Uma cena incomum dentro de uma fábrica chinesa quase falida virou símbolo de uma mudança industrial que, décadas depois, seria lembrada na trajetória de uma das maiores fabricantes de eletrodomésticos do mundo.
Hoje, a Haier vende eletrodomésticos em escala global, reúne marcas conhecidas em diferentes continentes e emprega cerca de 146 mil pessoas.
A origem dessa trajetória, porém, passa por uma cena muito menos tecnológica: 76 geladeiras defeituosas alinhadas diante de trabalhadores e destruídas com marretas em uma fábrica chinesa.
O episódio aconteceu em 1985, pouco depois de Zhang Ruimin assumir a Qingdao Refrigerator Factory, em Qingdao, no leste da China.
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A unidade enfrentava dívidas, problemas de gestão e dificuldades com a qualidade dos produtos, em um período no qual a indústria chinesa passava por profundas transformações.
Quando um consumidor devolveu uma geladeira com defeito, Zhang decidiu verificar outros aparelhos disponíveis na fábrica.
A inspeção revelou dezenas de unidades com problemas.
Em vez de tentar vender os produtos com desconto ou simplesmente retirá-los de circulação, o gestor escolheu uma demonstração que acabaria se tornando parte da história da empresa.
As 76 geladeiras foram separadas e colocadas diante dos funcionários.
Zhang distribuiu marretas aos trabalhadores e deu a ordem: “Destruam-nas!”.
Ele próprio participou da quebra dos aparelhos.
Mais de quatro décadas depois, uma das marretas associadas àquele episódio se tornou peça de museu, enquanto a pequena fábrica que produzia refrigeradores daria origem à Haier.
Geladeira devolvida revelou problemas de qualidade na fábrica
Zhang havia assumido a direção da fábrica em 1984, quando a unidade estava próxima da falência, segundo registros históricos reproduzidos pela própria Haier e pela revista Time.
Na China dos anos 1980, refrigeradores estavam entrando cada vez mais nas casas, acompanhando mudanças econômicas e o crescimento do consumo.
Produzir mais, entretanto, não resolvia o problema se parte dos aparelhos apresentasse falhas.
Foi nesse contexto que a devolução de uma única geladeira levou Zhang a examinar o estoque.
O resultado revelou 76 unidades consideradas abaixo do padrão de qualidade.
Para os trabalhadores, aqueles produtos ainda representavam equipamentos de alto valor.
A decisão de destruí-los deixou claro que os aparelhos defeituosos não seriam simplesmente enviados ao mercado.
A cena das marretadas acabou funcionando como um marco interno para uma mudança na maneira como a fábrica tratava a qualidade.
Funcionários destruíram as geladeiras que haviam produzido
A escolha de colocar os próprios trabalhadores diante dos refrigeradores tornou o episódio especialmente conhecido.
Segundo relatos posteriormente divulgados pela Haier, Zhang entregou as marretas aos funcionários envolvidos na fabricação dos produtos e determinou que as unidades fossem quebradas.
Plástico e metal foram destruídos no chão da fábrica.
Zhang também pegou uma das ferramentas e participou da ação.

Não era uma linha de produtos antiga que estava sendo desmontada para reciclagem nem uma demonstração preparada para publicidade.
A destruição ocorreu porque os refrigeradores não atendiam ao padrão que a nova gestão pretendia estabelecer.
A imagem sobreviveu ao próprio momento.
Com o crescimento posterior da companhia, as 76 geladeiras passaram a aparecer repetidamente na história institucional da Haier como símbolo da mudança no controle de qualidade.
Antes da Haier, existia a Qingdao Refrigerator Factory
Há outro detalhe que costuma desaparecer quando a história é contada rapidamente: a fábrica daquela época ainda não era a multinacional conhecida atualmente.
Zhang dirigia a Qingdao Refrigerator Factory.
Ao longo dos anos seguintes, reorganizações, parcerias, mudanças de marca e expansão dos negócios deram forma ao grupo que passaria a usar o nome Haier.
