O sistema inteiro funciona por gravidade, sem bomba em nenhum trecho da linha principal, com vazão projetada de 30 metros cúbicos por segundo. Em 1º de julho, mais um pedaço foi entregue em Barbalha. A obra chegou a 92%, e o prazo final mudou.
O Cinturão das Águas do Ceará, conhecido pela sigla CAC, capta água na barragem de Jati, no Eixo Norte da transposição do São Francisco, e a conduz por 145,3 quilômetros de canais a céu aberto, túneis e sifões até as nascentes do rio Cariús, no município de Nova Olinda, na região do Cariri. A estrutura tem vazão projetada de 30 metros cúbicos por segundo e opera inteiramente por gravidade, segundo dados da Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará e do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.
A obra chegou a 92% de execução física, informação divulgada pelo governo federal em 1º de julho de 2026, durante a entrega de mais um trecho em Barbalha. A área de influência direta abrange 24 municípios e cerca de 561 mil pessoas, e a interligação com o Eixão das Águas permite reforçar o abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza, alcançando mais de 5 milhões de habitantes. Existe, porém, um detalhe de prazo que mudou e que quase ninguém percebeu.
Onde a água entra no sistema

O ponto de partida é a barragem de Jati, no município de mesmo nome, no extremo sul do Ceará. Ela fica no Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco, nome oficial do que todo mundo chama de transposição do São Francisco, e funciona como a porta de entrada da água cearense.
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A partir dali, o percurso é uma travessia do sul do estado rumo ao Cariri. A água atravessa os municípios de Jati, Porteiras e Brejo Santo, segue por Abaiara e Missão Velha, chega a Barbalha, passa por Juazeiro do Norte e Crato e termina em Nova Olinda, onde deságua nas nascentes do rio Cariús.
O efeito prático dessa chegada é perenizar cursos d’água que antes só corriam na estação chuvosa. Um rio que secava todo ano passa a ter fonte permanente, e isso muda a lógica de abastecimento de toda a região do entorno.
Vale registrar como o secretário de Recursos Hídricos do Ceará, Ramon Rodrigues, descreveu a obra na entrega de julho: uma das pontas dos dedos da transposição, que traz a água de Minas Gerais pelo São Francisco até ser captada e levada aos estados.
Os 145 quilômetros são apenas o começo do projeto
Aqui está um ponto que costuma se perder nas manchetes e que muda a leitura do empreendimento. Os 145,3 quilômetros correspondem ao Trecho 1, e não ao Cinturão das Águas inteiro.
O projeto completo, conforme concebido, prevê cerca de 1.252 quilômetros de caminhamento e a integração de 12 bacias hidrográficas cearenses. O Trecho 1 é a primeira e mais avançada etapa desse desenho, aquela que sai de Jati e chega a Nova Olinda.
A diferença de escala é enorme e importa para quem lê. O que está sendo entregue agora é menos de 12% do que o Cinturão das Águas pretende ser quando estiver completo. Isso não diminui a obra atual, que já é a maior intervenção de transferência hídrica feita por um governo estadual no Brasil, mas evita a impressão de que o projeto termina em Nova Olinda.
Como a água desce vale e sobe morro sem bomba
O elemento técnico mais interessante do sistema é o que permite a ele funcionar sem energia elétrica na linha principal. O Trecho 1 é totalmente gravitacional.
Para vencer o relevo acidentado do Cariri, os projetistas recorreram aos sifões invertidos. O princípio é simples de entender e difícil de executar: em vez de contornar o vale ou bombear a água para cima, a tubulação desce até o fundo da depressão e sobe do outro lado, aproveitando a pressão gerada pela própria coluna de água e a força da gravidade para vencer o desnível.
O ganho operacional é permanente. Sem bombas, não há conta de energia mensal, não há motor para quebrar e não há risco de o abastecimento parar durante apagão. Em uma obra que precisa funcionar por décadas no semiárido, o custo de operação pesa tanto quanto o custo de construção.
Os sifões não são detalhe pontual. Somando o que consta da divisão por lotes do Trecho 1, eles ultrapassam 20 quilômetros de extensão total ao longo do percurso, com o maior volume concentrado no trecho entre Barbalha e Crato.
Nove túneis furados na rocha do Cariri

Onde nem o canal aberto nem o sifão resolviam, a solução foi atravessar a montanha. O Lote 5 do projeto é composto por nove túneis e por canais segmentados, distribuídos ao longo dos lotes 2, 3 e 4.
A extensão dessa parte é significativa: são 5,82 quilômetros de túneis e 3,76 quilômetros de canais nesse lote específico. Escavar túnel em formação rochosa não é serviço rápido nem barato, e é o tipo de frente de obra que costuma definir o cronograma de um projeto inteiro.
Há também uma exigência de precisão que passa despercebida em qualquer foto do canal. A inclinação precisa ficar dentro de uma faixa estreita: declive demais faz a água correr rápido e desgastar o revestimento, declive de menos faz a água perder velocidade e a linha não entregar a vazão de projeto. Em um sistema por gravidade de 145 quilômetros, o erro acumulado ao longo do trajeto não tem como ser corrigido depois com uma bomba.
