Vinícius Ferreira Fernandes tem 21 anos, nasceu em Aparecida e cursou o ensino básico em escolas públicas de Sousa. A lista final saiu em 19 de dezembro de 2024, com 180 aprovados entre 9.781 inscritos na primeira fase. Ele soube por telefone, antes da divulgação oficial.
O único paraibano aprovado no vestibular 2025 do Instituto Tecnológico de Aeronáutica é filho de agricultor e estudou em escolas públicas do sertão, conforme reportagem publicada em dezembro de 2024 pelo Diário do Sertão. Vinícius Ferreira Fernandes, de 21 anos, é natural de Aparecida e filho de José Nildo Ferreira, agricultor, e de Ananales Fernandes Dutra Ferreira, agente comunitária de saúde.
A aprovação veio na quinta tentativa, depois de anos de preparação em que ele chegou a estudar 16 horas por dia. Ele foi notificado por telefone na manhã de 19 de dezembro de 2024, antes mesmo de a lista oficial ser publicada, e levou algum tempo para acreditar na notícia.
Os números que mostram o tamanho do funil
A dimensão da disputa ajuda a entender por que a conquista virou notícia estadual. A primeira fase do processo seletivo reuniu 9.781 inscritos, dos quais 775 avançaram para a etapa final, realizada em novembro de 2024 em 22 cidades, incluindo São José dos Campos, onde fica o instituto.
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Dessa segunda fase saíram os 180 aprovados. Colocando os números lado a lado, restou pouco menos de 2% dos candidatos que começaram o processo, o que coloca essa seleção entre as mais restritivas do país.
As vagas são divididas em dois grupos. São 140 destinadas a candidatos civis e 40 reservadas à carreira militar, distribuição que reduz ainda mais o número de posições disponíveis para cada perfil.
Da escola pública de Sousa à bolsa em Fortaleza
O percurso escolar começou perto de casa. Ele cursou o ensino fundamental I no Instituto Educacional Paulo Freire, em Aparecida, e depois seguiu para Sousa, onde fez o fundamental II na Escola Normal José Gadelha e o ensino médio na Escola Mestre Júlio Sarmento.
A decisão de mirar o instituto surgiu ainda na segunda série do ensino médio. A primeira inspiração para a engenharia veio do próprio pai, que além do trabalho no campo já havia atuado em uma oficina mecânica.
A virada na preparação aconteceu em 2021, quando ele conquistou uma bolsa de estudos no Colégio Ari de Sá, em Fortaleza, instituição de referência nacional na preparação para vestibulares. Foi ali que a rotina passou a girar quase integralmente em torno de um único objetivo, e a mudança de estado marcou o início da fase mais intensa desse período.
As 16 horas diárias e o custo dessa rotina

O número que mais impressiona no relato dele é o volume de horas dedicadas ao estudo. Segundo o próprio, ele chegou a estudar praticamente todo o tempo em que estava acordado, marca que em alguns períodos alcançou 16 horas por dia.
A rotina descrita envolvia acordar muito cedo, estudar durante todo o dia útil e reservar os fins de semana para simulados e provas anteriores, com atenção especial aos processos seletivos militares. As questões e edições anteriores da própria instituição entraram como material central de preparação.
Essa carga cobrou um preço que ele mesmo reconhece. Nos primeiros anos, admite ter negligenciado a saúde física, situação que o levou a incorporar corrida, natação e musculação à rotina depois de perceber que a área não podia ficar de fora. Ele descreve o período como um dos mais difíceis da vida, e a correção de rumo veio da constatação de que o corpo não sustentaria aquele ritmo indefinidamente.
Quatro tentativas antes da aprovação
O dado que mais destoa da narrativa habitual de aprovação é a quantidade de tentativas. Foram cinco no total, o que significa quatro resultados negativos antes do que veio em dezembro de 2024.
A dificuldade de ingresso, em vez de desmotivar, funcionou como estímulo segundo o relato dele. O grau de exigência do processo passou a ser encarado como um desafio a ser vencido, e não como uma barreira intransponível.
Essa persistência tem um custo raramente mencionado nesse tipo de história. Cada tentativa consome um ano de vida em preparação integral, com adiamento de outras escolhas de formação, de trabalho e de renda, e o quinto ano de dedicação foi feito sem qualquer garantia de que o resultado seria diferente.
