Ao contar a trajetória de Choi Gi-young, um carpinteiro coreano reconhecido como daemokjang, a tradição hanok reaparece menos como nostalgia e mais como técnica construtiva baseada em pinheiro, barro, pedra, papel e encaixes estruturais que regulam o ar interno, respeitam o clima e prometem resistência sísmica sem ferragens metálicas aparentes.
O carpinteiro coreano Choi Gi-young descreve a hanok como uma estrutura que não se limita a abrigar pessoas, mas acompanha o ambiente ao redor com materiais naturais e soluções construtivas que, segundo ele, continuam vivos mesmo depois de incorporados à casa. Um dos três daemokjang ainda existentes na Coreia, ele se tornou referência nacional em restauração e construção tradicional ao assumir o processo inteiro, da escolha da madeira ao fechamento final da estrutura.
A força dessa visão vem de uma vida marcada por guerra, pobreza, trabalho precoce e aprendizado duro, mas também pela convicção de que princípios construtivos antigos ainda respondem a demandas muito atuais, como conforto térmico, durabilidade, integração com a natureza e segurança estrutural. É nesse ponto que a hanok deixa de parecer relíquia e passa a disputar espaço com a arquitetura contemporânea.
Da pobreza no pós-guerra ao posto de mestre da madeira

A biografia de Choi ajuda a explicar por que sua relação com a carpintaria nunca foi tratada como ornamento cultural.
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Nascido em 1945, logo após a libertação da Coreia do domínio colonial japonês, ele cresceu em um país devastado pela Guerra da Coreia.
Perdeu o pai aos 5 anos, viu a família mergulhar na pobreza extrema e mal conseguiu concluir o ensino fundamental, porque passava os dias coletando lenha nas montanhas e cortando capim nos campos. Antes de existir prestígio, havia sobrevivência.
Foi nesse ambiente que ele decidiu aprender um ofício. A escolha, segundo seu próprio relato, não surgiu de vocação idealizada, mas de necessidade material.
Ainda jovem, frequentou um seodang, academia confucionista tradicional, onde recebeu formação básica em clássicos chineses, conteúdo que mais tarde o ajudaria a compreender melhor a arquitetura coreana.
A carpintaria apareceu, naquele momento, como caminho estável para sustentar a própria vida. O que veio depois foi resultado de disciplina, repetição e uma capacidade acima da média para observar, memorizar e reproduzir formas complexas.
Com o tempo, o carpinteiro coreano passou a trabalhar com mestres como Kim Deok-hee e Kim Chung-hee e percorreu o país em obras importantes, entre elas intervenções no Templo Woljeongsa, no condado de Pyeongchang-gun, e no Palácio Deoksugung, em Seul.
À noite, enquanto outros descansavam, ele estudava plantas, subia muros, iluminava beirais e pilares com lanterna e desenhava detalhes sob a luz do luar quando nem isso tinha à mão.
O domínio técnico não foi tratado como dom espontâneo, mas como resultado de obsessão por estrutura, proporção e encaixe.
Esse percurso ajuda a entender por que o título de daemokjang tem um peso que vai muito além da habilidade manual. Na tradição coreana, o mestre não executa apenas cortes e montagens.
Ele assume responsabilidade total pelo projeto, pela seleção da madeira, pela leitura do espaço e pela coerência da obra. Não é apenas um operário especializado.
É alguém que pensa a casa desde sua lógica interna até sua adaptação ao modo de vida do morador.
Por que a hanok é descrita como uma casa que respira

