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Laser atravessa a vegetação da Amazônia e revela antigas aldeias ligadas por estradas de até 2 quilômetros, expondo vestígios de uma ocupação planejada da floresta

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Escrito por Carla Teles Publicado em 26/10/2026 às 16:21 Atualizado em 26/10/2026 às 16:25
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Tecnologia LiDAR revela estradas, aldeias e estruturas arqueológicas sob a floresta amazônica, com vestígios de ocupações indígenas milenares.
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Pesquisas com laser identificam caminhos, aldeias e construções de terra sob a vegetação, enquanto estudo estima até 30 mil estruturas pré-coloniais no sudoeste amazônico.

Estradas antigas, aldeias interligadas e construções geométricas permanecem escondidas sob a vegetação da Amazônia, revelando formas de ocupação indígena que começaram há mais de 2.500 anos. Pesquisas arqueológicas realizadas no Brasil e em outras regiões da bacia amazônica identificaram caminhos planejados, áreas agrícolas e estruturas de terra que mostram como diferentes comunidades organizavam seus territórios antes da chegada dos europeus.

As evidências foram reunidas em estudos publicados nas revistas científicas Science, em 2024, e Nature, em 2026, e voltaram a ser abordadas pelo NSC Total em reportagem de Kaíky Almeida publicada em 26 de outubro. As pesquisas utilizam a tecnologia LiDAR, capaz de mapear o relevo sob a cobertura vegetal e localizar vestígios que permanecem difíceis de identificar em observações convencionais.

Estradas retas conectavam aldeias indígenas em diferentes regiões da Amazônia

Tecnologia LiDAR revela estradas, aldeias e estruturas arqueológicas sob a floresta amazônica, com vestígios de ocupações indígenas milenares.
Imagem: Reprodução.

Os caminhos identificados por arqueólogos apresentam características que indicam planejamento na organização dos antigos assentamentos. Alguns possuem trajetos retilíneos, conectando áreas de habitação, praças e outros espaços utilizados pelas comunidades.

No Alto Xingu, em Mato Grosso, pesquisas anteriores já documentaram redes de aldeias conectadas por estradas. Esses assentamentos apresentavam praças centrais, estruturas defensivas e diferentes intervenções no terreno.

No vale do rio Upano, na Amazônia equatoriana, pesquisadores identificaram um sistema ainda mais extenso de ocupação antiga. O estudo publicado na revista Science em janeiro de 2024 descreveu centros populacionais ligados por estradas, caminhos e áreas agrícolas organizadas.

Os pesquisadores encontraram mais de 6 mil plataformas de terra construídas artificialmente, distribuídas em uma área de aproximadamente 300 quilômetros quadrados. Essas estruturas estavam associadas a pelo menos 15 conjuntos de assentamentos.

As estradas faziam parte da organização territorial dessas comunidades. Algumas conexões acompanhavam diferentes elevações do terreno, enquanto outras mantinham trajetos bastante regulares, formando uma rede que se estendia por dezenas de quilômetros.

O estudo indica que a ocupação começou por volta de 500 a.C. e continuou durante os primeiros séculos da era cristã. Os vestígios foram associados a diferentes grupos culturais que habitaram a região.

Essas evidências ampliam o conhecimento sobre antigas comunidades amazônicas. A existência de cidades de 2.500 anos na Amazônia já havia sido abordada pelo CPG em reportagem publicada em fevereiro de 2025, com base em pesquisas arqueológicas sobre assentamentos encobertos pela floresta.

Tecnologia LiDAR consegue revelar construções que estão escondidas pelas árvores

Vista aérea de floresta amazônica densa, com rio sinuoso cercado por árvores.
Floresta amazônica vista de cima. A cobertura vegetal dificulta a identificação de vestígios arqueológicos no terreno. Imagem: Gustavo Denuncio/Pexels.

A identificação de estruturas sob a floresta depende de técnicas capazes de superar a dificuldade imposta pela vegetação. Em muitos locais, copas de árvores e camadas de folhas impedem que antigas construções sejam observadas diretamente.

O LiDAR, sigla de Light Detection and Ranging, utiliza pulsos de laser emitidos por equipamentos instalados em aeronaves ou outras plataformas de levantamento.

Parte desses pulsos consegue atingir o terreno por pequenas aberturas entre folhas e galhos. Os sensores registram o retorno da luz e permitem calcular distâncias com precisão, gerando uma representação digital da superfície.

Os pesquisadores utilizam esses dados para separar os pontos associados à vegetação daqueles que representam o solo. O resultado é um modelo do relevo no qual aparecem depressões, elevações e traçados geométricos anteriormente encobertos.

A tecnologia não permite enxergar diretamente construções enterradas em grandes profundidades. Sua principal contribuição está na identificação das marcas que antigas intervenções humanas deixaram na superfície do terreno.

No caso dos caminhos e aldeias, esses registros podem mostrar plataformas, valas, canais e trechos elevados que fazem parte de antigos sistemas de circulação.

O mapeamento precisa ser combinado com pesquisas de campo, análises arqueológicas e métodos de datação. A presença de uma forma geométrica no relevo, isoladamente, não comprova sua idade ou função.

Estudo da Nature estima entre 24 mil e 30 mil estruturas antigas no sudoeste amazônico

Tecnologia LiDAR revela estradas, aldeias e estruturas arqueológicas sob a floresta amazônica, com vestígios de ocupações indígenas milenares.
Imagens produzidas com tecnologia LiDAR permitem observar estruturas arqueológicas escondidas pela vegetação da Amazônia. Imagem: Reprodução/A. Dorison e S. Rostain.

