Uma trajetória marcada por perdas, acolhimento e qualificação profissional ganhou um detalhe pouco comum no dia da formatura, quando aprendizado, trabalho e recomeço se encontraram diante dos próprios convidados em Caxias do Sul.
Há histórias em que uma profissão começa antes mesmo da entrega do diploma.
Foi assim com Rodrigo Prestes, que chegou à própria formatura de garçom depois de passar pela situação de rua, recuperar documentos pessoais e reorganizar diferentes áreas da vida.
Naquele dia, porém, ele não ficou apenas entre os formandos: depois de receber o certificado, ajudou a servir o almoço preparado para os convidados da cerimônia.
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O episódio aconteceu em 14 de junho de 2023, em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, mas ganhou uma continuidade que ajuda a manter a história atual.
A formação oferecida pelo Banco de Alimentos do município não parou naquela turma.
Em maio de 2026, o projeto chegou ao quinto ano consecutivo e formou outros 12 profissionais, segundo a Prefeitura de Caxias do Sul.
A trajetória de Rodrigo ajuda a mostrar o que pode existir por trás de um curso aparentemente simples.
Quando entrou na formação, ele não precisava aprender apenas como atender uma mesa ou organizar um serviço.
Aos 36 anos, também reconstruía aspectos básicos da rotina que haviam se perdido enquanto vivia nas ruas.
Natural de Nova Hartz, Rodrigo morava em Caxias do Sul havia cerca de nove anos quando sua história foi divulgada.
Antes da formatura, passou aproximadamente três meses na Casa de Passagem Carlos Miguel dos Santos, serviço de acolhimento ligado à rede de assistência social do município.
Foi nesse período que soube da existência do curso profissionalizante de garçom.
Situação de rua e falta de documentos marcaram o início da trajetória
Na cerimônia de 2023, Rodrigo chegou de camisa, suéter e cabelo arrumado.
A imagem contrastava com o período que ele próprio descreveu ao falar sobre os meses anteriores.
“Eu tive muitas perdas, me afastei da minha família, não sei explicar o que eu sentia, não conseguia me conectar com as pessoas. Eu não tinha mais nem os dentes, não tinha documentos, morava na rua, fazia muitas coisas erradas. Eu precisava de limites”, relatou na ocasião.
A falta dos documentos criava uma dificuldade concreta para quem tentava voltar ao mercado de trabalho.
Sem a documentação básica, conseguir uma contratação formal se tornava um obstáculo adicional.
Durante o acolhimento, segundo seu relato, ele recebeu apoio para recuperar documentos, buscar atendimento de saúde e cuidar dos dentes.
Ao mesmo tempo, começou a se aproximar de uma possibilidade de trabalho que até então não fazia parte de sua rotina.
Rodrigo contou que chegou a procurar emprego antes disso, mas esbarrou justamente na ausência de documentação.
A oportunidade de fazer o curso surgiu no momento em que outras partes de sua vida também começavam a ser reorganizadas.
“Um dia me despertou que a vida é boa, só que eu precisava recuperar o que eu tinha, quem eu era. O pessoal da casa me ajudou com muitas coisas, não tenho palavras. Os professores também”, afirmou.
Na época da formatura, ele já havia deixado a casa de passagem e tinha moradia.
Também voltava a se aproximar da família, estava em um relacionamento e iniciava o processo para obter a carteira de motorista, de acordo com as informações divulgadas pela prefeitura em 2023.
Curso de garçom de 76 horas abriu caminho para uma profissão
A formação concluída por Rodrigo durou 30 dias e somou 76 horas de atividades.
O conteúdo não se limitava ao ato de levar pratos e bebidas até uma mesa.
Os alunos tiveram aulas de apresentação e higiene pessoal, boas práticas na manipulação de alimentos, conhecimentos iniciais da profissão, diferentes formas de serviço, construção de currículo e educação financeira.
Também houve experiência prática supervisionada em restaurantes, hotéis e outros estabelecimentos de Caxias do Sul.
