João Vitor Santos de Souza concluiu o ensino médio em 2016 e passou oito anos perseguindo uma vaga em Medicina. Filho de faxineira, capinou lotes, trabalhou em lava-jato, feiras, pintura e como garçom, estudou sozinho de madrugada e aos 26 anos conquistou Medicina na UFMS.
Em 2025, João Vitor Santos de Souza, morador do bairro Zé Pereira, na periferia de Campo Grande, chegou aos 26 anos com uma conquista que perseguia havia anos: uma vaga no curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Filho de Meire Santos, faxineira, e de um cuidador de idosos, ele havia concluído o ensino médio em 2016 e passou os anos seguintes conciliando preparação para o vestibular com uma sequência de trabalhos usados para ajudar nas despesas e continuar estudando.
A lista de ocupações ajuda a dimensionar o percurso: João Vitor capinou terrenos, vendeu em feiras livres, pintou paredes, trabalhou em conveniências, lava-jato, loja de peças para máquinas agrícolas e como garçom.
Em dezembro de 2024, semanas antes de descobrir que seria aprovado, viveu uma coincidência difícil de imaginar: serviu mesas justamente na festa de formatura de uma turma de Medicina. Pouco depois, seu próprio nome apareceria entre os convocados para Medicina da UFMS.
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João Vitor começou a capinar lotes ainda criança para conseguir algum dinheiro
O trabalho apareceu cedo na vida de João Vitor. Em entrevista ao Correio do Estado, ele contou que já capinava lotes quando era criança. Em uma das lembranças citadas pela reportagem, ele e um primo faziam o serviço especialmente próximo da Páscoa para juntar dinheiro e comprar ovos de chocolate.
A atividade não desapareceu quando ele cresceu. Mesmo depois dos 20 anos, João Vitor continuava recorrendo à capina quando precisava conseguir dinheiro rapidamente para cobrir despesas e preservar tempo para estudar. Não era, portanto, apenas uma lembrança da infância, mas uma alternativa de renda que continuou acompanhando sua preparação.
Sua origem familiar também era marcada pelo trabalho. A mãe, Meire Santos, atuava em serviços de limpeza de uma empresa responsável pela manutenção de prédios no Parque dos Poderes. O pai voltou a estudar aos 45 anos, cursou Enfermagem por meio do Fies e passou a trabalhar como cuidador de idosos.
Feiras, pintura, lava-jato e loja de peças ajudaram a financiar os anos de estudo
Ao longo dos anos seguintes ao ensino médio, João Vitor assumiu diferentes ocupações. Trabalhou por bastante tempo como vendedor em feiras livres, atuou como pintor de paredes, foi atendente em conveniências e também fez trabalhos em lava-jato.
Uma das experiências mais longas foi como estoquista em uma empresa que revendia peças para máquinas agrícolas.
Ele permaneceu cerca de 11 meses no emprego e relatou que aproveitava até o intervalo do almoço para estudar, fazendo a refeição rapidamente para ganhar alguns minutos adicionais com o conteúdo do vestibular.
A rotina tinha um custo físico. João Vitor contou que estudava de madrugada e atravessava Campo Grande de bicicleta para chegar ao trabalho. O cansaço acumulado afetava seu desempenho profissional e, segundo sua própria avaliação, contribuiu para que acabasse demitido daquele emprego.
Ensino médio terminou em 2016, mas a vaga só apareceu oito anos depois
João Vitor concluiu o ensino médio em 2016, em uma escola estadual de Campo Grande. O desejo de cursar Medicina já existia na adolescência, mas entrar imediatamente em uma universidade pública estava distante de sua realidade.
Entre a conclusão da escola e a aprovação no Vestibular UFMS 2025, passaram-se aproximadamente oito anos. Nos seis anos anteriores à conquista, segundo ele, a preparação se tornou mais intensa, ainda que continuasse limitada pelo trabalho e pelas condições financeiras.
O próprio histórico dos processos seletivos mostra que a tentativa não surgiu repentinamente em 2025. Documentos oficiais da UFMS já registravam João Vitor entre candidatos ao curso de Medicina em seleções anteriores, evidenciando uma busca que atravessou diferentes edições do processo de ingresso.
Sem dinheiro para cursinho, preparação aconteceu praticamente toda por conta própria
Ao contrário de muitos candidatos a uma das graduações mais concorridas do país, João Vitor afirmou que nunca teve condições financeiras de frequentar um cursinho preparatório tradicional. O caminho foi estudar sozinho, usando os recursos que conseguia reunir.

Amigos e conhecidos ajudavam fornecendo materiais. Um dos objetos que ele destacou parece improvável diante da disputa por uma vaga em Medicina: um livro de Física encontrado em uma prateleira de um terminal de ônibus. João Vitor afirmou que o material teve importância em sua preparação.
O investimento regular que conseguia manter era uma plataforma digital de estudos, pela qual relatou pagar aproximadamente R$ 35 mensais. Assim, substituiu a estrutura de um cursinho presencial por materiais emprestados, livros, conteúdo online e horas de estudo encaixadas entre os trabalhos.
