Quase 90 anos após a morte do último tilacino conhecido, uma análise de crânios sugere que o animal perseguido por atacar rebanhos provavelmente era adaptado a presas menores e mordidas rápidas.
Durante décadas, o tilacino carregou a fama de predador capaz de atacar ovelhas e outros animais de criação na Tasmânia.
Essa reputação ajudou a justificar recompensas por sua morte e uma perseguição que eliminou milhares de indivíduos.
Agora, quase 90 anos depois da morte do último exemplar conhecido, uma análise detalhada dos crânios indica que o animal provavelmente não tinha a anatomia adequada para dominar regularmente presas grandes como ovelhas.
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O estudo foi publicado em 31 de agosto de 2026 na revista científica Nature Communications e liderado pela bióloga evolutiva Vera Weisbecker, da Universidade Flinders, na Austrália.
Os pesquisadores descobriram que a semelhança visual do tilacino com lobos esconde uma diferença fundamental: seu focinho comprido e relativamente delicado parece ter sido adaptado para mordidas rápidas em animais pequenos e ágeis, e não para segurar uma presa grande durante uma luta.
A descoberta não permite afirmar que um tilacino jamais tenha atacado uma ovelha.
Registros históricos são incompletos e animais selvagens podem aproveitar oportunidades incomuns.
O que a nova pesquisa reforça é algo ainda mais importante: a imagem do tilacino como equivalente australiano de um lobo especializado em derrubar grandes animais provavelmente estava errada.
Parecia um lobo, mas sua cabeça funcionava de outra maneira
À primeira vista, a confusão é compreensível.
O Thylacinus cynocephalus possuía corpo alongado, cabeça semelhante à de um cão, mandíbulas compridas e uma série de listras escuras na parte traseira do corpo.
O próprio nome científico faz referência à aparência canina.
A semelhança, entretanto, é resultado de evolução convergente, fenômeno em que animais de linhagens muito diferentes desenvolvem características parecidas ao enfrentar determinadas pressões ambientais.
Tilacinos eram marsupiais.
Lobos, cães e raposas são mamíferos placentários.
As linhagens que dariam origem a esses dois grandes grupos se separaram há aproximadamente 122 milhões a 166 milhões de anos, segundo o novo estudo.
Apesar dessa enorme distância evolutiva, o crânio do tilacino acabou adquirindo uma aparência superficialmente semelhante à dos canídeos.
Foi justamente essa aparência que durante muito tempo orientou interpretações sobre sua alimentação.
Os pesquisadores agora mostram que olhar apenas para o formato geral escondia uma combinação anatômica que praticamente não existe entre os mamíferos carnívoros atuais.

Cientistas compararam o tilacino com dezenas de predadores
A equipe analisou a forma craniana do tilacino dentro de um conjunto de 60 espécies pertencentes a 14 famílias de mamíferos predadores.
Além da análise tridimensional, os pesquisadores fizeram medições lineares em 73 crânios de tilacinos, o maior conjunto de medidas desse tipo já publicado para a espécie, e os compararam com lobos-cinzentos, dingos, coiotes, chacais e diferentes raposas.
O resultado revelou uma combinação curiosa.
O tilacino tinha um crânio muito grande em relação ao corpo, comparável em tamanho ao de predadores consideravelmente mais pesados.
Ao mesmo tempo, apresentava focinho longo, estreito e relativamente gracioso, características mais comuns em espécies que capturam presas menores.
Entre os animais com formato craniano mais semelhante estavam raposas e chacais de aproximadamente 6 a 14 quilos.
O tamanho do crânio do tilacino, porém, se aproximava do observado em animais muito maiores, como lobo-cinzento, cão-selvagem-africano, puma e leopardo.
Era, em outras palavras, uma combinação pouco usual: uma cabeça enorme com uma região frontal longa e delicada.

Um predador de mordidas rápidas, não de longas disputas
A anatomia ajuda a reconstruir como o animal provavelmente caçava.
Em predadores que enfrentam presas grandes, o crânio precisa suportar forças intensas de torção e movimentos imprevisíveis enquanto a vítima tenta escapar.
Lobos, por exemplo, possuem estruturas robustas capazes de enfrentar esse tipo de esforço.
No tilacino, o focinho estreito não apresentava a mesma configuração.
Os pesquisadores encontraram indícios de que a cabeça estava melhor adaptada a movimentos rápidos e de alto impacto, nos quais o animal avançava e fechava as mandíbulas rapidamente para atingir uma presa ágil.
Quanto maior o comprimento da mandíbula, maior pode ser a velocidade de sua extremidade durante o fechamento.
O grande tamanho geral do crânio, segundo os autores, teria ajudado a suportar as forças produzidas por esse tipo de golpe.
O formato lembra funcionalmente algumas adaptações encontradas em outros predadores com mandíbulas alongadas, inclusive determinados crocodilianos e peixes predadores.
Isso não significa que o tilacino se alimentasse de peixes.
A comparação serve para compreender a mecânica da mordida.

