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Garimpeiro de Ariquemes que passou 25 anos jogando rejeito no mesmo lugar está em cima de 70 milhões de toneladas que agora interessam a uma canadense dona de 52% do projeto de terras raras

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 11/09/2026 às 23:14
Pilhas de rejeito de garimpo de cassiterita em Rondônia, alvo de projeto de recuperação de terras raras
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Durante cerca de vinte e cinco anos, o garimpo Bom Futuro, em Ariquemes, jogou rejeito no mesmo lugar. Hoje são aproximadamente setenta milhões de toneladas de material descartado. E esse monte, que sempre foi tratado como sobra, virou alvo de um projeto de terras raras com participação de cinquenta e dois por cento de uma empresa canadense.

O levantamento sobre o potencial mineral de Rondônia foi publicado em 6 de setembro de 2026.

É a inversão clássica da mineração: o que sobrou de um ciclo vira matéria-prima do ciclo seguinte, quando a tecnologia e o preço mudam.

Bom Futuro foi um dos maiores garimpos de estanho do país

O garimpo fica em Ariquemes, no centro de Rondônia, e explorou cassiterita, que é o minério do estanho.

Foram décadas de atividade intensa, com milhares de pessoas trabalhando no local em diferentes fases da operação.

Todo esse tempo gerou volume enorme de material processado e descartado, empilhado nas imediações da lavra.

Na época, ninguém guardava aquilo pensando em valor futuro. Rejeito era problema de espaço e de licença ambiental, não ativo de balanço, e a decisão de onde despejar seguia critério de custo imediato.

Guarita com placa de empresa de estanho de Rondônia na entrada de área de mineração

Setenta milhões de toneladas de rejeito não é pilha, é paisagem

O número estimado é de aproximadamente 70 milhões de toneladas de rejeitos acumulados ao longo de cerca de 25 anos de atividade mineral.

Para dimensionar, é volume que altera a topografia da área. Não se trata de montinho no fundo do terreno.

E rejeito de cassiterita não é terra qualquer. Ele já passou por britagem, moagem e concentração, ou seja, chegou à pilha com granulometria fina e mineralogia conhecida, exatamente o ponto de partida que qualquer projeto novo levaria anos para alcançar.

O rejeito já está moído, e isso é dinheiro economizado

Aqui está a chave econômica da história. Metade do custo de uma operação mineral está em tirar a rocha do lugar e reduzi-la a pó.

No rejeito, esse trabalho já foi pago e feito. Portanto, quem processa material antigo pula a etapa mais cara da cadeia.

Some-se a isso o fato de que não é preciso abrir cava nova nem remover cobertura vegetal.

Licenciamento de rejeito costuma ser mais simples que o de mina nova

Reprocessar pilha existente evita boa parte do impacto que trava projeto novo: supressão de vegetação, desvio de curso d’água e abertura de acesso em área intacta.

Por outro lado, não é licença automática. O órgão ambiental avalia manuseio do material, drenagem ácida e destino do rejeito do rejeito, que continua existindo depois do reprocessamento.

Portanto, o caminho é mais curto, não isento.

Terras raras costumam viajar junto com a cassiterita

Depósitos de estanho associados a granito costumam carregar outros minerais na mesma rocha.

Na época em que o garimpo operava, o alvo era o estanho e só. Tudo que não fosse cassiterita ia para a pilha.

Décadas depois, com a demanda por ímã permanente, esse conjunto descartado ganhou valor de mercado.

É o mesmo movimento que aconteceu com o lítio, antes tratado como curiosidade geológica em pegmatito do Jequitinhonha. O preço muda e a definição de minério muda junto.

A canadense entrou com 52% do projeto

O levantamento aponta participação de 52% da Canada Rare Earth no projeto voltado às terras raras da região.

Empresa estrangeira com controle majoritário em projeto de mineral crítico é assunto sensível no Brasil e costuma pautar discussão regulatória.

Por outro lado, é também o modelo que traz capital de risco para uma fase em que ninguém sabe se o negócio fecha.

Pesquisa mineral é a fase em que quase tudo morre

Entre a autorização de pesquisa e a mina em operação existe um funil brutal. A maioria dos alvos não vira jazida, e a maioria das jazidas não vira projeto viável.

É por isso que essa etapa costuma ser financiada por capital estrangeiro de risco. O investidor local raramente banca um estudo que tem alta chance de terminar em nada.

Assim, a participação majoritária externa em fase inicial não é anomalia brasileira. É o padrão do setor no mundo inteiro.

Rondônia tem mais coisa no subsolo do que estanho

O levantamento cita terras raras, cassiterita, ilmenita, zircão, ouro, nióbio, tantalita, columbita, ferro, manganês e calcário.

É uma lista que cobre desde mineral crítico de transição energética até insumo agrícola, o que dá ao estado um perfil mineral mais diversificado do que a fama de terra de estanho sugere.

A Companhia de Mineração de Rondônia produz 180 mil toneladas de calcário e distribui o produto para 52 municípios.

O estanho ainda sustenta parte da exportação do estado

No primeiro quadrimestre de 2026, Rondônia exportou US$ 15,11 milhões em minérios de estanho.

É fatia pequena diante dos US$ 3 bilhões de exportações totais do estado, dominadas por carne e soja.

Contudo, é uma fatia concentrada em poucos municípios, o que dá a ela peso local muito maior do que o percentual sugere.

Em cidade de garimpo, a atividade mineral organiza comércio, transporte e serviço. Assim, um projeto que reaproveita rejeito pode significar a diferença entre economia ativa e cidade esvaziada.

O que ainda não está na conta

Falta o dado decisivo: o teor de terras raras no rejeito. Sem ele, não dá para saber se o projeto é viável.

Também não há cronograma divulgado nem confirmação pública dos processos minerários junto à Agência Nacional de Mineração.

Quem quiser conferir a situação dos títulos pode consultar o portal da ANM. O levantamento original está no ac24horas.

Reaproveitar rejeito resolve dois problemas de uma vez

Pilha antiga de rejeito é passivo ambiental. Ela exige monitoramento, contenção e responsabilidade de longo prazo.

Quando esse material vira insumo, o passivo se transforma em estoque. É o raro caso em que interesse econômico e ambiental apontam para o mesmo lado.

Quem acompanha o setor pode ver também outros projetos de aproveitamento de rejeito mineral no país. O que você acha dessa virada?

Rejeito de garimpo antigo deveria ser tratado como lixo ou como estoque de mineral estratégico?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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