Depois de décadas dedicadas ao trabalho, à família e aos cuidados com parentes, uma feirante retomou os estudos, conquistou uma vaga em Direito numa universidade federal e passou a representar outros alunos, numa trajetória marcada por recomeço acadêmico, persistência e apoio familiar.
Aos 60 anos, Júlia Rodrigues de Paulo Barbosa conquistou o segundo lugar no curso de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso depois de passar décadas conciliando trabalho, responsabilidades domésticas, criação dos filhos e cuidados prestados a outros integrantes da família.
Dois anos após a aprovação, a trajetória ganhou um novo capítulo dentro da universidade, porque ela passou a representar os estudantes do Campus Universitário do Araguaia em uma comissão dedicada ao apoio educacional, ampliando sua participação para além da sala de aula.
O ingresso no ensino superior ocorreu depois de um longo afastamento da educação formal, período em que Júlia precisou priorizar o sustento da casa e as necessidades dos parentes antes de retomar o antigo desejo de estudar Direito.
-
Sem estrada para chegar à aldeia e cansadas de ver ambulâncias, crianças e moradores presos no caminho, 25 mulheres juntam dinheiro, pegam ferramentas e abrem estrada de 1,5 km com as próprias mãos
-
Homem que guardou parte da rescisão na meia e outra parte na cueca para pagar três cursos do SENAI, venceu o racismo no mercado de trabalho, avançou no ultrassom industrial e hoje encontra falhas invisíveis em plataformas de petróleo antes que provoquem acidentes e prejuízos milionários
-
Pescador passa anos entre redes, barcos e venda de camarão para sustentar 7 filhos, consegue ver todos formados no ensino superior e uma das filhas chegar ao comando de universidade pública após atravessar rios para estudar
-
Editora compra em leilão a casa de fazenda dos bisavós erguida por volta de 1908, devolve o imóvel à família após cerca de 80 anos e, ao retirar carpetes, linóleo e papéis de parede, descobre que vitrais, portas de correr e madeira original sobreviveram intactos, depois reúne no mesmo teto cadeiras, colchas e louças herdadas
Embora tivesse concluído o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos, modalidade voltada a quem não completou a educação básica na idade regular, o projeto de se tornar advogada permaneceu adiado durante grande parte da vida adulta.
Feirante adiou o sonho de cursar Direito para cuidar da família
Feirante e vendedora em Brasília, Júlia criou dois filhos e dois sobrinhos, além de participar dos cuidados de um irmão com deficiência, assumindo uma rotina marcada por trabalho constante e responsabilidades familiares que dificultavam qualquer planejamento acadêmico de longo prazo.
Nesse contexto, o desejo de ingressar numa faculdade continuou distante, mesmo depois da conclusão dos estudos básicos pela EJA, porque as tarefas domésticas, a atividade profissional e o cuidado com outras pessoas ocupavam praticamente todo o tempo disponível.
A mudança começou com o incentivo da filha, Stephanie de Paulo Barbosa, que convenceu a mãe a participar da seleção e passou a colaborar diretamente com a preparação, buscando materiais de estudo e assumindo parte das tarefas domésticas.
Com a rotina reorganizada, Júlia conseguiu reservar períodos específicos para revisar conteúdos, resolver exercícios e acompanhar as exigências do Exame Nacional do Ensino Médio, sem abandonar o trabalho nem as responsabilidades que já faziam parte de seu cotidiano.
Segundo o Olhar Direto, Júlia estudou durante cerca de dois anos para o Enem, conciliando a preparação com a manutenção da casa, o atendimento à família e a atividade profissional, numa jornada que exigiu disciplina e apoio constante.
Aprovação em Direito na UFMT veio aos 60 anos

A aprovação ocorreu para o curso de Direito no Campus Universitário do Araguaia da UFMT, localizado em Barra do Garças, em Mato Grosso, onde Júlia alcançou uma classificação capaz de transformar em realidade um projeto profissional antigo.
Ao conquistar o segundo lugar no processo seletivo, a feirante garantiu uma vaga numa universidade federal e abriu uma nova etapa da própria vida, depois de anos em que as necessidades familiares impediram a continuidade dos estudos.