Bandicotes e outros animais menores combinam melhor com a anatomia
Os resultados apontam para um predador especializado principalmente em animais menores e rápidos.
Trabalhos anteriores já sugeriam que o tilacino poderia concentrar sua alimentação em presas com aproximadamente 45% de sua própria massa corporal.
Entre possibilidades compatíveis com esse padrão estão pequenos e médios marsupiais, incluindo animais semelhantes em tamanho a coelhos.
A nova análise fortalece essa interpretação.
Em vez de agarrar uma ovelha grande e suportar uma luta prolongada, o tilacino provavelmente dependia de ataques rápidos para imobilizar animais consideravelmente menores.
Até mesmo a massa corporal real da espécie acabou sendo revista nos últimos anos.
Durante muito tempo, estudos utilizaram uma estimativa média de cerca de 29,5 quilos para o animal.
Em 2020, porém, uma equipe liderada por Douglass Rovinsky analisou 93 tilacinos adultos e concluiu que a média populacional era de aproximadamente 16,7 quilos.
Machos pesavam em média 19,7 quilos, enquanto as fêmeas ficavam em torno de 13,7 quilos.
Essa redução aproximou ainda mais o animal de predadores especializados em presas relativamente pequenas.
Ovelhas transformaram o tilacino em inimigo dos fazendeiros
A ciência atual lança nova luz sobre uma história iniciada muito antes de os pesquisadores conseguirem medir essas estruturas.
Tilacinos já haviam desaparecido da Austrália continental milhares de anos antes da colonização europeia, sobrevivendo principalmente na Tasmânia.
No século XIX, a expansão das fazendas de ovinos colocou colonizadores e fauna nativa em conflito.
Quando ovelhas começaram a desaparecer, os tilacinos passaram a ser responsabilizados.
Segundo o National Museum of Australia, existem evidências de que cães ferais e problemas de manejo respondiam por grande parte das perdas de rebanhos, enquanto o tilacino acabou transformado em um alvo conveniente.
A perseguição começou cedo.
Desde aproximadamente 1830, proprietários rurais já ofereciam recompensas particulares pela morte desses animais.
Em 1888, o próprio governo da Tasmânia criou um programa oficial que pagava uma libra por tilacino adulto morto e dez xelins por um jovem.
O programa permaneceu até 1909 e resultou no pagamento de mais de 2.180 recompensas.
Entre 1830 e a década de 1920, estima-se que pelo menos 3.500 tilacinos tenham sido mortos por caçadores.
Caça não foi o único fator da extinção
A perseguição humana teve papel central, mas a extinção não deve ser atribuída a uma única causa.
Destruição e alteração do habitat, possíveis doenças introduzidas e competição com animais trazidos pelos colonizadores também contribuíram para reduzir a população.
Por volta de 1910, o tilacino já era considerado raro.
O último exemplar cuja morte na natureza foi documentada com segurança foi abatido em 1930.
Ainda assim, a proteção legal demorou.
Somente em julho de 1936 a espécie recebeu proteção oficial na Tasmânia.
Foi tarde demais.
O último tilacino morreu apenas 59 dias após receber proteção
Em 7 de setembro de 1936, morreu no zoológico de Beaumaris, em Hobart, o último tilacino conhecido mantido em cativeiro.
O National Museum of Australia registra que a morte ocorreu apenas 59 dias depois de a espécie receber proteção legal e pode ter sido consequência de exposição ao frio e negligência.
Há também uma correção histórica importante.
Durante décadas, repetiu-se que esse último animal era um macho chamado “Benjamin”.
Pesquisadores que reexaminaram os registros e localizaram seus restos no acervo do Tasmanian Museum and Art Gallery concluíram que o último exemplar era, na realidade, uma fêmea, e que não há evidência de que tivesse o nome Benjamin.
A espécie foi oficialmente considerada extinta décadas depois, em 1986.
O mesmo animal agora está no centro de um projeto de “desextinção”
A história do tilacino ganhou um capítulo que os fazendeiros do século XIX dificilmente imaginariam.
Andrew Pask, da Universidade de Melbourne e coautor do novo estudo sobre o crânio, lidera pesquisas voltadas à chamada desextinção do tilacino, atualmente desenvolvidas em parceria com a empresa norte-americana Colossal Biosciences.
O projeto não consiste simplesmente em clonar um exemplar preservado.
A estratégia envolve reconstruir geneticamente características do tilacino utilizando como referência o dunnart-de-cauda-grossa, um pequeno marsupial vivo relativamente próximo da linhagem, além de desenvolver técnicas de células-tronco, edição genética e reprodução de marsupiais.
Em 2025, Pask assumiu também o cargo de diretor de biologia da Colossal, enquanto o trabalho relacionado ao tilacino passou a integrar a operação da empresa na Austrália.

