China comprou US$ 7,2 bilhões em produtos agrícolas dos EUA, excluindo soja, até setembro. Entenda a meta de US$ 17 bilhões e o avanço do Brasil no sorgo.
Excluindo a soja, as compras chinesas de produtos agrícolas dos Estados Unidos somaram US$ 7,2 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, o menor valor para esse período desde 2019. O desempenho indica que as importações podem encerrar o ano no nível mais baixo em sete anos, enquanto cresce a incerteza sobre o compromisso de Pequim de adquirir pelo menos US$ 17 bilhões anuais em mercadorias agrícolas americanas fora da soja.
A desaceleração ocorre em meio à concorrência de outros fornecedores, à demanda mais fraca no mercado chinês e às dificuldades enfrentadas por produtores americanos. Nesse cenário, o Brasil vem conquistando espaço nas vendas de sorgo, um dos produtos tradicionalmente exportados pelos Estados Unidos para a China.
Brasil amplia exportações de sorgo e aumenta concorrência com os EUA
A entrada do Brasil no mercado chinês de sorgo, autorizada em setembro de 2025, acrescentou um novo concorrente às exportações americanas. Ao longo de 2026, os embarques brasileiros já alcançaram 1,7 milhão de toneladas, enquanto quase 1 milhão de toneladas adicionais estão previstas para envio, conforme informações de Eduardo Vanin, estrategista sênior de agricultura da Marex.
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O avanço brasileiro ocorre em um mercado que já teve participação expressiva dos Estados Unidos. Em 2021, os americanos venderam 6,5 milhões de toneladas de sorgo à China, movimentando aproximadamente US$ 2,1 bilhões.
Até o fim de agosto de 2026, as exportações americanas do grão ao país asiático somaram cerca de 3,7 milhões de toneladas, superando o volume registrado no ano anterior. Apesar desse resultado acumulado, as vendas praticamente pararam nos quatro meses mais recentes, evidenciando as dificuldades para manter o ritmo comercial.

Milho americano enfrenta concorrência da produção chinesa
Além do sorgo, o milho também perdeu competitividade no mercado chinês, principalmente diante da disponibilidade de grãos produzidos no próprio país. A situação contrasta com 2021, quando a China importou quase 20 milhões de toneladas de milho dos Estados Unidos, em compras avaliadas em US$ 5,6 bilhões.
Em outubro, a COFCO Futures, corretora vinculada a uma estatal chinesa, avaliou que o milho americano não estava competitivo, em parte devido à ampla oferta doméstica. Para a safra 2026/27, iniciada em setembro, a instituição projetou importações de aproximadamente 900 mil toneladas do produto dos Estados Unidos.
O volume previsto fica muito abaixo daquele registrado em 2021 e ajuda a explicar por que uma recuperação expressiva das compras agrícolas chinesas não depende apenas dos compromissos comerciais assumidos entre os dois países.
Carne bovina dos Estados Unidos também enfrenta restrições na China
As dificuldades comerciais atingem ainda os frigoríficos americanos, embora os obstáculos variem conforme o tipo de carne. No caso dos produtos suínos e de frango, a China dispõe de oferta doméstica abundante, enquanto a carne bovina dos Estados Unidos ficou mais cara em razão da redução dos rebanhos americanos.
Além da questão dos preços, parte da indústria enfrenta limitações para acessar o mercado chinês. Em maio, Pequim renovou as autorizações de exportação de mais de 400 frigoríficos dos EUA, mas aproximadamente metade da capacidade americana de abate de bovinos continua sem permissão para atender compradores chineses.
Segundo a Federação de Exportação de Carnes dos Estados Unidos, algumas unidades foram barradas após autoridades chinesas relatarem a identificação de resíduos de substâncias não autorizadas no país. As restrições representam mais um obstáculo para a ampliação das vendas agrícolas americanas.

Apesar do desempenho fraco das importações, ainda não é possível afirmar que a China descumpriu o compromisso de comprar pelo menos US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas americanos, excluindo a soja.
A principal dúvida envolve o início da contagem do prazo. A Casa Branca não esclareceu se a obrigação passou a valer após o anúncio realizado em maio ou se começará somente depois da conclusão dos cortes tarifários propostos pela China, que ainda não foram finalizados.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos encaminhou ao Escritório do Representante Comercial americano (USTR) os questionamentos sobre o cálculo proporcional da meta para 2026. Até o momento relatado, o órgão, a Casa Branca e o Ministério do Comércio chinês não haviam respondido aos pedidos de esclarecimento.
A soja, por sua vez, faz parte de um compromisso separado e segue uma trajetória diferente, com as compras chinesas caminhando para atingir a meta estabelecida para o produto.
Agricultores americanos pressionam por retomada das vendas
A dificuldade para ampliar as exportações também ganhou importância política em meio às eleições de meio de mandato de 3 de novembro nos Estados Unidos. O Partido Democrata tenta conquistar apoio em regiões agrícolas tradicionalmente ligadas aos republicanos, enquanto produtores enfrentam dificuldades comerciais e combustíveis mais caros.
Tim Lust, diretor-executivo da National Sorghum Producers, chamou atenção para os estoques de grãos acumulados e para a expectativa dos agricultores de voltar a negociar volumes maiores com a China. Segundo ele, embora a soja esteja avançando nas negociações, outras commodities ainda não acompanham esse movimento.
A situação aumenta a pressão por uma recuperação das compras, sobretudo entre produtores que dependem das exportações para escoar parte de sua produção.
Com a demanda chinesa enfraquecida em determinadas categorias e a concorrência de outros fornecedores, analistas consideram difícil alcançar a meta de US$ 17 bilhões apenas por meio das condições atuais de mercado.
Darin Friedrichs, cofundador da Sitonia Consulting, consultoria especializada no mercado agrícola chinês, avalia que Pequim provavelmente precisará mobilizar empresas estatais para ampliar as aquisições. Na avaliação do especialista, atingir o valor previsto sem compras direcionadas seria difícil diante do cenário comercial.
A possibilidade de intervenção dessas companhias coloca a decisão também no campo político, uma vez que o ritmo das importações pode depender de medidas adotadas pelo governo chinês.
