Semicondutores: entenda sua importância para o mercado global de microchips

Paulo Nogueira
por
-
18-10-2021 16:50:37
em Economia, Negócios e Política
semicondutores microchips

Entender a importância dos semicondutores e todas as implicações das últimas crises relacionadas vai te ajudar a entender o mundo melhor!

Os semicondutores se tornaram assunto do dia em diversos ambientes, por causa das severas dificuldades que o mundo anda enfrentando com a chamada crise dos microchips. Por incrível que pareça, essa crise vem ocupando um espaço cada vez maior nos noticiários econômicos e políticos.

Por isso mesmo, considerando todas as questões, decidimos fazer um pequeno dossiê para você, trazendo as principais informações sobre essa situação.

Nesse artigo, você vai entender o que são os semicondutores, como é produzido um microchip, as dificuldades dos avanços dessas Indústrias e as consequências políticas e econômicas que estão se desenhando a partir deste problema.

Nossa intenção aqui é trazer a informação da forma mais isenta possível. Não vamos tomar partido de nenhum dos “lados”, nem fazer juízo de valor de qualquer ideologia. O objetivo é trazer as informações dos fatos e deixar que você tome as decisões de caráter mais moral.

O que são semicondutores?

wafer de chips antes do recorte
Fonte: a Crítica

Semicondutores são componentes que têm uma condução parcial de energia elétrica, e por isso mesmo podem ser utilizados dentro de microeletrônica.

O principal semicondutor utilizado é o silício, que inclusive se tornou uma referência quando falamos de empresas de tecnologia, como em “Vale do Silício”, nos Estados Unidos, onde desenvolveram-se e estão sediadas grandes empresas de tecnologia.

Por causa da sua grande importância no mercado de microeletrônica, os semicondutores e os microchips vem causando disputas diversas e sendo considerados por alguns especialistas como o “novo petróleo”.

A grande questão em relação aos semicondutores é que, ao contrário do petróleo, que tem o beneficiamento comparativamente simples, podendo ser enriquecido em diversos lugares do mundo, os microchips estão em uma situação totalmente diferente, que iremos explorar um pouco mais adiante.

Como você também vai ver no nosso próximo tema, a construção de uma fábrica de microchips é cara e sua implementação é difícil e demorada.

Ainda mais quando falamos dos chips mais recentes, cuja fabricação ainda é extremamente limitada e está na mão de pouquíssimos empresários.

Com empresas localizadas nos Estados Unidos, China, Taiwan, e Europa, não é como se existisse um mercado muito amplo com bastante concorrência dentro do mundo dos microchips. Na verdade o que estamos vendo é exatamente o contrário, o escasseamento dos chips está causando aumento nos preços dos produtos eletrônicos, no momento em que o mundo precisava tanto deles, durante a pandemia de Covid-19.

Antes de adentrar nos aspectos sociais, econômicos e políticos dos semicondutores e da crise dos semicondutores, queremos te mostrar o quão complexo pode ser a produção de um microchip.

Como é uma fab de microchips?

As fábricas de microchips, geralmente chamadas de fab ou de foundry, transformam os semicondutores em estado bruto em verdadeiras micro peças de arte tecnológica.

Elas funcionam de uma forma bem complexa, com uma série incrível de detalhes na sua construção, para ter um ambiente o mais livre de interferências possível, pois com o tamanho dos microchips sendo produzidos diminuindo cada vez mais, coisas que em outras fábricas são irrelevantes, como poeira, se tornam um adversário terrível para a qualidade e a precisão do produto.

A produção de microchips é feita sem nenhuma manipulação humana e parte ,inicialmente, da produção do Wafer, que é o apelido que a placa de silício onde o chip é “escrito”..

O processo começa com a criação de um cristal de silício com fusão de areia. Esse cristal é então “fatiado”, de forma similar a um salame ou uma linguiça, e às fatias é dado o nome de wafer.

O processo de inscrição do microchip é feito por meio de início de banhos químicos e um processo chamado de fotolitografia, que envolve luz infravermelha, produtos foto resistentes e o resultado é o desenho do circuito.

Depois disso, é importante salientar que esta explicação está tremendamente simplificada, o wafer é novamente partido no formato dos microchips (cada wafer pode ter centenas ou até milhares de microchips) e então recoberto com a camada protetora de plástico.

Existe uma perda considerável de chips nesse processo, mas até o momento esta foi a única forma desenvolvida de produzir os chips com o tamanho necessário para praticamente todas as tecnologias do mundo atual.

