Rafael Lima de Souza Amorim de Almeida com 24 anos, nasceu e cresceu no bairro do Tomba, em Feira de Santana, e veio de escola pública. Foram oito edições do Enem, cinco vestibulares da Uefs, sete da Uneb, sete da Uesb e uma prova em instituição particular.
Rafael Lima de Souza Amorim de Almeida foi aprovado em Medicina na Universidade do Estado da Bahia em 24 de agosto de 2023, depois de 27 reprovações acumuladas ao longo de anos de tentativas, conforme reportagem publicada pelo portal Acorda Cidade. Ele tinha 24 anos, é de família humilde e estudou em escola pública.
O percurso até a biblioteca era feito sobre duas rodas. Ele pedalava aproximadamente sete quilômetros do bairro do Tomba até a Biblioteca Municipal para estudar, trajeto que repetiu durante muitos anos, sem acesso a cursinho pago no início da preparação.
A conta das 28 tentativas
O número que dá dimensão à história não vem de um único exame, e sim da soma de quatro frentes diferentes.
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Foram oito edições do Exame Nacional do Ensino Médio, cinco vestibulares da Universidade Estadual de Feira de Santana, sete da Universidade do Estado da Bahia e mais sete da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, além de uma prova em instituição particular.
O total fecha em 28 processos seletivos prestados. Vinte e sete deles terminaram sem aprovação, e é essa sequência que antecede o resultado de agosto.
A pandemia que interrompeu tudo
O percurso teve uma interrupção forçada, e ela não veio de desistência.
Durante a pandemia, ele precisou se afastar do local de estudo. As dificuldades financeiras da família aumentaram, e ele teve que trabalhar para ajudar em casa.
As ocupações desse período foram todas braçais e informais. Ele fez entregas de água e de gás e trabalhou em um mercadinho do bairro, sem abandonar o objetivo, mas sem tempo nem estrutura para retomar a rotina de estudo.
O telefonema da diretora da biblioteca

A retomada aconteceu por iniciativa de alguém de fora da família, e esse é o ponto de virada da história.
Assim que a situação melhorou, a diretora da Biblioteca Municipal ligou para ele pedindo que voltasse aos estudos.
O telefonema não foi apenas gesto de simpatia. Significa que a presença dele naquele espaço tinha sido notada ao longo dos anos, e que alguém acompanhava aquele percurso de perto o bastante para perceber a ausência e ir atrás.
A bolsa que veio depois de anos estudando sozinho
O acesso a preparação paga só apareceu na etapa final da trajetória, e como consequência do que ele já vinha fazendo.
A dedicação demonstrada ao longo do tempo lhe rendeu uma bolsa em um curso preparatório particular da cidade.
A ordem dos fatos importa nessa história. Ele não estudou porque ganhou a bolsa; ganhou a bolsa porque já estudava, invertendo a sequência que costuma aparecer em relatos de aprovação em curso concorrido.
O que uma biblioteca pública representa nessa conta

O papel do equipamento público nessa trajetória vai além de fornecer um lugar silencioso para abrir o livro.
Biblioteca oferece acervo, mesa, iluminação, ventilação e, sobretudo, um ambiente onde a única coisa a fazer é estudar. São condições que nem toda casa consegue reproduzir, especialmente em residência pequena com mais gente circulando.
Havia também o custo do deslocamento, resolvido pela bicicleta. Sete quilômetros de ida e sete de volta, várias vezes por semana, é uma forma de pagar com esforço físico o transporte que não cabia no orçamento.
O dedo que quase se perdeu aos 12 anos
A escolha do curso tem origem em um episódio da infância dele, e não em cálculo de carreira ou de renda.
Aos 12 anos, ele passou por uma situação em que quase perdeu um dedo. Foi a partir daquele momento que surgiu o desejo de seguir a medicina.
A especialidade pretendida por ele confirma essa origem. O objetivo declarado é se tornar médico ortopedista, área que cuida justamente de ossos, articulações e lesões como a que ele enfrentou.
Vinte e sete respostas negativas
O que costuma escapar em relatos assim é o efeito acumulado das reprovações, e nesse caso foram 27 delas.
Cada tentativa consome meses de preparação, gera expectativa e termina em uma lista onde o nome não aparece. Multiplicado por 27, isso significa anos organizados em torno de um resultado que não vinha.
A maioria dos candidatos abandona bem antes desse número. O que diferencia esse caso não é o talento demonstrado nas provas, é a permanência depois de cada uma delas, inclusive durante o período em que ele estava entregando gás e trabalhando em mercadinho.
Do Tomba à sala de aula de Medicina

O que essa história reúne não é um único fator, e sim uma combinação que raramente aparece completa: um equipamento público funcionando, uma servidora que se importou o suficiente para ligar, uma bicicleta que resolveu o transporte e uma decisão de não parar.
Nenhum desses elementos é extraordinário isoladamente. O que foi excepcional é ter sustentado a rotina até a vigésima oitava tentativa, com um intervalo forçado no meio pela necessidade de trabalhar.
E você, teria fôlego para tentar 28 vezes o mesmo objetivo? Acha que histórias assim provam que é possível ou mostram o quanto o acesso ainda é desigual? Conta nos comentários quantas vezes você tentou algo antes de conseguir.
