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Preso no deserto do Saara com o carro quebrado a 32 km da cidade, um eletricista francês desmontou o próprio Citroën 2CV, parafusou as peças numa motocicleta e levou 12 dias para sair pilotando até ser resgatado

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 24/07/2026 às 12:06 Atualizado em 24/07/2026 às 12:07
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Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
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Em março de 1993, um eletricista francês de 43 anos ficou sozinho no Saara Ocidental com o carro destruído contra uma pedra. Em vez de caminhar, desmontou o Citroën 2CV, cortou o chassi e remontou tudo como uma motocicleta de duas rodas, sem freio e sem escapamento.

Emile Leray saiu da cidade costeira de Tan Tan, no Marrocos, com destino a Zagora, cerca de 640 quilômetros a nordeste, do outro lado do deserto. Levava suprimentos calculados para dez dias e uma caixa de ferramentas completa, e não era novato: o eletricista francês já havia rodado o Marrocos muitas vezes e conhecia bem a região. A história foi reconstituída pela publicação especializada Hagerty, que trata o episódio como um dos casos mais improváveis de sobrevivência automotiva já registrados.

O que interrompeu a viagem foi uma pedra. Depois de deixar a estrada principal para contornar um bloqueio militar, o Citroën 2CV bateu contra uma rocha em uma trilha, e a roda dianteira cedeu enquanto o braço da suspensão dobrava ao meio. O carro não andava mais. Registros sobre o caso situam o ponto da pane a cerca de 20 milhas de Tan Tan, algo em torno de 32 quilômetros, e é aí que começa a parte da história que ninguém acredita à primeira leitura: em vez de andar, o eletricista transformou o carro em moto.

Março de 1993, saindo de Tan Tan rumo a Zagora

Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
Emílio Leray

O contexto do lugar importa muito para entender por que a decisão dele não foi apenas excêntrica. O Saara Ocidental em 1993 combinava dois tipos de risco. O primeiro é o clima, com temperaturas diurnas altíssimas que despencam à noite, algo que transforma qualquer pane em problema de sobrevivência e não de logística.

O segundo era político. A região vivia sob um cessar fogo frágil na guerra entre a Frente Polisário, movimento separatista saaraui, e o governo marroquino. Isso significava postos de controle militar instalados em intervalos regulares, e um viajante solitário fora da estrada era exatamente o tipo de figura que um soldado não estava disposto a deixar passar.

Leray tinha bagagem para encarar aquilo. Em relato dado à imprensa britânica anos depois, ele contou que já havia rodado a África cerca de dez vezes e que escolheu o 2CV justamente porque, apesar de não ser um quatro por quatro, é um carro resistente. Segundo ele, no continente africano o modelo ganhou o apelido de camelo de aço, porque vai a qualquer lugar desde que o motorista seja delicado com ele.

O bloqueio militar que ele decidiu contornar

A poucos quilômetros do início da viagem veio o primeiro obstáculo, e ele não era técnico. Um posto de controle militar mandou Leray voltar para Tan Tan. Em algumas versões do episódio, os militares condicionaram a passagem ao transporte de um passageiro, e ele argumentou que o seguro do veículo não permitia levar acompanhante.

O que ele fez em seguida definiu todo o resto. Em vez de retornar, montou um plano para evitar os bloqueios seguintes, saiu da estrada e passou a dirigir o Citroën 2CV por uma trilha rochosa. A escolha de contornar o controle militar é a decisão que coloca todas as outras em movimento, e ele a tomou com plena consciência de onde estava se metendo.

Por um tempo, funcionou. O avanço era irregular, mas constante, sustentado por duas características do carro que a Hagerty faz questão de destacar: a suspensão de curso longo, lendária entre os fãs do modelo, e o peso baixo da carroceria. A combinação permite transpor obstáculos que deixariam muitos quatro por quatro modernos atolados. Leray começou a relaxar, convencido de que a travessia daria certo.

A pedra que encerrou a viagem de carro

Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
Emílio Leray
Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
Emílio Leray

Bastou um momento de desatenção. O 2CV atingiu uma rocha, e o estrago foi estrutural, não cosmético. A roda dianteira cedeu sob o carro enquanto o braço da suspensão dianteira dobrou ao meio. Não havia conserto possível ali, com aquelas ferramentas, naquele lugar.

Ele estava sozinho, fora da estrada principal, em terreno que havia escolhido justamente por ser pouco frequentado. A mesma decisão que o livrou dos bloqueios militares o deixou longe de qualquer chance de encontrar outro veículo por acaso. Restava o que ele tinha nas mãos: um motor e uma transmissão intactos, três rodas ainda utilizáveis, uma serra e comida e água calculadas para dez dias.