Dentro de casa, a notícia foi recebida com forte emoção, já que Stephanie acompanhara a preparação e compreendia o peso daquela conquista para a mãe, que havia dedicado boa parte da vida à criação e ao cuidado de outras pessoas.
O apoio da filha também provocou uma inversão simbólica na dinâmica familiar, pois aquela que durante anos cuidou dos filhos passou a receber ajuda prática para estudar, organizar a rotina e avançar em direção a um objetivo pessoal antigo.
Após a divulgação da aprovação, surgiram ataques relacionados à idade da nova universitária, incluindo comentários que afirmavam que Júlia estaria ocupando o lugar de uma pessoa mais jovem e mensagens ofensivas publicadas nas redes sociais.
Mesmo diante dessas manifestações, a estudante manteve os planos de iniciar a graduação, sustentada por uma classificação obtida segundo os mesmos critérios aplicados aos demais candidatos e pelo desempenho alcançado depois de dois anos de preparação.
Mudança de cidade exigiu nova reorganização da rotina
Como o curso seria realizado presencialmente em Barra do Garças, a mudança de Brasília para o município mato-grossense tornou-se uma das principais questões práticas enfrentadas pela família, exigindo novos ajustes no trabalho, na moradia e na organização diária.
A entrada na universidade não se limitou às atividades acadêmicas, porque Júlia passou a ocupar espaços institucionais e a participar de discussões voltadas à vida estudantil, incorporando à graduação experiências acumuladas ao longo de décadas.
Uma portaria institucional publicada em 2026 registrou Júlia como representante discente do Campus Universitário do Araguaia na Comissão de Apoio Educacional, função que formalizou sua participação na defesa de interesses relacionados ao acompanhamento dos estudantes.
Formado por representantes de diferentes áreas da universidade, o grupo atua na definição integrada de estratégias, recursos e cronogramas individualizados ligados à inclusão, à acessibilidade e ao apoio educacional, aproximando Júlia de debates centrais para a comunidade acadêmica.
Representação estudantil abriu novo capítulo na universidade
Ao assumir essa função, a estudante acrescentou uma nova dimensão à história iniciada com o retorno aos estudos, passando da condição de candidata que retomou a educação básica para a de representante formal de outros alunos.
Antes de ocupar esse espaço, Júlia enfrentou a interrupção da formação, concluiu o ensino médio já adulta, preparou-se para uma prova nacional e ingressou num curso que havia desejado durante anos, sem abandonar os vínculos familiares construídos anteriormente.
Seu percurso também evidencia a importância do apoio familiar no retorno de adultos à educação, especialmente quando alguém próximo assume tarefas, oferece materiais e ajuda a criar condições práticas para que o estudo volte a fazer parte da rotina.
Ao longo da preparação, Stephanie não apenas incentivou a inscrição, mas participou diretamente da mudança de rotina, permitindo que a mãe reservasse tempo para estudar enquanto mantinha compromissos profissionais e familiares que não poderiam ser simplesmente interrompidos.
EJA manteve aberto o caminho até o ensino superior
A EJA ocupou um ponto central nessa trajetória porque possibilitou a conclusão do ensino médio e preservou o acesso posterior à universidade, mesmo que o ingresso efetivo tenha ocorrido muitos anos depois da retomada da educação básica.
Sem essa etapa, Júlia não poderia disputar uma vaga no ensino superior, ainda que o desejo de cursar Direito permanecesse presente, o que demonstra a importância de políticas educacionais voltadas a jovens e adultos que interromperam os estudos.
O segundo lugar no processo seletivo também contrariou a ideia de que uma graduação precisa começar logo após o ensino médio, já que Júlia concorreu pelas regras da seleção e garantiu sua vaga com base no desempenho obtido.
Ao assumir a representação discente na Comissão de Apoio Educacional, ela passou a contribuir com discussões sobre inclusão, acessibilidade e acompanhamento de alunos, levando para o ambiente universitário uma experiência de vida formada por trabalho, cuidado familiar e retorno tardio aos estudos.
Quantas outras pessoas poderiam retomar um sonho antigo, concluir a educação básica e chegar ao ensino superior depois de anos longe da escola se encontrassem apoio familiar, acesso à EJA e condições concretas para reorganizar a própria rotina?