Cinco lotes e o que já ficou pronto
A execução foi dividida em cinco lotes, e acompanhar essa divisão é a forma mais honesta de medir o andamento real da obra.
O Lote 1 sai da captação em Jati e passa por Porteiras e Brejo Santo, com 33,45 quilômetros de canais e 5,53 quilômetros de sifões. O Lote 2 vai de Brejo Santo a Barbalha, passando por Abaiara e Missão Velha, com 28,06 quilômetros de canais e 2,88 de sifões. O Lote 3 liga Barbalha ao Crato passando por Juazeiro do Norte, com 25,34 quilômetros de canais e 8,89 de sifões, a maior concentração de sifões do trajeto. O Lote 4 sai do Crato e termina em Nova Olinda, no rio Cariús, com 28,63 quilômetros de canais e 2,92 de sifões. O Lote 5 reúne os nove túneis.
Segundo balanço do governo do Ceará divulgado em dezembro de 2025, os lotes 1, 2 e 5 já estavam concluídos, o Lote 3 registrava 86% de execução e o Lote 4 aparecia com 70%. Em 1º de julho de 2026, mais um trecho foi formalmente entregue em Barbalha, com presença de representantes do governo federal e estadual.
Noventa e dois por cento e uma data que mudou
Este é o dado que exige atenção de quem vai publicar. Ao longo de 2025, o discurso oficial apontava conclusão para junho de 2026, e houve declarações apontando agosto do mesmo ano.
O comunicado do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional publicado em 1º de julho de 2026 traz outra informação. Ele registra 92% de execução e previsão de entrega em 2027, o que representa um deslocamento de aproximadamente um ano em relação ao prazo anunciado no fim de 2025.
Nenhuma das partes detalhou publicamente o motivo do novo prazo. Ir de 91% em dezembro de 2025 para 92% em julho de 2026 significa aproximadamente um ponto percentual em sete meses, ritmo que ajuda a entender por que a data final se moveu, ainda que os trechos remanescentes envolvam justamente as etapas mais delicadas, como comissionamento e testes de sistemas de controle.
Vinte e quatro municípios, 561 mil pessoas e a conta dos 5 milhões
Os números de beneficiários circulam misturados e vale separá los. A área de influência direta do empreendimento abrange 24 municípios, com atendimento estimado em cerca de 561 mil pessoas.
O número maior, de mais de 5 milhões de habitantes, corresponde a outra coisa. Ele depende da integração do CAC com o Eixão das Águas, o sistema que abastece a Região Metropolitana de Fortaleza. O chamado Trecho Emergencial já está liberado para essa finalidade, mas o alcance total depende da consolidação das interligações.
Entre as cidades atendidas pelo percurso estão Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Caririaçu, Farias Brito, Nova Olinda e Santana do Cariri. A prioridade declarada do sistema é o consumo humano, e só depois vêm indústria, turismo, dessedentação animal e agricultura irrigada. O Cariri é a segunda região mais populosa do Ceará, o que explica a escolha do destino.
Orós, Castanhão e o desenho por trás da obra
Existe uma função estratégica do Trecho 1 que raramente aparece na cobertura e que é talvez a mais relevante do ponto de vista de gestão hídrica estadual.
Segundo a Secretaria dos Recursos Hídricos, além de levar água ao Cariri, a implantação do trecho permite transferir as vazões da transposição do São Francisco até o açude Orós, o segundo maior do estado, e melhora a eficiência da condução da água do Eixo Norte até o açude Castanhão, o maior reservatório cearense, enquanto o Ramal do Salgado não é construído.
Em outras palavras, o canal não serve apenas às torneiras das cidades por onde passa. Ele funciona como uma artéria que alimenta os dois maiores reservatórios do Ceará, e são esses reservatórios que sustentam boa parte da segurança hídrica estadual, incluindo a capital. Essa é a razão pela qual o projeto é tratado como infraestrutura estratégica, e não apenas como obra regional.
O que ainda falta responder
Um canal de 145 quilômetros que atravessa nove municípios, nove túneis abertos na rocha, mais de 20 quilômetros de sifões, 30 metros cúbicos por segundo de vazão projetada e nenhuma bomba na linha principal. O Cinturão das Águas do Ceará é engenharia de peso, e o trecho em construção é apenas a primeira etapa de um projeto que prevê mais de 1.200 quilômetros.
E você, o que acha dessa aposta? Obra de transferência hídrica desse porte resolve de fato a convivência com a seca ou trata sintoma sem mexer na causa, que é a distribuição e o uso da água? Vale gastar bilhões em concreto no semiárido quando existem alternativas descentralizadas como cisternas, poços e reúso? E mais: prazo que sai de junho de 2026 e vai para 2027 é atraso ou é o normal em obra dessa complexidade? Comente sua opinião, principalmente se você mora em algum dos municípios do trajeto e já viu a água chegar, ou não chegar, na sua torneira.

