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Mergulhadores encontram no fundo do Mediterrâneo uma aldeia de cerca de 7 mil anos onde ainda sobrevivem estruturas de casas, restos humanos e uma muralha de mais de 100 metros construída quando o avanço do mar começou a ameaçar os moradores

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 13/08/2026 às 20:27
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Mergulhadores encontram no fundo do Mediterrâneo uma aldeia de cerca de 7 mil anos
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Tel Hreiz, assentamento neolítico submerso na costa de Israel, preserva estruturas de pedra, restos humanos e uma muralha com mais de 100 metros construída há cerca de 7 mil anos para tentar conter o avanço do Mediterrâneo, considerada pelos pesquisadores a mais antiga defesa costeira desse tipo conhecida no mundo.

Debaixo das águas rasas do Mediterrâneo, na costa do Carmelo, no norte de Israel, arqueólogos documentaram os vestígios de Tel Hreiz, um assentamento neolítico ocupado aproximadamente entre 7.500 e 7.000 anos antes do presente.

Em uma área arqueológica de cerca de 11 mil m² foram registrados restos arquitetônicos, objetos, ossos de animais, esqueletos humanos e uma barreira de grandes pedras com mais de 100 metros de extensão.

A característica mais extraordinária do sítio é justamente essa muralha. Um estudo publicado na revista científica PLOS ONE concluiu que ela foi construída deliberadamente pelos habitantes para enfrentar o avanço do Mediterrâneo, protegendo a aldeia das ondas, da erosão e da progressiva aproximação da faixa atingida pelo mar. Os autores classificaram Tel Hreiz como a defesa costeira conhecida mais antiga desse tipo no mundo.

Tel Hreiz preserva edifício retangular, paredes de pedra e estruturas no antigo fundo da aldeia

Os vestígios arquitetônicos encontrados em Tel Hreiz ajudam a reconstruir uma comunidade que existiu onde hoje estão o mar e a faixa costeira.

Entre as estruturas documentadas está um edifício retangular de aproximadamente 3 por 4 metros, além de fragmentos de paredes retas e curvas com comprimentos entre 1 e 3 metros.

Tel Hreiz, assentamento neolítico submerso
All photographs by E. Galili with the exception of Fig 3G by V. Eshed

Os pesquisadores também identificaram instalações circulares construídas com pedras não trabalhadas e concentrações de postes de madeira cravados no solo.

Esses postes podem ter servido como fundações de estruturas temporárias, embora os próprios autores tratem essa interpretação com cautela.

O conjunto arqueológico está distribuído entre a atual linha de costa e áreas que chegam a cerca de quatro metros abaixo do nível médio do mar.

Tel Hreiz foi reconhecido como sítio arqueológico ainda na década de 1960, mas grandes trechos ficaram mais visíveis a partir de 2012, quando processos naturais removeram parte da camada de areia que normalmente cobre e protege os vestígios.

Dois esqueletos de jovens mulheres foram encontrados entre os vestígios de Tel Hreiz

A preservação não se restringiu às construções. Os arqueólogos recuperaram dois esqueletos humanos perturbados pelo processo de deposição e erosão, encontrados enterrados na camada de argila do sítio. As análises indicaram que ambos pertenciam a mulheres com aproximadamente 18 a 20 anos.

Próximo aos esqueletos foi documentada ainda uma pequena estrutura retangular de cerca de 1 por 0,5 metro.

Os pesquisadores consideram que ela pode corresponder a uma sepultura construída com pedras, mas a estrutura não foi escavada e, portanto, essa função não foi estabelecida de maneira definitiva.

Tel Hreiz faz parte de um conjunto de assentamentos neolíticos submersos da costa do Carmelo que apresenta preservação incomum de vestígios humanos, animais e vegetais.

Pesquisas sobre esses sítios também registraram madeira, cestaria, artefatos de pedra e outros materiais que normalmente têm pouca chance de sobreviver por milênios em sítios terrestres expostos.

Muralha de mais de 100 metros foi construída com pedras que chegam a uma tonelada

A grande barreira de Tel Hreiz apareceu parcialmente depois de tempestades em 2012 e novamente em 2015. Os trechos expostos, somados, ultrapassam 100 metros.

A estrutura está hoje cerca de três metros abaixo do nível médio do mar, aproximadamente 90 metros mar adentro, seguindo em grande parte uma linha paralela à costa atual.

Beneath the shallow waters of the Mediterranean, off the coast of Carmel in northern Israel, archaeologists have documented the remains of Tel Hreiz.
(a) Eastern Mediterranean and the Israeli coast; (b) submerged Neolithic settlements off the Carmel coast (drawing J. McCarthy after Galili et al. 2019, modified after Natural Earth (https://www.naturalearthdata.com in the public domain).

