Estudo do banco britânico Barclays projeta que a China poderá ter 24 milhões de robôs humanoides instalados até 2035 para compensar a redução prevista de 37 milhões de trabalhadores, resultado do envelhecimento acelerado da população e da queda histórica na taxa de natalidade do país.
A China enfrenta uma combinação demográfica crítica que ameaça a sustentação de sua base industrial: a força de trabalho está encolhendo, a população em idade ativa perdeu dez pontos percentuais na última década e o número de nascimentos registrado em 2025 foi o menor desde pelo menos 1949, ano de fundação da República Popular.
Para compensar essa escassez, o banco britânico Barclays projeta que a China pode instalar até 24 milhões de robôs humanoides até 2035, um número equivalente a quase 4% da força de trabalho do país e superior à população inteira de Taiwan, que gira em torno de 23 milhões de habitantes, e mais também que São Paulo (11 milhões) e Rio de Janeiro (6 milhões), que juntam somam cerca de 18 milhões de habitantes.
De acordo com os analistas do Barclays, a força de trabalho chinesa pode encolher em cerca de 37 milhões de pessoas na próxima década, considerando as projeções demográficas atuais, número que pressiona especialmente o setor industrial, responsável por aproximadamente um quarto de toda a economia chinesa.
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Os analistas do banco ressaltam que ganhos de produtividade isolados não seriam suficientes para compensar totalmente os impactos da queda populacional, o que torna a automação e a robótica não apenas uma opção estratégica, mas uma necessidade estrutural para que a China mantenha sua posição como maior exportador industrial do mundo.
Em um cenário otimista traçado pelo Barclays, os 24 milhões de robôs humanoides seriam suficientes para cobrir cerca de 60% da redução prevista na força de trabalho, auxiliando o país a sustentar sua base industrial mesmo diante do processo de envelhecimento que se intensificará nas próximas duas décadas.
A crise demográfica por trás da corrida robótica

A população em idade ativa representava mais de 70% do total de habitantes da China há dez anos e caiu para cerca de 61% em 2025, trajetória de queda que reflete os efeitos de longo prazo da política do filho único adotada pelo país entre 1980 e 2015 e dos padrões culturais que ainda limitam a natalidade.
A proporção de pessoas em idade de trabalhar para cada cidadão acima de 65 anos já é de cerca de quatro para um, mas segundo as projeções do próprio Barclays, essa relação pode cair pela metade nos próximos vinte anos, criando pressão crescente sobre o sistema previdenciário e sobre a capacidade produtiva da economia.
Para os analistas, a combinação entre menos trabalhadores disponíveis e maior demanda doméstica de consumo cria um ambiente excepcionalmente favorável para a expansão acelerada da robótica no país, onde empresas precisarão substituir mão de obra humana para manter níveis de produção e competitividade internacional.
O presidente Xi Jinping tem defendido publicamente investimentos em ciência e tecnologia, incluindo robótica avançada, como parte central da estratégia econômica de longo prazo da China, visão que se traduz em subsídios governamentais, metas de produção e políticas de compra preferencial para robôs fabricados domesticamente.
A liderança chinesa na indústria global de robótica
A China já é o maior mercado mundial de robôs industriais e abriga empresas como Unitree Robotics e UBTech, que desenvolvem robôs humanoides para uso em fábricas, logística e serviços, aproveitando o enorme mercado interno para financiar pesquisa e reduzir custos de produção em escala que nenhum outro país consegue replicar.
O país investe em robótica tanto pelo lado da oferta quanto pelo da demanda, criando um ciclo virtuoso que acelera o desenvolvimento tecnológico: fábricas precisam de robôs, empresas chinesas os fabricam com suporte governamental e o mercado interno absorve a produção, financiando novas gerações de equipamentos mais avançados.
Os robôs humanoides representam a fronteira mais ambiciosa desse movimento, já que sua capacidade de operar em espaços projetados para humanos, sem necessidade de adaptação da infraestrutura existente, os torna candidatos naturais à substituição de trabalhadores em linhas de montagem, armazéns e atividades de manutenção industrial.
Os analistas do Barclays sintetizaram a aposta chinesa em uma frase que circulou amplamente após a publicação do relatório: “Esta é a década dos robôs, e ela pertence à China”, avaliação que reflete tanto a liderança atual do país quanto a trajetória de investimentos que projeta para os próximos anos.
A corrida por robôs humanoides na China também tem implicações geopolíticas: países que dominarem essa tecnologia terão vantagem competitiva não apenas na manufatura, mas em setores estratégicos como logística militar, exploração espacial e gestão de infraestruturas críticas nas próximas décadas.
O Brasil e outros países em desenvolvimento acompanham esse movimento com atenção, já que a automação em larga escala na China pode alterar cadeias globais de fornecimento, pressionar custos de manufatura em outros países e redefinir o perfil de empregos disponíveis na indústria mundial ao longo dos próximos vinte anos.

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