Vale sublinhar essa aritmética, porque ela define a tensão do que vem a seguir. Os dez dias de mantimentos não foram planejados para uma pane. Foram planejados para uma travessia de 640 quilômetros que deveria ter terminado em Zagora. A partir do impacto contra a rocha, cada dia consumido virou dia subtraído da margem de sobrevivência.

Por que ele não voltou a pé

A escolha óbvia era caminhar. Voltar até a estrada principal, torcer por uma carona até Tan Tan, ou fazer o trajeto inteiro no pé. É o que qualquer manual de sobrevivência recomendaria, e é a alternativa que a própria reportagem levanta antes de contar o que aconteceu.

O eletricista fez outra conta. Caminhar dezenas de quilômetros no Saara Ocidental, com temperatura extrema durante o dia e queda brusca à noite, carregando água limitada, não é uma caminhada, é um risco calculado com margem estreita. Ele preferiu apostar em ficar parado onde tinha sombra, ferramentas e um motor funcionando do que apostar nas próprias pernas em terreno aberto.

Havia ainda um fator que não aparece em nenhuma planilha de risco. Leray não era um turista que quebrou o carro, era um sujeito que conhecia aquele modelo peça por peça e já tinha desmontado e remontado 2CV a vida inteira. Para ele, o carro quebrado não era um destroço, era um estoque de componentes. Essa diferença de olhar é o que separa a história dele de todas as outras panes no deserto.

O projeto desenhado de cabeça na primeira noite

Sob o céu do deserto, na primeira noite, o eletricista montou o projeto mentalmente. O raciocínio partiu do que ainda funcionava: motor e transmissão estavam intactos, e ele tinha três rodas aproveitáveis, embora precisasse apenas de duas.

O plano tinha etapas claras. Retirar a carroceria, as rodas, a suspensão e todo o conjunto motopropulsor. Depois cortar o chassi com a serra, encurtando a estrutura. Por fim, reinstalar motor e transmissão sobre esse chassi reduzido, com uma única roda em cada extremidade. Na prática, transformar um carro de quatro rodas em um veículo de duas.

O detalhe que impressiona quem entende de oficina é o que ele não tinha. Não havia furadeira, maçarico nem equipamento de solda, o que significa que a máquina inteira foi montada apenas aparafusando peça em peça, com uma serra manual como ferramenta de corte. Nenhuma junta soldada, nenhum reforço estrutural feito com calor. Só parafuso, porca e cálculo.

Três dias de estimativa, doze de trabalho

Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
Emílio Leray
Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
Emílio Leray

Leray calculou que o serviço levaria três dias. Levou muito mais. As contagens variam um pouco conforme a publicação, mas o número que se consolidou nos registros sobre o caso é de doze dias entre o acidente e o momento em que ele conseguiu sair pilotando.

A rotina desses dias foi de desgaste puro. O calor escaldante testava a paciência e a precisão de cada operação, e à noite ele dormia protegido pela carroceria do 2CV, que virou abrigo contra o vento e a areia depois de removida do chassi. A carroceria que deixou de ser carro passou a ser barraca, e essa foi a primeira função nova que uma peça do Citroën assumiu naquele deserto.

O problema mais grave, porém, não era o cansaço. Era o relógio dos mantimentos. Leray racionou comida e água ao máximo, mas o cálculo original previa dez dias de suprimento, e a obra consumiu mais que isso. Quando a máquina ficou pronta para o primeiro teste, ele estava com muito pouca comida e quase nada de água. Relatos sobre o episódio mencionam algo próximo de meio litro restante no momento em que ele decidiu partir.

Uma máquina sem freio, sem escapamento e com 180 quilos

Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
Emílio Leray
Eletricista francês ficou preso no Saara com o Citroën 2CV destruído, desmontou o carro e passou 12 dias montando uma moto com as peças para escapar.
Emílio Leray

O resultado funcionou, mas não era um veículo no sentido normal da palavra. A máquina era extremamente difícil de operar, não tinha freio nenhum e não tinha sistema de escapamento, o que fazia o motor cuspir fumaça diretamente no rosto de quem pilotava.

O primeiro teste foi um fracasso. A engenhoca tombou para o lado, e Leray se viu na iminência de ficar preso embaixo dos 180 quilos da estrutura, conseguindo escapar no último instante. Ficar imobilizado sob a própria invenção, sozinho, com meio litro de água, teria sido o fim da história ali mesmo.

Ele insistiu. Foi progredindo devagar, entendendo o comportamento daquele conjunto improvável, até se considerar suficientemente habilidoso para tentar a fuga no dia seguinte. Não era domínio, era um mínimo de controle que permitisse tentar, o que já é bastante para uma máquina que ninguém no mundo havia pilotado antes.

Meio litro de água e a primeira etapa da fuga

Na manhã da partida, ele desmontou o acampamento com um cuidado que diz muito sobre o sujeito. Guardou com organização todas as peças e equipamentos não utilizados dentro da carroceria do 2CV, empacotou o que restava de mantimentos e uma barraca improvisada, e só então saiu.

