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Em vez de jogar fora as sobras de algodão que restam da impressão das cédulas, a Casa da Moeda criou uma tecnologia que já reaproveitou mais de 760 toneladas desse resíduo, deixa de desperdiçar cerca de 200 toneladas por ano e corta em até 92% as emissões de CO2

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 23/07/2026 às 13:04
Em vez de jogar fora as sobras de algodão que restam da impressão das cédulas, a Casa da Moeda criou uma tecnologia que já reaproveitou mais de 760 toneladas
Em vez de jogar fora as sobras de algodão que restam da impressão das cédulas, a Casa da Moeda criou uma tecnologia que já reaproveitou mais de 760 toneladas
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A Casa da Moeda do Brasil e a BP Security desenvolveram um processo capaz de recuperar as fibras de algodão que sobram da fabricação das notas e reaproveitá-las em novos papéis de segurança. Mais de 760 toneladas de resíduo já passaram pela linha, com corte de até 92% nas emissões de CO₂.

Cédula de real não é feita da mesma matéria-prima de um caderno ou de uma folha de escritório. O substrato do papel-moeda é construído a partir de fibra de algodão, e é isso que explica por que uma nota aguenta bolso, chuva, dobra e lavagem acidental sem virar farelo. Essa mesma resistência, porém, sempre foi o motivo pelo qual a sobra da produção era difícil de reciclar e acabava descartada. Agora, segundo reportagem publicada pela revista Veja, a Casa da Moeda do Brasil e a empresa BP Security desenvolveram uma tecnologia que recupera essas fibras e as devolve à produção de novos papéis de segurança. O balanço divulgado em julho de 2026 aponta mais de 760 toneladas de resíduo já processadas.

O projeto é articulado pelo Instituto Tranforma, que mantém contrato com a Casa da Moeda desde 2019 para dar destino a esse material. Com a nova etapa, cerca de 200 toneladas de resíduo geradas a cada ano na fabricação do papel-moeda deixam de ser desperdiçadas, e a comparação com o uso de algodão virgem indica redução de até 92% nas emissões de CO₂, conforme os números apresentados pelos responsáveis pela iniciativa.

Por que o dinheiro é feito de algodão e não de madeira

A escolha da matéria-prima não tem nada de estética. O papel comum é feito de celulose de madeira, enquanto o papel-moeda usa fibra de algodão, que oferece resistência mecânica muito superior e suporta o manuseio intenso a que uma cédula é submetida.

Uma nota de real passa por milhares de mãos, é amassada, dobrada, guardada em carteiras apertadas e não raro esquecida no bolso de uma calça que vai para a máquina de lavar. Um papel de celulose comum se desmancharia em poucos dias nesse regime de uso, o que inviabilizaria qualquer moeda física.

Há ainda a questão da segurança. O substrato precisa comportar marca d’água, fios metálicos, fibras coloridas embutidas e tintas especiais aplicadas em etapas sucessivas. A base de algodão sustenta esse conjunto de elementos sem perder integridade, e é por isso que praticamente todas as autoridades monetárias do mundo adotam substratos semelhantes ou polímero.

A resistência que protege a nota é a mesma que travava a reciclagem

imagem: casa da moeda
imagem: casa da moeda

O ponto que faz esse projeto ser tecnicamente relevante é justamente uma inversão. A qualidade que torna a cédula durável é a qualidade que torna o resíduo dela um problema.

O algodão presente na composição do papel-moeda apresenta alta resistência a úmido, característica que impede o material de se desfazer em contato com água. Numa reciclagem convencional, o papel precisa ser desagregado em meio líquido para que a fibra se solte e é exatamente esse passo que o substrato de segurança resiste a cumprir.

O resultado prático desse impasse era o descarte. O processo de transformação se tornava complexo e caro, e boa parte do material acabava seguindo para aterro em vez de retornar à cadeia produtiva, ainda que a fibra ali dentro fosse de qualidade elevada.

O que a tecnologia faz com a fibra recuperada

A proposta apresentada pelas empresas envolvidas não é transformar o resíduo em um produto qualquer de menor valor. A tecnologia recupera fibras de alta qualidade e as reintroduz na produção de novos substratos de segurança, ou seja, o material volta para o mesmo patamar técnico de onde saiu.

