Belga que deixou para trás uma vida confortável na Europa percorreu milhares de quilômetros, escolheu viver na Serra de Córdoba e hoje dedica seus dias à recuperação da vegetação nativa, à bioconstrução e à preservação de uma área equivalente a mais de 360 campos de futebol.
Enquanto muita gente sonha em construir uma carreira estável na Europa, o belga Malori, conhecido como Mago, fez o caminho inverso. Aos 33 anos, abandonou um emprego que lhe rendia cerca de 2 mil euros por mês, vendeu praticamente tudo o que possuía, atravessou diversos países e encontrou nas montanhas da província de Córdoba, na Argentina, um propósito que, segundo ele, mudou completamente sua forma de enxergar a vida: proteger 260 hectares de mata nativa.
A história foi contada em entrevista ao canal Música Rutera, que acompanhou a rotina de Mago na região de Traslasierra, onde ele vive há cerca de um ano e meio.
O que mais chama atenção é que sua mudança não teve motivação financeira. Pelo contrário.
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Mesmo com estabilidade, carro próprio e uma vida considerada confortável na Bélgica, ele afirma que sentia um vazio difícil de explicar.
“Eu ganhava um bom dinheiro, cerca de 2 mil euros por mês. Tinha carro, tinha tudo o que queria, mas minha vida não fazia sentido”, relembrou durante a entrevista.
Essa sensação acabou desencadeando uma transformação que o levaria para muito longe de casa.
De um salário confortável na Bélgica para uma caminhada de 2.500 quilômetros

Antes de chegar à América do Sul, Mago iniciou uma longa jornada de autoconhecimento.
Ele decidiu caminhar cerca de 2.500 quilômetros entre Bélgica, França e Espanha, experiência que durou 87 dias e mudou sua visão sobre as pessoas e sobre o próprio estilo de vida. Durante o percurso, contou que foi acolhido por desconhecidos, recebeu ajuda de moradores e passou a acreditar que a solidariedade ainda é uma característica marcante das relações humanas.
Depois vieram novas viagens pelo Sudeste Asiático, onde conheceu comunidades que, mesmo vivendo com poucos recursos materiais, mantinham fortes laços familiares e uma rotina que ele descreve como mais tranquila.
Foi nesse período que passou a questionar o modelo de vida baseado apenas em trabalho, consumo e acumulação de bens.
Não é raro encontrar relatos de pessoas que deixam grandes centros urbanos em busca de uma rotina mais simples. O diferencial da trajetória de Mago está na profundidade dessa mudança: ela não envolveu apenas uma troca de endereço, mas uma reconstrução completa do modo como ele decidiu viver.
Argentina conquistou o belga logo nos primeiros dias

A chegada à Argentina aconteceu quase por acaso.
Inicialmente, o plano era percorrer diversos países da América do Sul viajando de carona. Bastaram poucos dias para que ele começasse a se encantar com a receptividade dos argentinos.
Depois de passar por Buenos Aires, cruzar o país até Ushuaia, subir novamente pela Ruta 40 e conhecer diferentes regiões, Mago chegou à província de Córdoba.
Foi ali que encontrou aquilo que buscava havia anos.
Segundo ele, a combinação entre natureza, comunidades rurais e projetos de bioconstrução fez nascer o desejo de permanecer definitivamente na região.
Casa de barro foi construída praticamente sozinho
Enquanto buscava uma área definitiva para viver, Mago construiu uma pequena casa utilizando técnicas de bioconstrução.
A residência foi erguida quase inteiramente por ele, com barro, madeira, bambu, materiais reciclados e recursos encontrados na própria região.
O trabalho levou cerca de quatro meses, incluindo a fabricação de móveis, portas, janelas e até um colchão feito com palha. A construção também utiliza banheiro seco, sistema de reaproveitamento de materiais e aquecimento de água por lenha.
Mais do que uma escolha estética, esse tipo de construção faz parte da filosofia de reduzir impactos ambientais e aproveitar recursos locais sempre que possível.
O novo desafio: proteger 260 hectares de mata nativa

O maior projeto de Mago começou quando surgiu a oportunidade de adquirir uma propriedade rural de aproximadamente 260 hectares em Altautina, na Serra de Córdoba.
Segundo ele, a intenção inicial nunca foi comprar uma área tão extensa. A oportunidade apareceu inesperadamente e acabou se transformando em uma missão de conservação ambiental.
Para conseguir reunir recursos, vendeu bens pessoais, organizou uma rifa de seu motorhome e contou com o apoio de pessoas que acreditaram na iniciativa. Parte da arrecadação veio justamente da mobilização coletiva criada em torno do projeto.
Durante a entrevista, ele faz questão de afirmar que não se considera dono da terra.
Seu objetivo, segundo explica, é atuar como um “guardião” da área, promovendo a regeneração do solo, protegendo o monte nativo e incentivando outras pessoas a participarem da preservação.
Essa visão acompanha uma tendência cada vez mais presente em iniciativas independentes de conservação ambiental, nas quais o foco deixa de ser apenas a propriedade da terra e passa a priorizar sua recuperação ecológica e o uso sustentável dos recursos naturais.
Um projeto que continua crescendo
Hoje, Mago pretende ampliar a recuperação da vegetação nativa, fortalecer ações de educação ambiental e reunir voluntários interessados em participar do trabalho de preservação na Serra de Córdoba.
Segundo o relato apresentado pelo canal Música Rutera, em 24 de maio de 2025, o projeto ainda está em desenvolvimento e depende da participação de apoiadores para continuar evoluindo. Os próximos passos incluem ampliar a regeneração da área, recuperar novas partes do terreno e consolidar iniciativas voltadas à conservação do monte cordobês.