As aprovações que ele deixou de lado pelo caminho
Um detalhe que dimensiona o nível de preparação alcançado é a lista de outros processos em que ele foi aprovado enquanto perseguia o objetivo principal.
Ele conquistou vaga no Instituto Militar de Engenharia, na Escola Naval, na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante e na Escola Preparatória de Cadetes do Exército. São quatro instituições militares de ensino superior, todas com processos seletivos próprios e concorridos.
Houve ainda três boas pontuações no Exame Nacional do Ensino Médio, desempenho que, segundo a apuração, lhe garantiria vaga no curso de medicina. Ele acumulou opções que a maioria dos estudantes consideraria destino final e seguiu tentando outra coisa, porque o instituto aeronáutico era o objetivo desde o começo.
A motivação declarada: os pais
Quando questionado sobre o que o movia, ele não citou vocação técnica nem prestígio institucional em primeiro lugar. As motivações apontadas foram a busca por estabilidade financeira e o desejo de proporcionar uma vida melhor aos pais.
Essa formulação aparece com frequência em trajetórias de estudantes que são os primeiros da família a alcançar formação superior de alto nível. O diploma deixa de ser projeto individual e passa a funcionar como projeto familiar, com expectativa compartilhada por quem custeou e apoiou o percurso.
Ele resumiu o significado da conquista dizendo que ela representa que o estudo vale a pena, e que com esforço, persistência e uma oportunidade é possível mudar de vida. A palavra oportunidade aparece nessa frase ao lado do esforço, e não no lugar dele, o que é coerente com a bolsa que ele obteve em 2021 e que viabilizou a preparação.
O curso que começou em janeiro de 2025
As atividades acadêmicas tiveram início em 12 de janeiro de 2025, em São José dos Campos, no interior de São Paulo. O curso de engenharia tem duração de cinco anos.
A instituição oferece oito especialidades, entre elas engenharia aeronáutica, engenharia eletrônica, engenharia aeroespacial, engenharia de energia e engenharia de sistemas. A escolha da habilitação acontece ao longo da formação, e a reportagem não informa qual delas ele pretendia seguir.
A mudança envolveu também deslocamento geográfico significativo. Do sertão paraibano para o interior paulista são mais de dois mil quilômetros, distância que se soma à adaptação ao ritmo de um dos cursos de engenharia mais exigentes do país.
O que a reportagem não esclarece
Alguns pontos ficam em aberto na apuração e ajudariam a entender melhor o caso. Não há informação sobre como a família custeou o período de preparação, especialmente a permanência em Fortaleza, nem se houve auxílio além da bolsa de estudos.
Também não consta se ele chegou a cursar alguma das instituições em que foi aprovado durante os anos de tentativa, ou se dedicou os cinco anos exclusivamente à preparação, sem vínculo com outro curso superior.
Da mesma forma, o material não informa sua colocação na lista final, se ele pleiteou auxílio de permanência estudantil nem como se organizou a mudança para São Paulo. São detalhes que interessariam a quem está no mesmo caminho, e que a cobertura não alcançou.
Cinco anos de preparação para cinco anos de curso
A simetria dessa história chama atenção. Foram aproximadamente cinco anos entre a decisão tomada no ensino médio e a aprovação, seguidos de cinco anos de graduação pela frente.
O que sustenta o percurso não é um talento isolado, e sim uma combinação de fatores identificáveis: uma bolsa que deu acesso a preparação de alto nível, uma rotina de estudo mantida por anos, o uso sistemático de provas anteriores como método e a decisão de recusar aprovações que já estavam garantidas.
Vale registrar também o que a rotina de 16 horas diárias representa. Ela produziu resultado neste caso, mas é um regime que o próprio estudante reconhece ter cobrado sua saúde física, e que ele precisou corrigir no meio do caminho. Persistência e desgaste caminharam juntos nessa trajetória, e a segunda parte costuma ficar de fora quando esse tipo de história é contada.
E você, aguentaria cinco anos tentando a mesma vaga depois de quatro reprovações? Acha que rotina de 16 horas de estudo é dedicação ou exagero que cobra caro depois? Conta nos comentários até onde você iria por uma vaga em um curso dos sonhos.
