Uma cliente recebeu 32 currículos impressos dentro de uma encomenda da Doces Biba, usados para proteger produtos na caixa. A denúncia superou 1,9 milhão de visualizações no X. A empresa assumiu a falha, suspendeu envios e especialistas apontaram possível violação da LGPD, com riscos administrativos, civis e reputacionais à companhia.
Uma cliente identificada no X apenas como @harryforemost encontrou 32 currículos impressos dentro de uma encomenda da Doces Biba, usados como material para proteger os produtos durante o envio. Os documentos continham informações pessoais de candidatos e haviam sido colocados na caixa de um pedido realizado por meio de uma plataforma de marketplace.
Segundo reportagem publicada pela Pequenas Empresas & Grandes Negócios em 30 de março de 2026, a denúncia havia sido publicada no domingo, 29 de março, e ultrapassado 1,9 milhão de visualizações no X. A Doces Biba, que possui fábrica em Mococa, no interior de São Paulo, reconheceu a falha e anunciou medidas internas após a repercussão.
Cliente encontrou 32 currículos dentro da caixa do pedido

A consumidora mostrou nas redes sociais os documentos que chegaram junto aos itens comprados.
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Segundo seu relato, eram 32 currículos utilizados para proteger os produtos dentro da embalagem. Ao publicar as imagens, ela tomou cuidado para não revelar a identidade dos candidatos.
O pedido havia sido feito em uma plataforma de marketplace na qual a Doces Biba mantém sua operação de vendas.
Consumidora disse ter ficado com raiva ao ver dados expostos
A cliente explicou que decidiu tornar o episódio público por considerar grave o uso dado aos documentos.
“Não sou muito de expor as coisas da minha vida pessoal aqui, mas isso me deixou tão injuriada, triste e com raiva que eu preciso escrever sobre”, afirmou.
A crítica central estava na exposição das informações contidas nos currículos a pessoas que não tinham relação com os candidatos.
“Pegaram o currículo de pessoas que estão precisando de emprego”

A autora da denúncia destacou especificamente o fato de os papéis terem sido originalmente entregues por pessoas em busca de trabalho.
“É de uma coisa tão absurda que só sei sentir raiva disso! Pegaram o currículo de pessoas que estão precisando de emprego para embalar mercadoria. Expondo os dados pessoais e importantes para qualquer um”, escreveu.
O relato ganhou alcance rapidamente e colocou a forma de descarte dos documentos da empresa no centro das críticas.
Denúncia ultrapassou 1,9 milhão de visualizações no X
A publicação feita por @harryforemost alcançou mais de 1,9 milhão de visualizações.
Com a repercussão, a Doces Biba passou a ser cobrada publicamente sobre o tratamento dado aos documentos recebidos de candidatos.
A empresa se manifestou na tarde de 30 de março, um dia após a publicação do relato.
Fundadora da Doces Biba assumiu responsabilidade pelo episódio
A manifestação foi assinada por Érica Saboya, fundadora e proprietária da Doces Biba.
Em nota divulgada no Instagram, ela reconheceu o problema e afirmou que a companhia havia sido alertada sobre uma falha em seus procedimentos.
“Fomos alertados sobre uma falha grave e inaceitável em nosso processo interno de descarte de documentos, que resultou na exposição indevida de currículos em nossas embalagens de envio”, declarou.
Empresa diz que tenta localizar cada pessoa afetada
Érica Saboya informou que a Doces Biba estava trabalhando para identificar os titulares das informações que apareceram nos documentos.
Segundo a nota, a empresa buscaria contatar diretamente cada pessoa afetada, apresentar desculpas e oferecer o suporte considerado necessário.
A companhia também pediu desculpas aos candidatos e aos clientes.
Doces Biba suspendeu temporariamente suas operações de envio
A resposta da empresa incluiu uma mudança imediata na operação.
A Doces Biba anunciou a suspensão temporária dos envios para realizar uma auditoria e reformular o fluxo interno de descarte e manuseio dos documentos.
A empresa informou ainda que promoveria treinamento de segurança da informação para os funcionários.