Entre os locais citados pela prefeitura estavam Ioshi Sushi, Restaurante Empórium, Restaurante Flor de Cerejeira, Viella 18, Restaurante Sica, Sebastiana Restaurante, Hamburgueria Antunes, Yukki Sushi e Tri Hotel.
Essa parte prática fazia com que o contato com o trabalho começasse antes mesmo da entrega do certificado.
No caso da turma de Rodrigo, essa ligação com o mercado apareceu de outra forma: alguns estudantes nem conseguiram comparecer à formatura porque já estavam trabalhando.
Ao todo, 14 pessoas concluíram aquela edição, sendo seis delas pessoas que estavam em situação de rua.
Depois da entrega dos diplomas, os próprios formandos assumiram o atendimento do almoço destinado aos convidados no Banco de Alimentos.
Para Rodrigo, a situação tinha um significado particular por causa do período em que viveu sem acesso regular à alimentação.
“Ser garçom é agradável. Vou poder alegrar e servir as pessoas através do alimento. Quem diria, logo eu, que muitos dias não tinha nem o que comer”, disse.
A fala foi registrada pela Prefeitura de Caxias do Sul durante a cerimônia.
Não há, nas fontes públicas localizadas, informação segura que permita afirmar onde Rodrigo trabalha atualmente ou se permaneceu na profissão depois daquele período.

Curso profissionalizante continuou em Caxias do Sul nos anos seguintes
O que aconteceu depois com o próprio programa é mais fácil de acompanhar.
Em 2024, a Prefeitura de Caxias do Sul voltou a oferecer a capacitação.
Naquele momento, o curso chegava ao terceiro ano consecutivo e novamente previa 76 horas de formação.
No ano seguinte, a iniciativa continuou.
A edição de 2025 teve 60 horas e manteve como prioridade pessoas em situação de vulnerabilidade social, fora do mercado formal e interessadas em qualificação para tentar retornar ao trabalho.
Doze profissionais concluíram aquela turma em abril.
A continuidade chegou a 2026.
A formação começou em abril com 14 alunos e 60 horas previstas.
Na cerimônia realizada em maio, 12 novos profissionais receberam os certificados.
A prefeitura informou que aquela já era a quinta edição consecutiva da iniciativa.
Os conteúdos também permaneceram próximos da realidade de quem procura emprego.
Além das atividades próprias da profissão, a edição de 2026 incluiu construção de currículo, preparação para entrevistas, direitos trabalhistas e boas práticas na manipulação de alimentos.
Poucos meses depois, em julho de 2026, o município divulgou ainda outra capacitação relacionada ao setor: um curso de Excelência no Atendimento para Garçons, com 20 vagas e 40 horas, previsto para novembro dentro do programa RS Qualificação Recomeçar.
A história iniciada com uma turma de 2023, portanto, não ficou restrita àquela cerimônia.

Da casa de passagem ao serviço no almoço da própria formatura
No caso de Rodrigo, talvez o detalhe mais incomum esteja justamente nos minutos seguintes à entrega do certificado.
Ele chegou ao Banco de Alimentos como aluno prestes a terminar um curso.
Saiu da solenidade como profissional formado, mas a passagem de uma condição para a outra praticamente não teve intervalo: Rodrigo e os colegas começaram a trabalhar no próprio almoço da formatura.
A cena reunia etapas muito diferentes de sua trajetória em um mesmo espaço.
Meses antes, de acordo com seu próprio relato, ele estava sem documentos, afastado da família e vivendo nas ruas.
Depois do acolhimento e da capacitação, aparecia uniformizado para exercer uma atividade que poderia ajudá-lo a retornar ao mercado de trabalho.
O curso não era uma ação isolada.
A edição de 2023 foi promovida pela Diretoria de Segurança Alimentar e Nutricional da Secretaria Municipal da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com parceria do Sindicato Empresarial de Gastronomia e Hotelaria Região Uva e Vinho.
Professores e estabelecimentos da cidade participaram da preparação prática dos alunos.
Naquele momento, Rodrigo resumiu a mudança dizendo que as coisas haviam começado a “se encaixar”.
