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Brasileira volta ao Japão décadas depois e encontra comunidade com mais de mil famílias vivendo perto da indústria de Toyota, onde relatos apontam jornadas de 10 a 12 horas, terceirização, salários desiguais e rotina marcada por horas extras

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 22/08/2026 às 17:35
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Mariana Shinohara Roncato voltou à região de Toyota, onde viveu na infância, e pesquisou brasileiros em Homidanchi; o estudo descreve trabalho terceirizado, jornadas de 10 a 12 horas e desigualdades de gênero e nacionalidade.
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Mariana Shinohara Roncato voltou à região de Toyota, onde viveu na infância, e pesquisou brasileiros em Homidanchi; o estudo descreve trabalho terceirizado, jornadas de 10 a 12 horas e desigualdades de gênero e nacionalidade.

Mariana Shinohara Roncato conheceu o Japão primeiro como filha de imigrantes e, décadas depois, voltou ao mesmo território como pesquisadora. Em Toyota, cidade onde viveu parte da infância e juventude, ela reencontrou o Homidanchi, conjunto habitacional conhecido pela forte presença brasileira, para investigar como trabalho, migração e vida familiar se cruzam no cotidiano dos decasséguis.

A socióloga nasceu no Brasil e foi levada pela família ao Japão aos 9 anos, no início da década de 1990. Viveu cerca de dez anos no país. A experiência pessoal se transformou mais tarde em objeto de pesquisa acadêmica e ajudou a orientar o trabalho que resultou no livro Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social.

Na pesquisa de campo realizada entre 2016 e 2017, Roncato voltou repetidamente à cidade de Toyota e ao Homidanchi. O conjunto é descrito como uma espécie de “Little Brazil” e reúne mais de mil famílias brasileiras, formando uma das paisagens mais visíveis da presença decasségui na região industrial.

Homidanchi virou ponto de partida para entender a vida brasileira em Toyota

A volta ao bairro teve um peso que ultrapassava a pesquisa formal. Roncato havia morado ali com a família quando criança e adolescente. Seus pais e outros parentes trabalharam como operários, inseridos no mesmo circuito industrial que atraiu milhares de brasileiros descendentes de japoneses nas décadas de 1990 e 2000.

O movimento decasségui ganhou força depois de mudanças na legislação migratória japonesa que facilitaram a entrada de descendentes de japoneses. Para muitas famílias brasileiras, a promessa era trabalhar durante alguns anos, acumular recursos e retornar ao Brasil. Muitas, porém, permaneceram no Japão por muito mais tempo.

O Homidanchi tornou-se um retrato dessa permanência. Placas e estabelecimentos com referências em português, redes familiares e serviços voltados à comunidade brasileira convivem com uma rotina marcada pelo trabalho industrial. A cidade de Toyota, sede da montadora de mesmo nome, concentra fábricas e empresas que dependem de cadeias de terceirização.

Foi nesse ambiente que a pesquisadora ouviu trabalhadores e trabalhadoras sobre contratos, salários, horas extras, cuidado dos filhos e discriminação. Em vez de olhar apenas para a migração como deslocamento entre países, o estudo acompanha como a condição de imigrante afeta o tempo disponível, a renda, a moradia e a própria capacidade de construir uma vida estável.

Passarela no Homidanchi com aviso em português e japonês
Avisos bilíngues no Homidanchi refletem a presença de moradores brasileiros no conjunto de Toyota. Crédito: Abasaa / Wikimedia Commons.

Jornadas de 10 a 12 horas aparecem nos relatos de trabalhadores

Segundo a síntese publicada pela Boitempo sobre a pesquisa, um decasségui trabalha em média seis dias por semana, com jornadas diárias de dez a doze horas, podendo superar esse período conforme a produção. Muitos são contratados por empreiteiras ou intermediários e recebem por hora trabalhada.

Essa forma de contratação torna a hora extra uma peça central do orçamento. Diferentemente de trabalhadores japoneses com contratos por tempo indeterminado, muitos imigrantes dependem de jornadas mais longas para garantir a renda mensal e tentar formar alguma poupança.

Roncato também encontrou diferenças de remuneração associadas à nacionalidade e ao gênero. Nos relatos reunidos pela pesquisa, mulheres podem receber menos e ainda assumir uma segunda jornada de trabalho doméstico e cuidado. Mães solo aparecem em situação especialmente vulnerável porque precisam conciliar turnos de fábrica, renda e responsabilidade pelos filhos.

A desigualdade não se limita à divisão entre japoneses e estrangeiros. A pesquisa descreve hierarquias entre grupos imigrantes, nas quais trabalhadores de diferentes nacionalidades podem receber valores distintos por atividades semelhantes. O cotidiano industrial, portanto, combina a necessidade de mão de obra com mecanismos que mantêm parte desses trabalhadores em posições mais frágeis.

Experiência de infância virou pesquisa sobre trabalho, gênero e migração

A trajetória de Roncato ajuda a explicar por que o estudo combina trabalho e vida cotidiana. Ela própria viveu a sensação de ser brasileira no Japão e, ao retornar ao Brasil, ser frequentemente percebida como japonesa. Essa experiência de pertencimento dividido reaparece na análise sobre famílias que vivem por anos em condição de permanência incerta.

Vista ampla dos edifícios do Homidanchi em Toyota, no Japão
O conjunto habitacional Homidanchi concentra uma comunidade brasileira numerosa na cidade industrial de Toyota. Crédito: Tomio344456 / Wikimedia Commons.

Durante o trabalho de campo, a pesquisadora não voltou apenas a uma cidade industrial. Voltou às ruas, aos conjuntos habitacionais e às relações sociais que fizeram parte da sua formação. A pesquisa passou a observar como o emprego fabril afeta a reprodução da vida: quem cuida das crianças, quem faz o trabalho doméstico, quanto tempo resta depois do turno e como as famílias lidam com o desejo de permanecer ou retornar ao Brasil.

O estudo também registra episódios de hostilidade contra imigrantes, incluindo a circulação de grupos nacionalistas com discursos contra estrangeiros na região do Homidanchi. A presença brasileira, consolidada durante décadas, convive assim com uma tensão permanente entre integração econômica e reconhecimento social.

Ao transformar a própria experiência em investigação sociológica, Roncato voltou ao lugar onde cresceu para olhar de outra forma para uma história conhecida por dentro. O resultado mostra que, por trás dos números da imigração brasileira no Japão, existem jornadas longas, contratos frágeis, redes comunitárias e famílias que aprenderam a viver entre dois países.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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