A Nexiqon prepara a produção comercial de telha reciclada em São José dos Campos, combinando tubos de pasta de dente, blísteres e areia de fundição. Uma inteligência artificial definiu misturas viáveis, enquanto a fábrica de 3.200 metros quadrados mira 90 mil unidades mensais com preço equivalente ao fibrocimento no país.
A telha reciclada desenvolvida pela Nexiqon deverá entrar em produção comercial no Brasil após uma etapa de validação técnica realizada em São José dos Campos, no interior paulista. A fábrica foi inaugurada em março de 2026 para transformar resíduos industriais de descarte complexo em materiais destinados à construção civil.
As informações foram publicadas pela Exame em 17 de julho de 2026. Naquele momento, a empresa concluía os procedimentos necessários para comprovar o desempenho do produto e preparava o início da fabricação em escala, previsto para atender as primeiras encomendas de empreiteiras e pequenos varejistas.
Produto entra em mercado dominado pelo fibrocimento

A Nexiqon escolheu a cobertura residencial como porta de entrada porque o fibrocimento ocupa grande parte dos telhados brasileiros. O material é amplamente utilizado por seu preço mais acessível, tornando o custo um dos principais obstáculos para qualquer alternativa que pretenda disputar espaço no setor.
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A estratégia da empresa foi desenvolver uma telha reciclada com preço equivalente ao do produto tradicional. A proposta não depende apenas do apelo ambiental, pois busca competir diretamente em um segmento no qual construtoras, lojas e consumidores costumam considerar o custo antes de avaliar novas tecnologias.
Tubos e embalagens viram matéria-prima industrial
Entre os resíduos processados estão tubos usados de pasta de dente, blísteres de medicamentos, plásticos aluminizados e areia proveniente de fundições. Esses materiais combinam diferentes componentes e, por isso, frequentemente apresentam dificuldades para separação, reciclagem convencional ou destinação final.
Em vez de tentar recuperar individualmente cada parte, a empresa utiliza os rejeitos na composição de um novo material. O resíduo deixa de ser tratado como embalagem e passa a integrar uma mistura industrial, com propriedades mecânicas e físicas definidas para aplicações na construção.
Inteligência artificial reduziu milhões de combinações possíveis
O desenvolvimento exigia descobrir quanto de cada resíduo poderia entrar na mistura sem comprometer resistência, estabilidade e desempenho. Como existem dezenas de materiais possíveis, testar manualmente todas as combinações consumiria tempo e recursos em uma quantidade considerada impraticável.
A empresa desenvolveu uma inteligência artificial capaz de simular milhões de formulações e filtrar os resultados conforme as características desejadas. O sistema selecionava entre cinco e dez opções consideradas promissoras, que depois seguiam para testes físicos em laboratório. A ferramenta não substituiu a validação real, mas reduziu o número de experiências necessárias.
Mistura correta definiu as características da telha
A proporção dos resíduos determina como o material reage à pressão, ao calor, à umidade e a outras condições encontradas em um telhado. Uma combinação inadequada poderia gerar um produto frágil, instável ou incompatível com as exigências da construção civil.
Por esse motivo, a inteligência artificial foi utilizada para encontrar o chamado blend, nome dado à mistura precisa das matérias-primas. A telha reciclada resulta de uma formulação controlada, e não da simples compactação de diferentes tipos de lixo em uma mesma peça.
Linha de produção precisou ser criada do zero
Depois de definir a composição, a Nexiqon encontrou outro problema: não existiam equipamentos prontos no mercado para processar aquela variedade de resíduos e transformá-la nos materiais planejados pela empresa.
A linha industrial teve de ser desenvolvida especificamente para a operação. Máquinas, etapas de processamento e controles foram configurados de acordo com as características da matéria-prima. A inovação, portanto, não ficou restrita à telha, pois também alcançou o sistema utilizado para fabricá-la.
Fábrica pode absorver 22 milhões de quilos por ano
A unidade instalada em São José dos Campos ocupa aproximadamente 3.200 metros quadrados. Segundo a Nexiqon, sua capacidade anual permite receber até 22 milhões de quilos de resíduos industriais que poderiam seguir para incineração ou outras formas de descarte.
