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Dona de hotel em Oiapoque arrendou 60% dos 37 quartos à Petrobras, passou a ter 18 funcionários fixos e ainda paga o preço dos 110 km de terra que separam a cidade de Macapá

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 02/11/2026 às 02:55
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Simone Aviz administra há quase quatro anos o Hotel La Villa Morena, em Oiapoque (AP), e hoje tem 60% dos quartos arrendados à Petrobras, que hospeda ali funcionários, técnicos e prestadores de serviço ligados à Margem Equatorial.

O hotel tem 37 quartos e capacidade para 120 hóspedes. A história da empresária foi contada pelo Poder360 neste domingo (1º), numa série de reportagens sobre o que o petróleo já movimenta no Amapá.

O arrendamento não muda a dona do negócio. A Petrobras tem o direito de usar a parte contratada dos quartos durante o período acordado, e Simone continua tocando o hotel e atendendo os demais hóspedes.

Da distribuidora de hortifrúti ao hotel

Simone nasceu em Belém e mora em Oiapoque há 8 anos. Chegou à cidade para gerenciar uma distribuidora de hortifrúti e, quatro anos depois, recebeu a proposta de comprar o hotel de um casal que ia se mudar para a França.

“Vim para cá sem saber nada de administração de hotelaria”, contou ao Poder360. Logo depois, segundo ela, já se ouviam rumores na cidade sobre os planos da Petrobras.

A estatal procurou o hotel por causa do espaço. “Vieram vários técnicos inspecionar, fotografar, filmar, perguntar, pedir licença e documentação”, disse Simone, que precisou provar que o prédio era seguro para hospedar quem trabalha na companhia.

Barcos coloridos atracados num píer de madeira na beira do Rio Oiapoque, com a mata da Guiana Francesa na outra margem
A orla de Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, em 2018 (Rômulo Ferreira/Wikimedia Commons, CC BY 2.0)

Quatro simulados da Petrobras em um ano

O La Villa Morena participou de 4 exercícios simulados da Petrobras em 2025. Durante esses treinamentos, o hotel fecha para outros hóspedes e fica inteiro à disposição da operação da estatal.

Os simulados reproduzem emergências, como um vazamento de óleo, e testam a capacidade de resposta da empresa. Isso inclui trazer rapidamente profissionais de outros estados até o extremo norte do país.

A perfuração que motiva esse movimento fica longe da cidade. O poço Morpho, no bloco FZA-M-59, está a 175 km da costa do Amapá, na Bacia da Foz do Amazonas.

Pelo menos 5 contratações e 18 funcionários fixos

O contrato mexeu na folha de pagamento. Simone disse que precisou contratar pelo menos 5 pessoas fixas e que hoje tem 18 efetivos. Nos períodos de simulado, o número de trabalhadores no hotel dobra.

“Além desse ramo de hospedagem, há diversas oportunidades para vários setores com a Petrobras em Oiapoque. Dá muito emprego”, afirmou a empresária na entrevista.

Ela contou que o Sebrae mantém uma equipe para ajudar empresas da cidade que querem virar fornecedoras da estatal, com orientação sobre documentos, certificações e outros requisitos exigidos pela companhia.

Os 110 km de terra até Macapá

O maior custo do negócio está na estrada. Sem voo comercial, a única forma de chegar a Oiapoque é por cerca de 600 km de rodovia a partir de Macapá, e 110 km desse trajeto ainda não têm asfalto.

“Esses 110 km não asfaltados ainda custam muito para nós”, disse Simone. Para ela, o fim do trecho de terra seria “um divisor de águas para o comércio local”, porque baratearia tudo o que chega à cidade.

A empresária também espera ver aviões de passageiros na cidade. O aeroporto local hoje é restrito à operação da Petrobras, e ela acredita que voos comerciais trariam mais clientes e visitantes ao hotel.

Avião turboélice branco estacionado na pista do aeroporto de Oiapoque, cercada de floresta, sob céu com nuvens
Pista do aeroporto de Oiapoque em 2008; hoje o terminal não tem voos comerciais (OBORÉ/Projeto Repórter do Futuro/Wikimedia Commons, CC BY 2.0)

O que o Sebrae diz aos pequenos negócios

A diretora-superintendente do Sebrae Amapá, Alciene Cavalcante, disse ao Poder360 que a exploração pode beneficiar de hotéis e restaurantes a confecções que fazem uniformes.

Para isso, segundo ela, as empresas precisam se qualificar e obter certificações de segurança do trabalho e sanitária, exigidas pelas petroleiras e por suas terceirizadas antes de qualquer contrato.

Alciene lembrou o ciclo do manganês no estado. “Teve o boom do manganês, criaram-se cidades e quando o manganês acabou, não tinha ficado nada para o Amapá”, afirmou a dirigente.

O governador eleito quer as bases no estado

O governador eleito do Amapá, Dr. Furlan (PSD), que venceu no 1º turno com 62,75% dos votos, disse em entrevista ao Poder360 que o estado não vai abrir mão de sediar a estrutura de apoio.

“As obras têm que ocorrer no Amapá, o petróleo tem que sair daqui, as bases têm que ser aqui e nós não vamos abrir mão disso”, afirmou. Ele assume em janeiro de 2027.

Ele também falou de dinheiro. “Quando o petróleo chegar aqui com a gente, vamos ter os royalties, que serão divididos entre os Estados e municípios”, disse Furlan, que quer ver os impostos da atividade ficarem no Amapá.

Entre os planos citados por Furlan estão concluir obras de infraestrutura, criar um distrito industrial e oferecer cursos de qualificação voltados a petróleo, gás e energia para a população local.

O que já se sabe do poço Morpho

A Margem Equatorial é a faixa do mar que acompanha o litoral brasileiro do Amapá ao Rio Grande do Norte. Segundo o Poder360, o petróleo encontrado está a 175 km de Oiapoque, cidade na fronteira com a Guiana Francesa.

A Petrobras ainda avalia se a descoberta tem viabilidade comercial. Segundo o Poder360, há óleo confirmado em pelo menos 3 camadas do poço, e a produção pode começar nos próximos 7 anos se os estudos e as licenças avançarem.

Como o CPG mostrou em 30 de outubro, a estatal encontrou na Foz do Amazonas indício de óleo mais leve, o que reforçou a expectativa em torno da região.

A corrida também tem outro lado. Em setembro, um cacique de 57 anos de Oiapoque disse temer os efeitos de um vazamento sobre as aldeias da região.

O que falta para o negócio crescer

A reportagem não informa o valor do contrato de arrendamento nem o prazo acertado com a Petrobras. A repórter do Poder360 viajou a Oiapoque a convite do Sebrae, como o próprio veículo informa.

Para Simone, a resposta depende mais do poder público do que da estatal: asfalto nos 110 km de terra, voos comerciais e fornecedores locais preparados para atender as exigências de uma petroleira.

Você acha que Oiapoque vai conseguir transformar a chegada da Petrobras em emprego duradouro, ou pode repetir o que aconteceu no ciclo do manganês?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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