A pilotagem se mostrou tão difícil quanto no teste. Sem freio, sem escapamento e com distribuição de peso que nenhum projetista assinaria, o eletricista não conseguiu avançar muito antes de decidir acampar de novo e tentar outra vez no dia seguinte.

Foi durante essa noite que a história virou. Ele acordou com soldados que tinham topado com o acampamento dele no meio do nada. Um homem sozinho no deserto, ao lado de uma máquina que não é carro nem moto, tentando explicar que aquilo antes era um Citroën, não é uma cena que inspire confiança em patrulha militar.

Os soldados não acreditaram, e foram conferir

A explicação de Leray não convenceu ninguém. Diante da desconfiança, a solução encontrada foi a mais direta possível: os militares o colocaram no próprio veículo quatro por quatro e foram até o ponto onde ele dizia estar o que sobrou do Citroën.

Os destroços confirmaram a versão. Havia ali a carroceria transformada em abrigo, as peças guardadas, o rastro de doze dias de trabalho. Com a história verificada, os soldados deram a ordem: Leray voltaria para Tan Tan pilotando a própria engenhoca, com eles seguindo atrás.

O trajeto foi penoso. Piloto e máquina permaneceram em desarmonia completa, com quedas repetidas ao longo do caminho, até que a solução prática se impôs. Outro veículo quatro por quatro foi chamado para rebocar a moto danificada até a cidade. A criação que atravessou o deserto terminou a viagem no reboque, o que não diminui em nada o fato de ela ter sido criada.

A recompensa por sobreviver foi uma multa

O desfecho em Tan Tan é a parte que costuma provocar mais reação em quem lê a história pela primeira vez. Leray não foi recebido com elogios pela engenhosidade nem pelo instinto de sobrevivência. Foi recebido com uma multa pesada por conduzir um veículo fora de conformidade.

A punição faz sentido do ponto de vista burocrático e nenhum do ponto de vista humano, e é justamente esse contraste que fixou o episódio na memória de quem gosta de carros. Do lado da fiscalização, havia um objeto sem registro, sem freio, sem escapamento e sem qualquer característica que o encaixasse em uma categoria legal. Do lado do motorista, havia um homem que tinha acabado de sair vivo do Saara.

Vale registrar que ele saiu do Marrocos sem a máquina. O eletricista voltou para a França sem o veículo que havia salvado a vida dele, e retornou um mês depois para buscá lo, dirigindo outro 2CV, porque nesse ponto da história qualquer outro carro seria uma traição ao personagem.

Por que justamente um 2CV, e não um quatro por quatro

Existe uma explicação técnica por trás do fato de tudo isso ter acontecido com esse modelo específico, e ela é mais interessante do que a coincidência sugere. O Citroën 2CV foi projetado nos anos 1930 e 1940 com uma lista de exigências pouco usual: precisava atravessar campo arado sem quebrar os ovos transportados, rodar em estrada ruim e ser mantido por gente sem oficina por perto.

Disso saíram as características que aparecem nesta história. Suspensão de curso longo, que absorve terreno irregular em vez de brigar com ele. Peso baixo, que evita afundar em areia solta. E uma mecânica simples o bastante para ser desmontada com ferramenta comum, sem eletrônica embarcada e sem componentes que exijam equipamento especializado.

É por isso que o carro ganhou o apelido de camelo de aço na África e, na Inglaterra, o de caracol de lata. Nenhum projetista da Citroën imaginou que a simplicidade do modelo permitiria remontá lo como motocicleta no meio do Saara, mas foi exatamente essa simplicidade que tornou a operação possível. O próprio Leray seguiu explorando o limite do modelo depois, chegando a construir uma versão anfíbia do carro e outras curiosidades mecânicas ao longo dos anos.

O carro virou moto, e a moto virou peça de museu

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

A máquina de duas rodas que saiu daquele acidente não terminou no ferro velho. Desde as aventuras no deserto, o 2CV convertido foi exibido em vários países, funcionando como objeto de exposição e como prova física de que a história aconteceu de verdade.

Olhando com três décadas de distância, é difícil não concordar com a observação irônica da própria reportagem: provavelmente teria sido mais fácil para Leray simplesmente caminhar até um lugar seguro. Só que, se ele tivesse feito isso, ninguém estaria falando dele até hoje.

E aí fica a pergunta que rende discussão de verdade. Você acha que a decisão dele foi coragem ou teimosia perigosa, daquelas que quase custam a vida de quem se recusa a aceitar a saída simples? Comenta aqui embaixo o que você teria feito parado a 32 quilômetros da cidade com o carro destruído, e conta a maior gambiarra mecânica que você já fez para não ficar na mão.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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