cinco do modelo de controle.
O amido de milho chegou a 17, a CMC a oito, a goma xantana a seis e o ágar a dois.
