Carlos A. Giménez, deputado republicano dos Estados Unidos pela Flórida, publicou no X uma imagem manipulada que insere o rosto do presidente brasileiro na fotografia da captura de Nicolás Maduro. O conteúdo foi repostado por Eduardo Bolsonaro e pelo influenciador Paulo Figueiredo.
A imagem é falsa e foi produzida digitalmente. Nela, o rosto do presidente Lula aparece no lugar do de Nicolás Maduro em uma fotografia real da captura do venezuelano por forças dos Estados Unidos, com venda nos olhos, protetores auriculares, moletom cinza e uma garrafa de cachaça na mão, conforme reportagem assinada por Renato Becker e publicada pelo ND Mais em 9 de agosto de 2026.
A publicação é do deputado republicano Carlos A. Giménez, que representa a Flórida na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, e trazia a legenda “O que o espera“, seguida da hashtag Brasil e da bandeira brasileira. O post foi depois compartilhado pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos, e pelo jornalista e influenciador Paulo Figueiredo, conforme registraram CNN Brasil, InfoMoney, Jovem Pan e Metrópoles.
O que foi alterado na imagem

A base da montagem é uma fotografia autêntica, tirada a bordo de uma embarcação das Forças Armadas americanas e divulgada por Donald Trump após a captura do líder venezuelano. Na original, Maduro aparece algemado, vendado e com o mesmo casaco de moletom cinza.
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Três elementos foram modificados na versão que circulou. O rosto de Maduro foi substituído pelo de Lula. A garrafa de água que o detido segurava virou uma garrafa de cachaça da marca 51. E os acessórios de contenção e transporte militar, como venda e protetores auriculares, foram mantidos. A cena, portanto, nunca existiu, e o único elemento real é o enquadramento da fotografia original.
Quem é Carlos Giménez

O autor da publicação é integrante do Partido Republicano e apoiador de Donald Trump. Ele representa a Flórida na Câmara dos Representantes e vem fazendo uma sequência de manifestações sobre o presidente brasileiro nos últimos dias.
Nas publicações anteriores, segundo CNN Brasil e O Antagonista, o deputado chamou Lula de corrupto e de criminoso comunista condenado, comparou o presidente brasileiro a Miguel Díaz-Canel, de Cuba, a Daniel Ortega, da Nicarágua, e a Delcy Rodríguez, da Venezuela, e afirmou que Lula prejudicou a aliança entre Brasil e Estados Unidos. Horas depois da montagem, voltou ao assunto dizendo que o presidente brasileiro estaria sob influência de lideranças que classificou como castrocomunistas. Uma dessas publicações foi compartilhada pelo presidente argentino Javier Milei no sábado, 8 de agosto.
O que Lula havia dito dias antes
O contexto da sequência de ataques passa por uma declaração do presidente brasileiro. Na sexta-feira, 7 de agosto, durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos, Lula comentou as tarifas impostas pelo governo americano a produtos brasileiros.
Ao falar sobre o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, Lula o classificou como um latino-americano frustrado, afirmou que ele não gosta do Brasil nem da América Latina e o chamou de bolsonarista. Giménez respondeu em seguida dizendo que a hostilidade de Lula em relação a Rubio não o surpreende. A troca de declarações antecede a publicação da montagem e ajuda a situar o episódio dentro de uma disputa diplomática em curso.
A legenda de Eduardo Bolsonaro e a referência ao TSE
Ao repostar o conteúdo, Eduardo Bolsonaro não apenas compartilhou a imagem, mas acrescentou um comentário com endereço político específico. Ele escreveu que um deputado americano postou uma foto de inteligência artificial com Lula e que o PT não poderá recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral, conforme reproduziu o Metrópoles.
A frase faz referência a um episódio recente. No fim de julho, o PT acionou o TSE contra a campanha de Flávio Bolsonaro depois da exibição, na convenção do Partido Liberal, de um vídeo de Jair Bolsonaro produzido com inteligência artificial. O argumento embutido na ironia é o de que a mesma tecnologia questionada por um lado foi usada em favor do outro, com a diferença de que a publicação partiu de um parlamentar estrangeiro, fora do alcance da Justiça Eleitoral brasileira. Eduardo Bolsonaro teve mandato de deputado federal por São Paulo até dezembro de 2025 e está nos Estados Unidos buscando apoio do governo Trump em relação à condenação do pai.
O caso Maduro que serviu de base
A fotografia usada como matriz da montagem tem origem em um episódio recente e de grande repercussão internacional. Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados por forças americanas sob acusações formais de narcotráfico internacional e de liderança do chamado Cartel de los Soles, classificado por Washington como organização terrorista.
A operação foi precedida pelo aumento da presença militar americana no Caribe e por uma recompensa de US$ 50 milhões, e envolveu bombardeios na região de Caracas, com o objetivo declarado de levar o venezuelano a julgamento nos Estados Unidos. O governo da Venezuela decretou estado de emergência, exigiu provas de vida de Maduro e acusou os americanos de conduzir uma ofensiva imperialista para tomar o controle das reservas de petróleo do país.
A repercussão e a discussão sobre imagem manipulada
O post acumulou rapidamente milhares de curtidas e compartilhamentos no X. Entre os comentários, o ND Mais registra duas linhas distintas de reação: usuários que destacaram o tom provocativo da publicação e outros que chamaram atenção para o uso de imagens alteradas por autoridades públicas.
Esse segundo ponto é o que ultrapassa o episódio específico. Uma imagem manipulada publicada por um parlamentar em exercício circula com o peso institucional do cargo, e não com o de um perfil anônimo. Nenhuma das reportagens consultadas registra manifestação oficial do governo brasileiro, do Itamaraty ou do próprio Lula sobre a publicação até o fechamento deste texto. Também não há registro de resposta de Giménez a eventuais críticas sobre o uso da tecnologia.
Uma nota sobre datas
Vale um esclarecimento para quem for procurar a publicação. O registro do post no X aparece datado de 9 de agosto de 2026, mas parte da cobertura brasileira, incluindo O Antagonista, situa a publicação no sábado, 8 de agosto. A diferença provavelmente decorre do fuso horário entre Brasil e Estados Unidos.
A publicação de Milei compartilhando outra manifestação de Giménez está datada no sábado, 8, por essas mesmas fontes. A reportagem que originou esta matéria foi publicada na manhã de 9 de agosto.
O episódio junta três elementos que vão continuar aparecendo: imagem gerada por inteligência artificial, autoridade eleita como autora da publicação e ano eleitoral no Brasil. A discussão sobre o que é sátira política e o que é desinformação passa por aí.
Conta nos comentários: você acha que parlamentar em exercício deveria poder publicar montagem de IA com o rosto de chefe de Estado, seja de qual país for? E na sua opinião, quem deveria regular isso quando a publicação parte de um político estrangeiro, fora do alcance da Justiça brasileira?