Esse detalhe muda a natureza da operação. Em muitas cadeias de reciclagem ocorre o chamado rebaixamento, quando o material recuperado só serve para aplicações menos exigentes que a original. Aqui, a fibra sai do resíduo de papel-moeda e retorna a papéis de segurança, mantendo a função.

A BP Security é fornecedora de papel de segurança e trabalha com elementos como fibras sintéticas embutidas no substrato durante a fabricação. A empresa e a Casa da Moeda estudavam há tempos como aproveitar integralmente a matéria-prima, incluindo as aparas geradas antes e depois do processamento.

Os números do reaproveitamento

Os dados divulgados dão a dimensão do volume envolvido. A iniciativa já processou mais de 760 toneladas de resíduos, marca acumulada desde a implantação do modelo.

O fluxo anual é o outro número relevante. Cerca de 200 toneladas de resíduos eram geradas a cada ano na fabricação de papel-moeda e agora deixam de ser desperdiçadas, segundo o balanço apresentado pelos responsáveis.

Cruzando as duas informações, o total já processado equivale a quase quatro anos de descarte no ritmo atual de geração. É um volume que sai da conta do lixo e entra na conta do estoque de matéria-prima, que é precisamente o ponto defendido por quem toca o projeto.

A conta de carbono: até 92% menos emissões

O argumento ambiental apresentado pela iniciativa se apoia numa comparação direta. O reaproveitamento reduz em até 92% as emissões de CO₂ em relação ao uso de algodão virgem, conforme os dados divulgados.

A lógica por trás desse tipo de número está no que a fibra reciclada dispensa. Algodão virgem exige plantio, irrigação, colheita, beneficiamento e transporte, etapas que carregam consumo de água, uso de solo e queima de combustível antes mesmo de o material chegar à fábrica de papel.

A fibra recuperada entra na linha sem passar por nenhuma dessas fases. O resíduo já está dentro da própria cadeia industrial, o que elimina a maior parte do percurso agrícola e logístico que antecede a produção convencional.

Quem está por trás da iniciativa

O arranjo envolve três nomes com funções distintas. A Casa da Moeda do Brasil é a empresa pública responsável pela fabricação do papel-moeda nacional, e é dela que sai o resíduo em questão.

A parte industrial de recuperação fica com a fornecedora de substratos. A BP Security desenvolveu a tecnologia de recuperação das fibras e é quem devolve o material à produção de novos papéis de segurança.

A articulação do projeto cabe a uma terceira entidade. O Instituto Transforma, ligado ao Grupo Equipa, coordena a iniciativa e mantém desde 2019 o contrato que permite captar o material descartado pela Casa da Moeda.

A ideia começou com uma observação sobre desperdício

O projeto não nasceu de um edital nem de uma meta ambiental corporativa. Ele partiu da constatação de que havia um volume enorme de papel-moeda sendo destruído sem qualquer destino produtivo.

Essa percepção veio de Patricio Mariano Malvezzi, hoje à frente do Instituto Transforma, e antecede em mais de uma década a etapa atual. A observação inicial foi feita há cerca de treze anos, quando o descarte de material monetário ainda não tinha alternativa estruturada no país.

São duas fontes distintas de descarte, frequentemente confundidas uma com a outra. O Banco Central destrói por ano cerca de 2 mil toneladas de cédulas retiradas de circulação por desgaste, enquanto as aproximadamente 200 toneladas citadas no projeto são resíduo de produção, gerado dentro da fábrica por falhas de impressão e corte. Informações sobre o meio circulante e sua substituição são acompanhadas pelo Banco Central.

Antes dos papéis de segurança, vieram as cadeiras

A recuperação de fibras é a etapa mais recente de um trabalho que já tinha outro formato. O mesmo resíduo de papel-moeda vinha sendo usado na fabricação de móveis e objetos de design, linha desenvolvida a partir do contrato firmado com a Casa da Moeda.

As peças produzidas nesse formato exploram a resistência do material. Cadeiras, puffs, mesas, esculturas e objetos de decoração foram feitos com notas que nunca chegaram a circular, descartadas por defeito de impressão, corte ou outras falhas de fabricação.