A empresa também buscou conhecimento estrangeiro para melhorar sua produção.
Esse movimento fazia parte de uma transformação mais ampla da economia chinesa, na qual companhias locais começaram a incorporar tecnologias, métodos industriais e estratégias comerciais vindas de outros mercados.
A Haier cresceu inicialmente apoiada em eletrodomésticos e depois avançou para outras categorias e países.
A antiga fábrica problemática de Qingdao, portanto, não virou uma multinacional de uma hora para outra.
Entre as marretadas de 1985 e a atual estrutura global existem décadas de expansão industrial, aquisições e mudanças de gestão.
Haier transformou fábrica local em rede global de marcas
O tamanho atual ajuda a colocar aquela cena de 1985 em perspectiva.
Em 2025, o Haier Group registrou receita global de 426,8 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 59,8 bilhões segundo a conversão apresentada pela companhia, e informou ter cerca de 146 mil funcionários.
A empresa afirma estar presente em mais de 200 países e regiões e reúne hoje marcas como Haier, Casarte, Leader, GE Appliances, Fisher & Paykel, AQUA e Candy.
Uma das etapas mais conhecidas dessa internacionalização ocorreu em 2016.
Naquele ano, a Qingdao Haier concluiu a aquisição da GE Appliances, negócio de eletrodomésticos anteriormente pertencente à General Electric, ampliando consideravelmente sua presença no mercado norte-americano.
O portfólio global também passou a incorporar empresas e marcas desenvolvidas em outros países, permitindo ao grupo atuar com nomes diferentes de acordo com cada mercado.
Haier segue entre as maiores fabricantes de eletrodomésticos
A atualização mais recente torna a comparação ainda mais incomum.
Segundo a Haier, com base em levantamento da Euromonitor International, a marca alcançou em 2026 o 17º ano consecutivo na primeira posição mundial em participação de marca nas vendas de grandes eletrodomésticos.
Já a Haier Smart Home, braço listado do grupo ligado aos eletrodomésticos e soluções residenciais, registrou receita de 302,35 bilhões de yuans em 2025, superando pela primeira vez a marca de 300 bilhões de yuans.
A escala atual é muito diferente daquela encontrada por Zhang quando chegou à fábrica de Qingdao.
Também mudou quem ocupa o comando.
Zhang Ruimin deixou a presidência do conselho da Haier Group em novembro de 2021 e passou a ser fundador e presidente honorário. Zhou Yunjie assumiu como presidente do conselho e CEO do grupo.
Marreta usada no episódio virou peça de museu
Talvez o detalhe mais curioso da história esteja no destino de uma das ferramentas.
Em março de 2009, uma marreta associada à destruição das geladeiras entrou para a coleção do Museu Nacional da China, de acordo com o histórico publicado pela Haier.
A descrição do objeto faz referência direta a Zhang Ruimin e às 76 geladeiras de qualidade considerada inadequada destruídas em 1985.
Assim, uma ferramenta comum usada para quebrar eletrodomésticos terminou preservada como registro de uma mudança empresarial ocorrida durante uma fase importante da industrialização chinesa.
O episódio ganhou uma dimensão ainda maior conforme a empresa cresceu.
Uma ação realizada no chão de uma fábrica quase falida passou a ser recontada décadas depois porque a companhia associada àqueles refrigeradores deixou de ser apenas uma fabricante local e se transformou em um grupo com operações internacionais.
A trajetória também ajuda a explicar por que a história continua circulando mesmo em uma indústria muito diferente daquela de 1985.
Geladeiras atuais incorporam eletrônica, sensores, conectividade e sistemas digitais, enquanto a Haier administra dezenas de instalações industriais e marcas espalhadas pelo mundo.
No início dessa transformação, porém, a mensagem foi transmitida sem telas, apresentações ou sistemas sofisticados de controle: 76 produtos que não deveriam chegar ao consumidor foram colocados no chão e destruídos diante de quem os havia fabricado.