A planta foi dimensionada para produzir mais de 90 mil telhas por mês quando estiver operando em escala. A capacidade conecta dois mercados diferentes: indústrias que precisam destinar rejeitos e empresas da construção interessadas em materiais para coberturas, painéis e pisos.
Validação técnica antecede entrada efetiva no mercado
Embora a fábrica tenha sido inaugurada em março, a produção comercial ainda dependia da conclusão da validação técnica em julho. Essa etapa reúne documentos, ensaios e verificações destinados a demonstrar que o produto entrega as características anunciadas.
A passagem do laboratório para obras reais representa um momento decisivo. Produzir uma peça funcional não é suficiente para conquistar o mercado da construção, que exige comprovação de desempenho, padronização e capacidade de fornecer grandes volumes continuamente.
Empresa atribui vantagens térmicas e estruturais ao produto
A Nexiqon afirma que sua telha reciclada não trinca, apresenta isolamento térmico e acústico e não contribui para a propagação de chamas. Essas propriedades ainda dependiam dos procedimentos de validação técnica mencionados na reportagem.
As afirmações precisam ser diferenciadas de resultados independentes já consolidados, pois foram apresentadas pela própria fabricante. A aceitação entre construtoras dependerá de documentos técnicos, desempenho em uso e comparação objetiva com fibrocimento, cerâmica e aço galvanizado.
Preço equivalente sustenta estratégia comercial
A empresa considera que uma inovação ambiental teria alcance limitado caso chegasse ao mercado com valor muito acima das soluções convencionais. Por isso, o objetivo foi aproximar o custo da telha daquele praticado pelo fibrocimento.
A estratégia permite disputar obras que não possuem orçamento para materiais de alto valor agregado. O preço funciona como parte central da tecnologia, porque determina se a solução ficará restrita a projetos específicos ou poderá entrar em construções residenciais de maior escala.
Matéria-prima pode gerar diferentes relações comerciais
O abastecimento da fábrica foi dividido em três modelos. Em alguns casos, a Nexiqon compra resíduos que já possuem valor de mercado, especialmente quando há alumínio ou outros componentes aproveitáveis na composição.
Em outras situações, a indústria pode enviar o rejeito e contribuir com o frete, pois essa alternativa custa menos que a destinação tradicional. Há ainda materiais sem cadeia de reciclagem economicamente viável, para os quais o gerador poderia pagar à Nexiqon pelo processamento. O resíduo pode ser comprado, recebido ou gerar receita antes mesmo de virar produto.
Plantas menores poderão ficar próximas da demanda
A Nexiqon não planeja concentrar toda a fabricação em uma única unidade gigantesca. O modelo prevê a instalação de fábricas menores em diferentes regiões, reduzindo a distância entre produção, fornecimento de resíduos e consumidores.
A empresa afirma que uma nova planta poderia ser montada em poucos meses. Locais como Manaus e Pará aparecem entre as possibilidades citadas, principalmente porque o transporte de telhas produzidas longe do Norte e do Nordeste eleva o preço final. Produzir perto da obra pode reduzir o peso do frete na operação.
Telha abre caminho para painéis e pisos
A cobertura é o primeiro produto da linha Termoflex, que deverá incluir modelos simples e versões do tipo sanduíche. A empresa também desenvolve painéis para sistemas construtivos industrializados e pisos destinados a áreas úmidas.
Esses produtos utilizariam variações do material criado a partir dos resíduos. A telha reciclada funciona como teste inicial para uma plataforma mais ampla, cuja expansão dependerá do desempenho comercial, das certificações e da capacidade de adaptação às exigências de cada aplicação.
Mercado decidirá se resíduos conseguem disputar telhados
A fábrica reúne capacidade industrial, formulações desenvolvidas com inteligência artificial e uma matéria-prima disponível em diferentes regiões. O próximo desafio será comprovar que a produção pode manter qualidade, preço e fornecimento em volumes compatíveis com a construção civil.
Você substituiria uma telha convencional por outra produzida com tubos de pasta de dente e blísteres se o preço fosse equivalente e o desempenho estivesse tecnicamente comprovado? Deixe sua opinião nos comentários e conte qual fator pesaria mais na escolha: custo, durabilidade ou reaproveitamento de resíduos.