A diferença entre as duas frentes está no destino da fibra. No caso dos móveis, o material vira um produto novo em outro setor; no caso atual, ele retorna à indústria de papel de segurança, fechando o ciclo dentro da própria cadeia de origem.

E a segurança da cédula, fica comprometida?

Essa é a objeção mais previsível quando se fala em reaproveitar material de papel-moeda, e ela foi endereçada diretamente por quem desenvolveu o processo. A empresa afirma que não há prejuízo à segurança nem à qualidade da produção das notas.

Alexandre Ambrozio Gilberti, diretor de Operações da BP Security, tratou do ponto ao comentar o projeto. “Nossa tecnologia permite recuperar fibras de alta qualidade para a produção de novos substratos de segurança, promovendo a economia circular sem comprometer os padrões de segurança e qualidade”, destacou o executivo.

A afirmação parte da própria empresa responsável pela tecnologia. Não foram divulgados laudos técnicos independentes, protocolos de teste ou parecer de terceiros que permitam avaliar externamente o desempenho do substrato produzido com fibra recuperada.

“Resíduos podem deixar de representar custo”

O outro argumento central do projeto é econômico, e não ambiental. A tese é que resíduo industrial pode virar insumo com valor agregado em vez de despesa de descarte.

Patricio Malvezzi, fundador e CEO do Instituto Transforma, resumiu o raciocínio ao falar sobre a iniciativa. “O projeto demonstra que inovação, sustentabilidade e viabilidade econômica podem caminhar juntas, criando um modelo de economia circular com potencial de aplicação em diversos segmentos da indústria”, afirmou.

Na leitura defendida por ele, a mudança é de classificação contábil antes de ser de processo. O que era tratado como passivo passa a ser tratado como matéria-prima de alto valor agregado, e é essa inversão que o projeto tenta demonstrar como replicável.

O que significa economia circular nesse caso

O termo aparece com frequência em comunicação corporativa e nem sempre com precisão. Economia circular descreve um modelo em que o material permanece em uso pelo maior tempo possível, em oposição ao ciclo linear de extrair, produzir, usar e descartar.

O caso do papel-moeda oferece um exemplo bastante fechado desse desenho. A fibra sai da produção de papel de segurança e volta para a produção de papel de segurança, sem sair da cadeia nem mudar de aplicação.

Esse tipo de circuito curto costuma ser mais eficiente do que a reciclagem genérica. Quanto menor o desvio entre origem e destino do material, menor o transporte, o reprocessamento e a perda de qualidade envolvidos na operação.

A indústria de cédulas do mundo mexe na mesma tecla

O Brasil não é o único lugar onde a pegada ambiental do papel-moeda entrou em discussão. Fabricantes e bancos centrais de outros países vêm testando alternativas para reduzir o impacto da produção de cédulas, com foco tanto na matéria-prima quanto no fim de vida do material.

Entre as linhas exploradas internacionalmente estão a adoção de algodão de cultivo orgânico e o desenvolvimento de substratos com pegada de carbono reduzida. A recuperação de celulose a partir de resíduo de produção de cédulas também é objeto de estudo acadêmico, com aplicações que vão até materiais de escala nanométrica.

O que distingue o caso brasileiro é o desenho institucional. A operação envolve uma empresa pública, um fornecedor privado de papel de segurança e um instituto articulador, em uma cadeia que já tinha contrato ativo e destino comercial para o resíduo antes desta etapa.

E você, o que faria com esse resíduo?

Mais de 760 toneladas de resíduo processadas, cerca de 200 toneladas por ano que deixam de virar lixo e uma fibra de algodão que sai da impressão das cédulas e volta para a produção de papel de segurança. Uma qualidade técnica que existia para proteger a nota do bolso e da chuva foi a mesma que, durante anos, empurrou o material para o aterro.

E você, acha que empresas públicas deveriam ser obrigadas a dar destino produtivo aos resíduos que geram? Ou esse tipo de solução só avança quando compensa financeiramente? Conte nos comentários o que você pensa e marque alguém que nem imaginava que dinheiro é feito de algodão.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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