Após gastar mais de US$ 10 mil em sete tentativas, jovem de Bihar protesta com milhares de candidatos prejudicados por vazamentos, cancelamentos e irregularidades em exames públicos e de acesso à medicina na Índia inteira
Filho de agricultores do estado de Bihar, Ashok Kumar passou quatro anos tentando conquistar um emprego público na Índia. Mudou-se para Nova Delhi, concluiu um mestrado, frequentou cursos preparatórios e realizou sete provas. Nenhuma tentativa deu certo. Nesse processo, estima ter gasto mais de US$ 10 mil, valor retirado quase integralmente das economias acumuladas pelo pai.
Aos 25 anos, Ashok decidiu transformar a frustração em protesto. Ele se juntou a milhares de jovens que foram às ruas contra vazamentos, suspeitas de fraude e sucessivos cancelamentos de exames usados para selecionar funcionários públicos e estudantes de medicina no país.
A mobilização ganhou força depois que o governo invalidou os resultados de um exame médico nacional realizado por cerca de 2 milhões de estudantes.
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As autoridades identificaram o vazamento de questões da prova, frustrando candidatos que passaram meses ou anos estudando.
Entre eles estava Abhishek, irmão mais novo de Ashok. Aos 20 anos, ele já havia tentado três vezes conseguir uma vaga em uma faculdade de medicina.
Família vivia do arroz e do leite de búfala
Ashok e Abhishek cresceram em uma área rural de Bihar, estado que possui a menor renda per capita da Índia.
O pai cultiva arroz, enquanto a mãe vende o leite retirado de um búfalo para complementar a renda familiar.
Mesmo diante das dificuldades, os pais investiram nos estudos dos dois filhos. Para Ashok, o serviço público representava uma das poucas possibilidades de deixar o campo e alcançar estabilidade financeira.
Ainda adolescente, ele começou a frequentar cursos preparatórios. Durante quedas de energia, estudava à luz de uma lamparina. Acreditava que dedicação e esforço seriam suficientes para mudar sua vida.
Depois de se mudar para Delhi, a mil quilômetros de sua cidade natal, Ashok continuou tentando. Em uma das provas estaduais, ficou apenas dez pontos abaixo da nota necessária para avançar à etapa seguinte.
O resultado aumentou sua sensação de que estava sempre perto da vaga, mas nunca conseguia alcançá-la.
Ao todo, realizou sete exames nacionais e estaduais em quatro anos. Enquanto isso, o dinheiro economizado pela família foi sendo consumido por mensalidades, materiais, inscrições, aluguel e despesas de permanência na capital.
Emprego público oferece segurança disputada por milhões
Na Índia, concursos e exames padronizados controlam o acesso a milhares de empregos públicos, incluindo funções administrativas, diplomáticas e ambientais.
As vagas são cobiçadas porque oferecem estabilidade, aposentadoria e, em alguns casos, benefícios de moradia.
A disputa, porém, é intensa. Milhões de candidatos passam anos em cursinhos e gastam valores elevados tentando alcançar uma quantidade limitada de vagas.
Desde 2014, pelo menos duas dezenas de exames tiveram resultados invalidados por causa de vazamentos, segundo uma análise citada no material-base. O problema se tornou ainda mais sensível diante do desemprego entre os jovens.
Dados governamentais indicam que indianos com menos de 30 anos têm três vezes mais chances de estar desempregados do que a média da população.
Para Ashok, a sequência de irregularidades destruiu a confiança no processo. “Eu pensava que só o trabalho duro seria suficiente”, afirmou.
Protestos reuniram dezenas de milhares
A indignação levou Ashok ao Jantar Mantar, tradicional ponto de manifestações em Nova Delhi. Os atos foram conduzidos pelo Partido Janata das Baratas, movimento satírico criado para representar jovens desempregados e candidatos prejudicados pelo sistema.
Em 20 de julho, mais de 50 mil pessoas tentaram marchar em direção ao Parlamento, segundo estimativas apresentadas no texto. A manifestação reuniu jovens de diferentes regiões, classes sociais e comunidades religiosas.
Ashok afirmou ter sido atingido por um cassetete durante um dos confrontos. A polícia declarou que as manifestações foram acompanhadas profissionalmente e informou que 118 policiais ficaram feridos.
A revolta também alcançou famílias que investiram na formação médica dos filhos. Simran Singh, filha de uma empregada doméstica, havia passado meses praticamente isolada para estudar. Sua mãe gastava mais de US$ 3 mil por ano em aulas preparatórias.
Após o cancelamento do resultado, Simran realizou uma nova prova, mas recebeu uma nota inferior à esperada e decidiu abandonar o sonho de cursar medicina.
Diante da pressão, o governo anunciou penas mais severas contra vazamentos e criou um painel para revisar o sistema de exames.
Para Ashok, porém, as mudanças chegaram depois de anos de tentativas e do esgotamento das economias familiares.
Em seu pequeno quarto alugado em Delhi, ele resume a desilusão que levou milhares de jovens às ruas: “O sistema de exames públicos entrou em colapso em grande parte”.
Essa matéria contém dados da Reuters.