Um estudo publicado na revista Nature em julho de 2026 ampliou as estimativas sobre a quantidade de construções de terra existentes no sudoeste da Amazônia.

A pesquisa, conduzida por Martti Pärssinen e colaboradores, utilizou levantamentos aéreos realizados em 2024 sobre áreas dos estados do Acre e Amazonas.

Foram analisados aproximadamente 4.497 quilômetros quadrados de território, a partir de 4.430 quilômetros de trajetos de levantamento com sensores LiDAR.

Os pesquisadores identificaram 432 estruturas de terra nas áreas examinadas, das quais apenas 36 eram conhecidas anteriormente.

Ao comparar os novos resultados com levantamentos de satélite e registros arqueológicos existentes, a equipe calculou que a região investigada pode conter aproximadamente 24 mil a 30 mil estruturas pré-coloniais.

Esse número é uma estimativa estatística. Não significa que todas as construções tenham sido localizadas individualmente, escavadas ou confirmadas por equipes arqueológicas.

As estruturas incluem geoglifos, recintos geométricos e outras intervenções no terreno. Portanto, a estimativa não corresponde à quantidade de estradas ou aldeias existentes na Amazônia.

O estudo também apresentou estimativas populacionais para o período entre os anos 100 e 300 da era cristã, quando parte dessas estruturas estava em uso. Os pesquisadores calcularam que a região cultural examinada poderia ter abrigado entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes.

A projeção se refere à área estudada e ao período considerado, não à população de toda a Amazônia ao longo de sua história.

Geoglifos do Acre mostram construções realizadas há aproximadamente 2.500 anos

Tecnologia LiDAR revela estradas, aldeias e estruturas arqueológicas sob a floresta amazônica, com vestígios de ocupações indígenas milenares.
Estradas retilíneas encontradas sob a floresta ajudam pesquisadores a identificar antigas formas de circulação e conexão entre aldeias amazônicas. Imagem: Reprodução/Revista Science.

No Acre, os vestígios arqueológicos mais conhecidos incluem grandes desenhos geométricos formados por valas e elevações de terra.

Essas estruturas são chamadas de geoglifos e apresentam formatos circulares, quadrados e outras configurações. Algumas estão associadas a caminhos e ocupam áreas que passaram por diferentes transformações ao longo dos séculos.

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), os geoglifos da Amazônia Ocidental começaram a ser construídos há aproximadamente 2.500 anos.

Os primeiros registros científicos dessas estruturas no Acre ocorreram na década de 1970. A partir dos anos 2000, os sítios passaram a receber levantamentos arqueológicos mais sistemáticos.

Em julho de 2025, o Iphan informou que mais de mil geoglifos já haviam sido identificados no estado. A concentração ocorre principalmente na porção leste do Acre, em áreas relacionadas às bacias de rios como Acre e Iquiri.

A função original de todas essas construções ainda não está completamente esclarecida. Pesquisadores consideram possibilidades relacionadas a atividades coletivas, cerimônias e outras formas de organização social.

O patrimônio arqueológico também apresenta desafios de preservação. Algumas estruturas ficam em propriedades rurais ou em áreas sujeitas a mudanças no uso do solo, o que exige acompanhamento e medidas de proteção.

Pesquisadores investigam como as comunidades modificavam o ambiente amazônico

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As estradas não eram as únicas intervenções construídas pelos povos indígenas. Diferentes levantamentos identificaram sistemas agrícolas, canais de drenagem e áreas elevadas utilizadas na organização dos assentamentos.

No vale do Upano, os pesquisadores documentaram campos agrícolas associados a valas e canais que permitiam controlar o escoamento da água.

As plataformas artificiais estavam distribuídas em agrupamentos e conectadas por vias de circulação. A combinação dessas estruturas indica que parte da paisagem era organizada para atender às atividades das comunidades.

No Brasil, pesquisas sobre geoglifos e outros sítios arqueológicos também documentaram intervenções humanas em áreas de terra firme, distantes das margens dos principais rios.

O conhecimento sobre essas ocupações mudou conforme novas tecnologias passaram a revelar trechos antes pouco estudados. O mapeamento de ambientes florestais também é utilizado em outras pesquisas, como levantamentos que permitiram identificar a maior árvore conhecida da Amazônia, localizada no norte do Pará.

Embora tenham objetivos diferentes, essas aplicações demonstram a importância dos levantamentos aéreos para estudar regiões de difícil acesso.

Novos levantamentos podem identificar mais sítios sem necessidade de desmatar a floresta

A pesquisa arqueológica amazônica continua avançando com levantamentos remotos e estudos realizados em parceria com comunidades indígenas.

O projeto Amazônia Revelada utiliza tecnologias de sensoriamento remoto para investigar sítios arqueológicos e documentar áreas de ocupação antiga.

As pesquisas também envolvem a participação de comunidades locais na identificação, interpretação e preservação dos vestígios.

Em abril de 2026, o Iphan participou de atividades com representantes indígenas no Acre, incluindo uma visita ao sítio arqueológico Jacó Sá, localizado a aproximadamente 50 quilômetros de Rio Branco.

O sítio foi tombado em 2018 e preserva estruturas geométricas associadas à ocupação antiga da região.

A continuidade dos levantamentos poderá ampliar o número de locais conhecidos, mas a confirmação da idade, da função e das relações entre as estruturas dependerá de novas análises arqueológicas.

Os dados de 2026 também indicam que áreas de floresta ainda pouco examinadas podem preservar vestígios semelhantes. A documentação desses locais deverá considerar as exigências de proteção do patrimônio arqueológico e os direitos das comunidades indígenas relacionadas aos territórios pesquisados.

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Carla Teles

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