É importante salientar que a foundry possui 4 andares e em apenas um deles 2 microchips são realmente fabricados.

O ambiente dentro destas fábricas é controlado e cada andar tem o chão gradeado, para que não haja nenhum tipo de acúmulo de poeira e sujeira.Funcionários circulam com roupas especiais, apenas com os olhos descobertos.

O próprio ar condicionado da fab é projetado para que toda a poeira desça para o andar térreo, onde são feitos apenas serviços de manutenção e transporte dos microchips já prontos.

É importante salientar também que a capacidade de produção de cada uma dessas fábricas não é muito grande, e a maioria das fábricas do mundo estão trabalhando a todo o vapor.

Como já comentamos, algumas poucas fábricas no mundo são responsáveis por toda a produção de microchips do planeta e isso se torna ainda pior quando descobrimos que mais da metade dessa produção está centralizada em uma única fábrica, e a própria existência desta foundry é capaz de reacender antigas disputas e começar uma guerra

TSMC: Entenda como esta fábrica parou o mundo

A importância da TSMC no mercado
Fonte: Paulo Gala economia e

A TSMC é uma fábrica de chips em Taiwan que, de acordo com a Trend Force, possui 55% da participação global no mercado no primeiro trimestre de 2021. Isso faz com que ela se torne, sem dúvida alguma, uma das empresas mais importantes do mundo no momento.

Ocorre que, durante a pandemia no ano passado,Taiwan passou por uma seca séria, que afetou a produção da TSMC.

Afetou a tal ponto que isso teve repercussões mundiais, repercussões essas que fizeram com que os valores de celulares, computadores e outros componentes eletrônicos que utilizam microchips tivessem um aumento de valor considerável.

Além disso, existe toda a questão envolvendo as montadoras de veículos, ávidas compradoras de microchips por causa dos sistemas eletrônicos dos veículos.

É costume das montadoras de veículos não manterem grandes quantidades de insumos em estoque, então quando a pandemia diminuiu a quantidade de vendas de carros, as montadoras param de pedir microchips à TSMC.

Só que com o retorno da economia na maioria do mundo, causada pelo fim dos lockdowns, as montadoras voltaram a desejar os chips, como outros mercados já haviam absorvido a demanda, houve um problema de falta de chips para todos

Essas questões (os problemas com a seca em Taiwan e o aumento de demanda) acabaram acontecendo quase que sucessivamente um do outro, o que tornou a crise ainda maior.

Isso porque quando falamos em matéria de recuperação no mercado, não é como se fosse possível produzir muito mais chips simplesmente por vontade.

Comentamos acima que as fabs de chips não conseguem produzir uma quantidade muito maior do que o que já produzem. Isso significa que para que houvesse uma normalização dos estoques e os valores voltassem ao normal, seria necessária uma diminuição da demanda, e isso não parece ocorrer tão cedo.

Acontece também que existe um problema adicional para as concorrentes da TSMC.

A empresa já vem entrando em aspectos de pioneirismo na produção de microchips que são extremamente difíceis e caros de se conseguir. Em seu avanço mais recente, a TSMC declarou oferecer a seus clientes a litogravura com processo de raios ultravioletas, permitindo que os chips desenhados tenham de 1 e 2 nanômetros de linha.

Essa empresa também foi responsável pela criação de todo um segmento de empresas interessadas em desenhar microchips, mas que não tinham maquinário para produzi-los.

Ao terceirizar esta parte extremamente difícil e cara do processo de produção de um microchip, essas empresas conseguiram encontrar nichos de mercado interessantes para si, embora tivessem desenvolvido uma dependência completa de fabs como a TSMC. A Nvidia é um bom exemplo dessas empresas.

Já deu para perceber que o título de maior empresa de semicondutores do mundo não foi conquistado pela TSMC à toa.

Outro aspecto importante sobre a TSMC é que ela tem uma relação muito positiva com o governo de Taiwan, que foi fundamental para o início da empresa, mas que passa por uma situação muito complexa.

Os efeitos geopolíticos da crise dos semicondutores.

Se você vem acompanhando o jornalismo político e econômico internacional, você sabe que existe uma verdadeira guerra comercial ocorrendo entre os Estados Unidos e a China.

Essa guerra comercial começou no governo Trump e, mesmo com uma filosofia diferente em diversos aspectos, vem sendo mantida no governo Biden.

