Brasil deve consumir 1,5 bilhão de litros de lubrificantes em 2026, enquanto fabricantes enfrentam novas exigências técnicas e uma frota com milhões de veículos a combustão
Em 2026, a indústria automotiva brasileira completa 70 anos desde a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), em 1956. Nesse período, os lubrificantes automotivos deixaram de cumprir funções concentradas na proteção de peças mecânicas e passaram a desempenhar um papel importante na eficiência, durabilidade e desempenho dos motores. A evolução acompanhou a instalação de montadoras, o crescimento da frota e o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais exigentes.
O tamanho desse mercado ajuda a dimensionar sua importância. Segundo levantamento da Mordor Intelligence, o Brasil é o maior consumidor de lubrificantes acabados da América do Sul, com projeção de 1,5 bilhão de litros em 2026. Ao mesmo tempo, a eletrificação dos veículos exige novos fluidos, enquanto milhões de automóveis tradicionais continuam dependendo de trocas periódicas de óleo e manutenção mecânica.
Criação do GEIA em 1956 impulsionou a fabricação de veículos e aumentou a demanda por óleos lubrificantes
A expansão da indústria automobilística brasileira ganhou força em 1956, quando o governo criou o GEIA para estimular a produção nacional de veículos e componentes. Naquele período, os motores apresentavam características diferentes das tecnologias atuais, e os lubrificantes tinham como principais funções reduzir o atrito, proteger peças contra corrosão e controlar o desgaste mecânico.
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O crescimento das montadoras ampliou a necessidade desses produtos. Conforme a Nota Técnica nº 41/2013 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a frota brasileira alcançava aproximadamente 310 mil veículos em 1960. Com mais automóveis nas ruas, oficinas, postos de serviço e lojas de autopeças também passaram a atender uma demanda crescente por manutenção.
Em 1970, a Resolução CNP nº 8 estabeleceu exigências de registro e apresentação das especificações físico-químicas dos lubrificantes acabados. A regulamentação acompanhou a expansão do mercado e o aumento da variedade de produtos disponíveis aos consumidores.
Controle de emissões a partir de 1986 aumentou as exigências sobre motores e formulações de lubrificantes
A década de 1980 trouxe novas preocupações para a indústria automotiva. Os fabricantes buscavam motores mais eficientes, capazes de oferecer maior desempenho e atender às exigências ambientais. Esse movimento também alterou as características necessárias aos lubrificantes, que precisavam suportar temperaturas elevadas e condições de funcionamento mais severas.
Em 1986, o governo criou o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a iniciativa buscou reduzir emissões e incentivar melhorias tecnológicas nos veículos e combustíveis.
As mudanças favoreceram o desenvolvimento de formulações com aditivos destinados ao controle da oxidação, proteção contra desgaste e redução de depósitos nos motores. Durante os anos 1990, a abertura econômica ampliou a diversidade de veículos e tecnologias disponíveis no Brasil, aumentando a necessidade de produtos com especificações diferentes.
Esse processo levou à publicação da Portaria ANP nº 131, em 1999, que estabeleceu exigências de registro e níveis mínimos de desempenho para lubrificantes automotivos comercializados no país.
Crescimento do mercado automotivo nos anos 2000 tornou a escolha do lubrificante mais específica para cada motor
A expansão do mercado automobilístico brasileiro nos anos 2000 colocou veículos de diferentes origens, tecnologias e sistemas de transmissão em circulação. Com isso, um único tipo de lubrificante deixou de atender adequadamente às necessidades de toda a frota, exigindo maior atenção às recomendações das montadoras.
A viscosidade, o tipo de combustível, as condições de operação e o nível de desempenho passaram a influenciar diretamente a escolha do óleo. Em 2007, a Resolução ANP nº 10 elevou os requisitos mínimos de desempenho e atualizou os critérios de registro dos lubrificantes acabados.
Na década de 2010, a adoção de motores compactos, turboalimentação e sistemas de pós-tratamento de emissões ampliou essas exigências. Os fabricantes passaram a desenvolver formulações voltadas à estabilidade térmica, ao controle de depósitos e à eficiência energética, considerando as características específicas de cada motor.
Eletrificação dos veículos exige novos fluidos, mas frota brasileira ainda depende da manutenção tradicional
A partir de 2020, a eletrificação passou a representar um novo desafio para o setor de lubrificantes automotivos. Enquanto as montadoras avançam no desenvolvimento de veículos eletrificados, grande parte dos automóveis brasileiros continua utilizando motores a combustão e exigindo manutenção convencional.
Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), a idade média da frota circulante brasileira se aproximava de 11 anos em 2023. Esse cenário indica que a demanda por óleos de motor e outros fluidos tradicionais continuará presente durante os próximos anos.
Os veículos eletrificados, por sua vez, apresentam necessidades específicas de lubrificação e gerenciamento térmico. Componentes elétricos e sistemas de transmissão exigem produtos desenvolvidos para condições diferentes daquelas encontradas nos motores convencionais.
A indústria de lubrificantes precisa, portanto, atender simultaneamente a essas duas realidades. O desenvolvimento de novos fluidos acompanha a eletrificação, enquanto o aperfeiçoamento dos óleos tradicionais continua necessário para proteger os motores que permanecem em circulação.
Setenta anos de mudanças mostram como os lubrificantes acompanharam a evolução da indústria automotiva brasileira
Desde a criação do GEIA, em 1956, os lubrificantes acompanharam transformações na fabricação de veículos, no desempenho dos motores e nas exigências de controle de emissões. O produto que inicialmente tinha como prioridade reduzir o atrito entre peças passou a integrar soluções técnicas voltadas à eficiência e à durabilidade dos sistemas mecânicos.
O avanço da eletrificação acrescenta uma nova etapa a essa trajetória. Assim como ocorreu com a expansão das montadoras e o desenvolvimento de motores mais sofisticados, o mercado de lubrificantes terá de responder às necessidades das tecnologias que chegam às ruas brasileiras.
A história desses 70 anos mostra que a importância dos lubrificantes automotivos está diretamente relacionada à capacidade de acompanhar as mudanças da indústria, independentemente da tecnologia utilizada para movimentar os veículos.