A escala da obra se torna ainda mais significativa quando são examinadas as pedras utilizadas. O muro foi construído principalmente com grandes blocos arredondados de kurkar, uma rocha sedimentar local, e calcário. Os blocos podem alcançar dimensões próximas de um metro e têm massas estimadas entre 200 e 1.000 quilos.

Essas pedras grandes não ocorrem naturalmente naquele ponto da antiga aldeia. O estudo identificou como fontes possíveis os leitos e desembocaduras dos rios Oren e Galim, situados respectivamente a aproximadamente 3,8 quilômetros ao sul e 1,6 quilômetro ao norte do assentamento. Isso significa que os construtores tiveram de transportar os blocos até o local da obra.

Avanço do Mediterrâneo podia chegar a dezenas de centímetros durante uma vida humana

Quando Tel Hreiz começou a ser ocupado, os pesquisadores estimam que a aldeia estivesse em terreno aproximadamente dois a três metros acima do nível médio do mar, posição inicialmente segura em relação às ondas.

O problema surgiu com a elevação pós-glacial do Mediterrâneo e a progressiva migração da linha costeira em direção ao assentamento.

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Segundo a reconstrução apresentada pelos pesquisadores, populações costeiras mediterrâneas daquele período poderiam experimentar aumentos do nível do mar da ordem de 4 a 7 milímetros por ano.

Em uma vida adulta de aproximadamente 30 anos, isso representaria algo entre 12 e 21 centímetros; ao longo de um século, a elevação poderia alcançar cerca de 70 centímetros.

Não se tratava, portanto, de uma mudança invisível para quem vivia ali durante décadas. Para os autores, o avanço da água aumentaria progressivamente a frequência e a intensidade dos danos provocados por ondas, tempestades e pela aproximação da zona de arrebentação.

A construção da muralha teria sido uma resposta direta dessa população a um problema ambiental que se tornava perceptível dentro de gerações humanas.

Comunidade viveu em Tel Hreiz por até 500 anos antes de abandonar o assentamento

As datações por radiocarbono e o conjunto de objetos encontrados indicam que Tel Hreiz pertence à fase Wadi Rabah do Neolítico Cerâmico tardio do Levante meridional.

A ocupação pode ter durado aproximadamente 300 a 500 anos, o equivalente, segundo os pesquisadores, a dez ou mais gerações vivendo no mesmo assentamento.

Os moradores não dependiam de uma única atividade. Os vestígios indicam agricultura, criação de animais, caça e pesca. Entre os materiais encontrados estão ossos de bovinos domesticados, caprinos, porcos e cães, além de gazelas, gamos, peixes marinhos e peixes de água doce.

Centenas de caroços de azeitona encharcados também sobreviveram no sítio e foram interpretados como evidência relacionada ao processamento de azeitonas. Objetos de sílex, cerâmica característica da cultura Wadi Rabah e instrumentos de pedra feitos de calcário, arenito e basalto completam o retrato material da aldeia.

Muralha separava a parte principal da aldeia do mar que avançava sobre a costa

A posição da construção foi fundamental para que os pesquisadores descartassem outras explicações para o alinhamento de pedras.

A muralha ficava entre o mar e a concentração principal das estruturas arquitetônicas e instalações da comunidade, acompanhando aproximadamente a antiga linha costeira.

O estudo avaliou hipóteses como limite de campo, curral, estrutura doméstica, barragem ou instalação para manejo de água doce, mas concluiu que a localização, orientação, dimensões e método construtivo não se encaixavam nessas funções.

A interpretação considerada mais consistente foi a de uma barreira planejada para conter ondas e erosão costeira.

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Datações realizadas em materiais próximos à muralha também a colocaram no mesmo período da aldeia. Uma pequena lareira associada à construção continha carvão e parte de uma tigela de madeira, enquanto restos de bovinos próximos forneceram datas compatíveis com a ocupação neolítica.

Defesa costeira mais antiga conhecida não conseguiu impedir o abandono de Tel Hreiz

A obra provavelmente proporcionou alguma proteção temporária. Não foi, entretanto, suficiente para vencer uma transformação da paisagem que continuou durante décadas.

O estudo conclui que, apesar do investimento coletivo necessário para construir a barreira, a aldeia acabou sendo abandonada e posteriormente inundada.

O mar que tornou inviável a permanência da comunidade também ajudou, paradoxalmente, a preservar parte de sua história.

Os sítios neolíticos submersos da região foram cobertos por sedimentos marinhos, criando condições que favoreceram a conservação de materiais arqueológicos até que tempestades e outras perturbações voltassem a expô-los milhares de anos depois.

É justamente essa combinação que torna Tel Hreiz excepcional: não apenas uma aldeia pré-histórica hoje localizada sob o Mediterrâneo, mas evidência arqueológica de uma população identificando uma mudança no litoral, mobilizando mão de obra e transportando blocos de centenas de quilos para construir uma defesa costeira.

Mais de sete milênios depois, a muralha permanece como o exemplo mais antigo conhecido dessa estratégia de adaptação ao avanço do mar.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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