Quando Choi afirma que a hanok “respira”, ele não está usando só uma imagem poética. A explicação dele parte dos materiais. Pinheiro coreano, terra, pedra, telhas e papel aparecem como componentes naturais que mantêm trocas com o ambiente, em vez de formar uma caixa totalmente selada.
Na visão do mestre, até depois de cortada, a madeira continua viva, e a resina do pinheiro segue circulando como uma espécie de sangue estrutural.
A casa, nesse entendimento, não interrompe a natureza; ela prolonga a natureza em forma construída.
Essa leitura também se conecta à durabilidade. Choi sustenta que uma hanok bem feita pode durar mil anos se for habitada e cuidada, ainda que o tempo deixe rachaduras em paredes de terra e madeira.
O argumento dele não é o de uma perfeição intocável, mas o de uma longevidade compatível com manutenção contínua e respeito aos fundamentos construtivos. Isso desloca o debate da ideia de acabamento impecável para a ideia de permanência.
Uma casa tradicional não seria valiosa por parecer nova para sempre, mas por envelhecer sem perder sua integridade.
O carpinteiro coreano também relaciona esse sistema ao conforto cotidiano. Ele afirma que os materiais naturais usados em paredes, teto, portas e janelas funcionam como filtros de alta qualidade, retendo o que seria indesejável ao corpo humano.
A ventilação, a textura dos materiais e a própria lógica do ambiente interno fazem parte dessa experiência. Em vez de um espaço vedado e abafado, a hanok aparece como um lugar onde o ar circula de forma mais equilibrada.
É uma concepção de moradia em que saúde, clima e construção não ficam separados.
Outro elemento decisivo nessa percepção é o ondol, o sistema tradicional de aquecimento de piso.
Choi o apresenta como uma solução que organiza a diferença de temperatura entre a parte inferior e superior do cômodo, gerando sensação de conforto distinta da obtida em ambientes de concreto fechados e aquecidos artificialmente.
A comparação dele é direta: uma casa selada pode esquentar, mas também pode sufocar. Na hanok, o aquecimento não elimina a respiração da casa.
Madeira intertravada e a promessa de proteção estrutural
Um dos pontos mais fortes do relato de Choi é a defesa da armação de madeira como sistema estrutural inteligente.
Segundo ele, a estrutura da hanok se encaixa com precisão, formando uma barreira natural contra terremotos.
Essa afirmação não aparece como espetáculo tecnológico, mas como consequência do modo como as peças são pensadas para se ajustar e distribuir forças dentro do conjunto.
A segurança, nesse caso, viria do princípio da montagem, não do excesso de material.
Essa lógica ajuda a explicar por que a tradição exige tanto do mestre carpinteiro. Não basta conhecer medidas genéricas. É preciso decidir altura, largura, espessura, proporção entre colunas, relação entre cobertura e espaço interno, além da qualidade específica de cada peça de madeira.
Choi resume esse rigor ao dizer que um verdadeiro mestre pensa no estilo de vida de quem vai ocupar o edifício e calcula cada detalhe a partir disso.
A casa, então, não é composta por módulos indiferentes, mas por decisões que articulam uso, clima e resistência.
No caso das obras históricas, esse conhecimento se revela de modo ainda mais exigente. Choi desmontou, reparou e remontou o Salão Geungnakjeon do Templo Bongjeongsa, em Andong, edifício construído por volta de 1200 e apontado como o mais antigo prédio de madeira ainda existente na Coreia.
Lidar com uma estrutura assim não significa apenas restaurar uma superfície antiga. Significa compreender o raciocínio construtivo original, respeitar a lógica dos encaixes e devolver estabilidade sem apagar a identidade da obra.
Restaurar, nesse contexto, é provar que o sistema ainda pode funcionar séculos depois.
A temporalidade do trabalho também importa. O carpinteiro coreano explica que o inverno é visto como estação favorável para esse tipo de construção, porque o frio e a baixa umidade ajudam no corte e na secagem da madeira.
As obras começavam antes do solo congelar, a base era resolvida cedo, a estrutura precisava estar pronta antes de março e as telhas deviam ser assentadas antes do período chuvoso.
Até o reboco seguia o calendário, com melhor resultado antes e depois do Chuseok, quando o ciclo de umidade e secagem tendia a reduzir rachaduras. O cronograma, portanto, não era detalhe administrativo, mas parte da técnica.
Tradição viva, obras novas e um modelo que resiste ao tempo
A permanência do hanok não depende apenas da preservação de templos e palácios. Choi afirma que construções modernas continuam sendo erguidas em diferentes partes do país, mantendo métodos tradicionais mesmo em contextos atuais.
Ao recomendar o Hotel Hanok Yechon, em Namwon, Jeollabuk-do, ele chama atenção para um ponto essencial: a tradição não precisa existir apenas como patrimônio congelado. Ela pode seguir operando como habitação, hospedagem e experiência contemporânea de morar.
Esse argumento ganha força porque o mestre não trata o hanok como peça de museu. Para ele, o mundo pode acelerar, as máquinas podem reduzir tempo de trabalho e aumentar conveniência, mas os princípios construtivos continuam os mesmos.
A essência, em sua visão, não está na recusa do presente, e sim na permanência dos fundamentos. Modernizar ferramenta não deveria significar abandonar a lógica que dá sentido à casa.
Há também um componente simbólico importante nessa defesa. Em uma sociedade que se transforma rapidamente, o hanok apareceria como mensagem de continuidade.
Comer continua sendo necessidade humana, independentemente de a comida ser feita em caldeirão ou panela elétrica. Do mesmo modo, morar continua exigindo abrigo saudável, conforto e relação equilibrada com o ambiente.
O carpinteiro coreano usa essa comparação para afirmar que o valor da tradição não está no passado em si, mas na permanência de necessidades que o presente ainda não aboliu.
Ao mesmo tempo, a história pessoal de Choi impede que essa defesa soe ingênua. Ele não idealiza o trabalho artesanal como refúgio fácil.
Seu percurso foi feito de privação, poucas horas de sono, treino contínuo e responsabilidade crescente sobre obras históricas de grande relevância. Talvez por isso sua fala sobre o hanok tenha peso especial.
Ela parte de alguém que não herdou conforto, mas construiu autoridade técnica peça por peça.
A trajetória de Choi Gi-young transforma a hanok em algo maior do que uma casa tradicional coreana admirada de longe.
Pela forma como ele descreve a seleção da madeira, o uso de barro, pedra, telhas e papel, o funcionamento do ondol e os encaixes estruturais da armação, fica claro que essa arquitetura carrega uma visão completa de construção.
Ela une ambiente, saúde, proporção, tempo de obra e resistência num sistema coerente, mesmo quando confrontado pela velocidade da construção moderna.
Se você tivesse que escolher um único critério para definir uma boa casa, ficaria com a rapidez da obra, com a durabilidade de séculos, com o uso de materiais naturais ou com a sensação de respirar melhor dentro dela? E, olhando para a lógica da hanok, você acredita que a arquitetura atual perdeu fundamentos que ainda fazem diferença no dia a dia?

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