Meta era estudar cinco horas por dia, mas trabalho reduzia rotina para duas ou três
João Vitor estabelecia para si uma meta de aproximadamente cinco horas de estudo diariamente. A realidade, entretanto, impunha outra carga: na maior parte do tempo, conseguia estudar entre duas e três horas por dia.
Em determinados períodos, essas horas apareciam de madrugada. Em outros, surgiam no intervalo do almoço ou nos momentos disponíveis depois do trabalho. Nos fins de semana, ele também recebia ajuda da namorada, formada em Direito pela própria UFMS e igualmente oriunda da escola pública.
João Vitor disse ainda que mantinha poucas atividades fora dessa rotina. Quando não estava trabalhando ou diante dos materiais de estudo, seus principais momentos de lazer eram jogar futebol e frequentar academia.
Matemática era a maior dificuldade e fez João Vitor apostar no vestibular da UFMS
O próprio estudante identificava Matemática como seu principal ponto fraco. Por isso, acreditava que sua possibilidade de chegar à Medicina pelo Enem era reduzida e viu no retorno do vestibular próprio da UFMS uma oportunidade particularmente importante.
A estratégia funcionou. João Vitor concorreu por uma modalidade destinada a candidatos pretos ou pardos, egressos da escola pública e dentro dos critérios de renda previstos pela política de reserva de vagas.
O edital oficial de matrícula da universidade confirma seu nome em Medicina, na Faculdade de Medicina da UFMS, classificado em terceiro lugar dentro da modalidade LB_PP.
O documento oficial elimina qualquer dúvida sobre a conquista: na relação de convocados para o curso 1002, Medicina Bacharelado, aparece João Vitor Santos de Souza, inscrição 1081094, na modalidade LB_PP.
Nota 800 na redação ajudou a compensar a dificuldade com os números
Se Matemática era um obstáculo, a redação funcionou como um dos pontos fortes. João Vitor obteve 800 pontos no texto corrigido pela banca do vestibular e atribuiu parte importante de sua aprovação ao desempenho nessa etapa.
A leitura fazia parte de sua preparação e acabou oferecendo vantagem exatamente em uma área que poderia compensar resultados inferiores em outras disciplinas.
A aposta mostra como sua estratégia não consistia apenas em tentar dominar todas as matérias no mesmo nível, mas também em potencializar as áreas em que apresentava melhor rendimento.
O resultado final do Vestibular UFMS 2025 confirma João Vitor em terceiro lugar em sua modalidade. Depois de anos aparecendo entre candidatos e tentando avançar na classificação, dessa vez a posição era suficiente para colocá-lo entre os convocados para matrícula.
Semanas antes da aprovação, ele serviu como garçom na formatura de médicos
Entre todos os trabalhos realizados, um episódio de dezembro de 2024 ganhou significado especial depois da divulgação do resultado. João Vitor fez um bico como garçom em uma festa de formatura de estudantes de Medicina.
Naquele momento, ele ainda não sabia se conseguiria a própria vaga. Enquanto os recém-formados comemoravam o encerramento de seis anos de graduação, João Vitor estava trabalhando na festa e esperando o resultado de mais uma tentativa de entrar no mesmo curso.
O resultado do vestibular foi divulgado em 28 de janeiro de 2025. Depois de cumprir as etapas de avaliação relativas à reserva de vagas, sua matrícula pôde ser encaminhada e o início das aulas estava programado para 10 de março daquele ano.
Aos 26 anos, aprovação trouxe um novo problema: conseguir permanecer no curso
Entrar em Medicina resolveu apenas a primeira parte do desafio. Por ser uma graduação integral e longa, João Vitor sabia que manter a mesma sequência de trabalhos poderia se tornar incompatível com a carga acadêmica.
O estudante permaneceria morando com os pais em Campo Grande, fator decisivo para tornar a graduação possível. Ele próprio reconheceu que uma aprovação em outra cidade seria muito mais difícil de sustentar financeiramente.
Por isso, mesmo depois de conquistar a vaga, já procurava formas de obter auxílio ou bolsa para atravessar os anos seguintes.
A aprovação encerrava oito anos de tentativas desde o fim do ensino médio, mas abria um novo período em que a permanência na universidade se tornaria tão importante quanto ter conseguido entrar.
Oito anos depois do ensino médio, o nome finalmente apareceu entre os convocados
A trajetória de João Vitor pode ser reconstruída por uma sequência concreta de trabalhos e tentativas. Ele concluiu a escola pública em 2016, continuou capinando lotes mesmo depois dos 20 anos, vendeu em feiras, pintou paredes, trabalhou em lava-jato, conveniências e como estoquista e garçom enquanto preparava-se sem cursinho presencial.
No caminho, estudou em intervalos de almoço, atravessou Campo Grande de bicicleta, abriu livros durante a madrugada e utilizou materiais emprestados ou encontrados. Em dezembro de 2024, serviu a formatura de médicos. Em janeiro de 2025, o cenário mudou.
Aos 26 anos, o filho de uma faxineira e de um cuidador de idosos finalmente apareceu na lista oficial da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Depois de oito anos entre trabalhos, provas e preparação independente, João Vitor Santos de Souza deixou de ser apenas candidato e conquistou a vaga que perseguia desde a adolescência.