Empresa classificou falha como “grave e inaceitável”
A nota tratou o episódio como incompatível com os padrões que a companhia afirma buscar em sua operação.
“Pedimos nossas mais sinceras desculpas aos candidatos afetados e aos nossos clientes, que confiam em nosso trabalho. Este episódio não reflete o carinho e o cuidado que dedicamos à Doces Biba durante décadas de tradição no mercado doceiro, mas servirá para nos tornarmos uma empresa ainda mais segura e profissional”, declarou.
A manifestação veio depois de a denúncia já ter alcançado grande repercussão nas redes sociais.
Especialista diz que uso dos currículos pode configurar violação da LGPD
O professor Filipe Medon, da Fundação Getulio Vargas Direito Rio, avaliou que o episódio envolve segurança e sigilo das informações pessoais.
“O uso de currículos como material de embalagem pode sim configurar uma violação à LGPD, especialmente quando esses currículos tenham sido enviados de maneira integral, ou seja, demonstrando dados pessoais comuns ou sensíveis”, explicou.
Segundo Medon, a organização também responde pelos atos realizados por seus funcionários no exercício das atividades empresariais.
Sanções podem alcançar esferas civil e administrativa
Filipe Medon explicou que possíveis consequências podem ocorrer tanto no campo civil quanto administrativo.
Em relação a uma eventual indenização, ele ponderou que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem exigido a demonstração de dano adicional quando o episódio envolve dados cadastrais.
A existência e a natureza das informações presentes em cada documento, portanto, entram na avaliação jurídica do caso.
Advogada vê “desvio claro de finalidade” no uso dos documentos
A advogada Caroline D’Agostino, do Arnone Advogados Associados, classificou a utilização dos currículos como um “desvio claro de finalidade”.
Segundo ela, a prática pode contrariar princípios da LGPD como adequação e necessidade.
“A empresa responde pelos danos decorrentes do tratamento de dados pessoais realizado no âmbito de suas atividades, independentemente de culpa direta”, afirmou.
Multa pode chegar a 2% do faturamento, limitada a R$ 50 milhões por infração
Caroline D’Agostino destacou que a exposição de dados pode produzir consequências administrativas e reputacionais.
Entre as sanções previstas, a especialista mencionou multa simples de até 2% do faturamento da empresa, limitada a R$ 50 milhões por infração, além de possíveis repercussões na área consumerista.
Ela acrescentou que a eventual presença de dados sensíveis, como informações sobre origem racial ou saúde, pode tornar a situação mais grave por criar riscos de discriminação.
Falha interna não elimina responsabilidade da empresa, diz advogado
O advogado Alberto Goldenstein, sócio-fundador do GMP|GC Advogados Associados, avaliou que o caso pode ser enquadrado como tratamento irregular e incidente de segurança.
Segundo ele, a utilização dos documentos dessa forma rompe a confidencialidade esperada pelo titular dos dados.
“Em regra, a empresa não se exime de responsabilidade apenas por alegar que a conduta partiu de empregado ou colaborador”, explicou.
Caso pode provocar fiscalização e pedidos de reparação
Goldenstein apontou que, além de possíveis multas, o episódio pode gerar investigações de órgãos fiscalizadores e entidades de defesa do consumidor.
O caso também pode produzir repercussões judiciais, incluindo pedidos individuais ou coletivos de reparação, conforme explicou o advogado.
Para o especialista, o reaproveitamento dos currículos como material de embalagem evidencia uma falha crítica nos procedimentos de eliminação segura de documentos.
Doces Biba anunciou auditoria, novo fluxo de descarte e treinamento
Após a denúncia, a Doces Biba reconheceu a exposição indevida, suspendeu temporariamente seus envios e anunciou uma revisão dos procedimentos usados para lidar com documentos.
A empresa também informou que buscaria os titulares dos dados afetados, enquanto especialistas ouvidos pela reportagem alertaram para potenciais consequências relacionadas à LGPD, à fiscalização, à reputação da companhia e a eventuais pedidos de reparação.
Para você, empresas deveriam adotar controles mais rígidos para destruir currículos e outros documentos com dados pessoais depois que deixam de ser necessários? Deixe sua opinião nos comentários.

