Durante cerca de vinte e cinco anos, o garimpo Bom Futuro, em Ariquemes, jogou rejeito no mesmo lugar. Hoje são aproximadamente setenta milhões de toneladas de material descartado. E esse monte, que sempre foi tratado como sobra, virou alvo de um projeto de terras raras com participação de cinquenta e dois por cento de uma empresa canadense.
O levantamento sobre o potencial mineral de Rondônia foi publicado em 6 de setembro de 2026.
É a inversão clássica da mineração: o que sobrou de um ciclo vira matéria-prima do ciclo seguinte, quando a tecnologia e o preço mudam.
Bom Futuro foi um dos maiores garimpos de estanho do país
O garimpo fica em Ariquemes, no centro de Rondônia, e explorou cassiterita, que é o minério do estanho.
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Foram décadas de atividade intensa, com milhares de pessoas trabalhando no local em diferentes fases da operação.
Todo esse tempo gerou volume enorme de material processado e descartado, empilhado nas imediações da lavra.
Na época, ninguém guardava aquilo pensando em valor futuro. Rejeito era problema de espaço e de licença ambiental, não ativo de balanço, e a decisão de onde despejar seguia critério de custo imediato.

Setenta milhões de toneladas de rejeito não é pilha, é paisagem
O número estimado é de aproximadamente 70 milhões de toneladas de rejeitos acumulados ao longo de cerca de 25 anos de atividade mineral.
Para dimensionar, é volume que altera a topografia da área. Não se trata de montinho no fundo do terreno.
E rejeito de cassiterita não é terra qualquer. Ele já passou por britagem, moagem e concentração, ou seja, chegou à pilha com granulometria fina e mineralogia conhecida, exatamente o ponto de partida que qualquer projeto novo levaria anos para alcançar.
O rejeito já está moído, e isso é dinheiro economizado
Aqui está a chave econômica da história. Metade do custo de uma operação mineral está em tirar a rocha do lugar e reduzi-la a pó.
No rejeito, esse trabalho já foi pago e feito. Portanto, quem processa material antigo pula a etapa mais cara da cadeia.
Some-se a isso o fato de que não é preciso abrir cava nova nem remover cobertura vegetal.
Licenciamento de rejeito costuma ser mais simples que o de mina nova
Reprocessar pilha existente evita boa parte do impacto que trava projeto novo: supressão de vegetação, desvio de curso d’água e abertura de acesso em área intacta.
Por outro lado, não é licença automática. O órgão ambiental avalia manuseio do material, drenagem ácida e destino do rejeito do rejeito, que continua existindo depois do reprocessamento.
Portanto, o caminho é mais curto, não isento.
Terras raras costumam viajar junto com a cassiterita
Depósitos de estanho associados a granito costumam carregar outros minerais na mesma rocha.
Na época em que o garimpo operava, o alvo era o estanho e só. Tudo que não fosse cassiterita ia para a pilha.
Décadas depois, com a demanda por ímã permanente, esse conjunto descartado ganhou valor de mercado.
É o mesmo movimento que aconteceu com o lítio, antes tratado como curiosidade geológica em pegmatito do Jequitinhonha. O preço muda e a definição de minério muda junto.
A canadense entrou com 52% do projeto
O levantamento aponta participação de 52% da Canada Rare Earth no projeto voltado às terras raras da região.
Empresa estrangeira com controle majoritário em projeto de mineral crítico é assunto sensível no Brasil e costuma pautar discussão regulatória.
Por outro lado, é também o modelo que traz capital de risco para uma fase em que ninguém sabe se o negócio fecha.
Pesquisa mineral é a fase em que quase tudo morre
Entre a autorização de pesquisa e a mina em operação existe um funil brutal. A maioria dos alvos não vira jazida, e a maioria das jazidas não vira projeto viável.
É por isso que essa etapa costuma ser financiada por capital estrangeiro de risco. O investidor local raramente banca um estudo que tem alta chance de terminar em nada.
Assim, a participação majoritária externa em fase inicial não é anomalia brasileira. É o padrão do setor no mundo inteiro.
Rondônia tem mais coisa no subsolo do que estanho
O levantamento cita terras raras, cassiterita, ilmenita, zircão, ouro, nióbio, tantalita, columbita, ferro, manganês e calcário.
É uma lista que cobre desde mineral crítico de transição energética até insumo agrícola, o que dá ao estado um perfil mineral mais diversificado do que a fama de terra de estanho sugere.
A Companhia de Mineração de Rondônia produz 180 mil toneladas de calcário e distribui o produto para 52 municípios.
O estanho ainda sustenta parte da exportação do estado
No primeiro quadrimestre de 2026, Rondônia exportou US$ 15,11 milhões em minérios de estanho.
É fatia pequena diante dos US$ 3 bilhões de exportações totais do estado, dominadas por carne e soja.
Contudo, é uma fatia concentrada em poucos municípios, o que dá a ela peso local muito maior do que o percentual sugere.
Em cidade de garimpo, a atividade mineral organiza comércio, transporte e serviço. Assim, um projeto que reaproveita rejeito pode significar a diferença entre economia ativa e cidade esvaziada.
O que ainda não está na conta
Falta o dado decisivo: o teor de terras raras no rejeito. Sem ele, não dá para saber se o projeto é viável.
Também não há cronograma divulgado nem confirmação pública dos processos minerários junto à Agência Nacional de Mineração.
Quem quiser conferir a situação dos títulos pode consultar o portal da ANM. O levantamento original está no ac24horas.
Reaproveitar rejeito resolve dois problemas de uma vez
Pilha antiga de rejeito é passivo ambiental. Ela exige monitoramento, contenção e responsabilidade de longo prazo.
Quando esse material vira insumo, o passivo se transforma em estoque. É o raro caso em que interesse econômico e ambiental apontam para o mesmo lado.
Quem acompanha o setor pode ver também outros projetos de aproveitamento de rejeito mineral no país. O que você acha dessa virada?
Rejeito de garimpo antigo deveria ser tratado como lixo ou como estoque de mineral estratégico?
