Restauração em uma residência histórica do Rio revelou estruturas escondidas sob intervenções mais recentes e trouxe à superfície objetos recolhidos durante escavações acompanhadas por arqueólogos. O trabalho expôs detalhes pouco conhecidos da propriedade e registrou vestígios preservados em diferentes camadas do terreno.
A retirada de pisos cimentados durante a restauração do jardim de uma casa histórica em Botafogo, no Rio de Janeiro, revelou trechos de pavimentação com paralelepípedos que permaneciam escondidos sob o revestimento e não apareciam nos registros visuais conhecidos da propriedade.
Próximo à antiga área de serviço do imóvel, o monitoramento arqueológico acompanhou as escavações e recolheu moedas, um tinteiro, um cachimbo e fragmentos de cerâmica, ampliando o conjunto de vestígios identificados durante a intervenção realizada no terreno histórico.
Integrado à atual Casa de Rui Barbosa, o imóvel foi concluído em 1850 e preserva um jardim histórico cuja restauração expôs elementos físicos relacionados a diferentes fases de ocupação, inclusive estruturas que haviam sido encobertas por reformas posteriores.
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Segundo a Fundação Casa de Rui Barbosa, os paralelepípedos encontrados sob o cimento não haviam sido identificados na iconografia conhecida da propriedade, o que transformou a retirada de um revestimento degradado em uma descoberta relevante para a leitura histórica do espaço.
Restauração da Casa de Rui Barbosa revelou piso antigo sob o cimento
Quando a equipe começou a demolir pisos cimentados em más condições e incompatíveis com o projeto original do jardim, surgiram trechos pavimentados próximos à antiga área de serviço, até então invisíveis sob a superfície adicionada em uma fase posterior.
Diante do achado, a remoção passou a exigir mais cuidado para preservar o que havia aparecido, enquanto o acompanhamento arqueológico permitia observar o solo durante serviços de paisagismo, pavimentação e instalação de infraestrutura em diferentes pontos do jardim.
Casa construída em 1850 preserva parte da história de Botafogo

Antes de se tornar associada a Rui Barbosa, a residência havia sido construída por Bernardo Casimiro de Freitas, o Barão da Lagoa, e teve sua conclusão registrada em 1850, data que ainda permanece gravada na fachada voltada para a rua.
Localizada na Rua São Clemente, a construção é considerada pela Fundação provavelmente uma das mais antigas remanescentes da primeira ocupação residencial de Botafogo, o que ajuda a explicar a atenção dedicada às estruturas preservadas durante o processo de restauração.
Rui Barbosa comprou a propriedade em 1893, e a família passou a ocupá-la dois anos depois, quando o jurista deu ao endereço o nome de Vila Maria Augusta, em homenagem à esposa, permanecendo ali com os familiares até 1923.
Além da arquitetura, o conjunto preserva características da forma de morar de grupos abastados do Rio de Janeiro no século XIX, inclusive na distribuição entre ambientes sociais e áreas destinadas às atividades domésticas desenvolvidas diariamente dentro da residência.
Ao longo da ocupação, diferentes adaptações acompanharam mudanças tecnológicas e funcionais, já que, conforme a Fundação Casa de Rui Barbosa, o imóvel possuía água encanada quente e fria quando foi comprado e depois recebeu eletricidade e telefone.
Embora o sistema de iluminação tenha sido adaptado para a energia elétrica, alguns bicos de gás foram mantidos, evidenciando como sucessivas modernizações passaram a coexistir com elementos anteriores, uma característica também percebida nas intervenções acumuladas pelo jardim.
Paralelepípedos permaneceram escondidos sob intervenção mais recente
Foi justamente sob uma dessas modificações mais recentes que a antiga pavimentação reapareceu, pois a retirada do cimento expôs paralelepípedos organizados como piso, permitindo documentar uma configuração que não estava representada nos registros visuais conhecidos da propriedade.
Enquanto os trabalhos avançavam, arqueólogos acompanharam o revolvimento da terra e recolheram materiais que seriam posteriormente catalogados e analisados, entre eles moedas de aparência recente, um tinteiro, um cachimbo e peças ou fragmentos de cerâmica encontrados no terreno.
Responsável pelo monitoramento das áreas com potencial arqueológico, a Grifo Consultoria e Projetos em Arqueologia acompanhou intervenções no jardim, permitindo que objetos retirados do solo fossem registrados antes de estudos voltados à identificação de períodos e possíveis procedências.
Arqueologia ajudou a interpretar os objetos encontrados no terreno
Encontrar esses materiais, porém, não significava atribuí-los automaticamente aos moradores mais conhecidos da residência, porque a própria Fundação registrou que alguns itens poderiam ter sido abandonados em épocas distintas ou transportados junto com terra utilizada em processos de aterramento.
Por essa razão, a catalogação e a análise arqueológica são necessárias para relacionar cada peça ao contexto em que apareceu, distinguindo objetos de diferentes períodos e evitando que a simples proximidade física seja interpretada como prova direta de pertencimento histórico.
Com os paralelepípedos, a situação era diferente, porque as pedras permaneceram organizadas como pavimentação sob uma camada posterior de cimento, oferecendo uma evidência material da configuração do espaço que ainda não havia sido reconhecida na iconografia utilizada pelos pesquisadores.
Jardim histórico também revelou outras camadas da construção
Em outra área do jardim, uma investigação no piso de um tanque identificou camadas abaixo do acabamento de cimento e um fundo em pedra gnaisse, levando à preservação das diferentes superfícies e à manutenção de uma área de prospecção visível.
Além dessas descobertas, o projeto envolveu serviços de paisagismo, drenagem, irrigação, infraestrutura elétrica e recuperação de elementos integrados ao conjunto, sempre conciliando a circulação pública com a conservação de estruturas históricas presentes no imóvel e em seu entorno.
Nas bordas dos canteiros, paralelepípedos que já faziam parte do jardim foram realinhados e assentados sobre uma base destinada a reduzir novos afundamentos, permitindo preservar peças existentes em vez de substituí-las simplesmente por materiais novos durante a intervenção.
Hoje transformada em museu, a residência preserva arquitetura, mobiliário, documentos e elementos paisagísticos, enquanto o trabalho realizado no jardim acrescentou ao acervo informações sobre estruturas e objetos que permaneceram ocultos até a retirada de intervenções mais recentes.
Se uma camada de cimento conseguiu esconder por tanto tempo uma pavimentação histórica e pequenos objetos no terreno, quantas outras construções antigas ainda podem guardar partes desconhecidas de sua história sob pisos, jardins e paredes que parecem completamente comuns?