O governo americano criou barreiras para as indústrias chinesas, sendo que nisso houve a literal proibição de que empresas produtoras de chips nos Estados Unidos fizessem negócios com empresas chinesas. Além disso, o governo também baniu a Huawei, empresa chinesa especializada em 5G, de operar no mercado americano.

Isto fez com que a relação, que já era ruim entre os dois países, se tornasse ainda pior.

Além disso, o processo de queda de braço entre empresas desses dois países sobre a supremacia da tecnologia de microchips cada vez melhores e menores pode ser comparada com a corrida espacial ou a corrida nuclear do século passado.

Agora acrescente o fato de que Taiwan era uma província chinesa, mas que, durante os anos 40 do século passado, conseguiu se libertar por meio de uma revolução.

Existem temores de que a China se mova militarmente na direção de Taiwan de forma mais definitiva, e a busca da sua supremacia em microchips seria um bônus excelente.

É importante lembrar a barreira que a TSMC criou em relação aos seus concorrentes cria o que chamamos de monopólio natural, que é basicamente a dificuldade absoluta de concorrer com determinada empresa, porque os investimentos para chegar aonde esta empresa está no momento são simplesmente altos demais para que uma empresa o faça sem estímulo governamental.

Em outro aspecto, tanto bloqueio americano quanto a possibilidade da China de atrair engenheiros e outros profissionais relacionados aos microchips de Taiwan e outros lugares do mundo com salários incríveis faz com que a China ainda não deva ser desprezada totalmente em sua nova iniciativa de mercado.

A China, nesse exato momento, é a maior exportadora de eletrônicos do mundo, mas toda essa incrível indústria está totalmente indefesa à crise dos microchips.

Para resolver essa questão,o partido comunista chinês criou um programa governamental de estímulo à criação de cada vez mais fábricas de chips chineses.

O plano chinês para esta situação envolve a promessa de que a China vai se tornar totalmente independente de chips estrangeiros até 2025, o que faria com que o país se tornasse praticamente imparável neste mercado

Esse plano envolve aquisição tanto de tecnologia quanto de capital humano, além, é claro, de garantir bons fornecedores de matéria-prima.

Os semicondutores são o novo petróleo?

Esta é a aposta de muitos especialistas em geopolítica e economia. A decadência do mercado petroleiro, pelas questões ecológicas e também pelo avanço da energia limpa e dos carros elétricos fazem com que os semicondutores acabem se tornando a nova grande moeda de troca.

A construção de novas foundries e o estímulo a todo esse mercado vai, provavelmente, acabar se tornando alvo de políticas públicas de estímulo à industrialização, como ocorreu com outros mercados, há décadas atrás.

Isso porque, como já percebemos, daqui em diante, a capacidade de produção de chips de um país pode acabar se tornando um paradigma do poderio econômico (e até político e militar) do mesmo..

Existe uma chance da crise dos semicondutores escalar para um conflito?

Presidente Xijinping tem planos para Taiwan

Esta é uma pergunta relativamente difícil de responder. Nesse exato momento, as economias do mundo estão tentando se reerguer dos prejuízos monumentais que a pandemia causou. Não parece provável que uma escalada de violência possa acontecer entre Estados Unidos e China, o que poderia, com certa facilidade, escalar para uma nova Guerra Mundial.

Ao mesmo tempo, não parece difícil concluir que a China tem todos os motivos do mundo para retomar o controle sobre Taiwan, apesar da ilha pensar diferente

É importante salientar que os problemas entre China e Taiwan vão muito além dos chips. Desde 2013, quando o atual Líder chinês Xi Jinping assumiu a presidência da China, existem ameaças quase diárias ao espaço aéreo de Taiwan aviões militares chineses.

No ponto de vista militar, os Estados Unidos são aliados de Taiwan, já que além de compartilharem de vista econômico, ambos têm pontos em comum contra a China.

Como você pode ver, a crise dos semicondutores é muito mais interessante e complexa do que se imagina inicialmente, envolvendo questões políticas e econômicas que são muito mais antigas do que as próprias tecnologias que são utilizadas como armas e moeda de troca atualmente.

Que você tenha curtido esse conteúdo. Sentiu que faltou algum dado ou algo do tipo? Comente abaixo!

Tags:
Paulo Nogueira
Com formação técnica, atuei no mercado de óleo e gás offshore por alguns anos. Hoje, eu e minha equipe nos dedicamos a levar informações do setor de energia brasileiro e do mundo, sempre com fontes de credibilidade e atualizadas.
fwefwefwefwefwe