China pode dominar o mundo? País se vê líder de um dos setores mais promissores do presente e futuro sem grandes rivais, enquanto EUA e Brasil lutam para reduzir dependência
A China assumiu protagonismo mundial nas terras raras, minerais estratégicos para tecnologias de ponta. O país controla a cadeia produtiva, mantém preços baixos e enfrenta poucas alternativas viáveis, enquanto EUA, Europa e Brasil buscam reduzir a dependência.
A China consolidou uma posição praticamente incontestável no setor de terras raras, insumos fundamentais para tecnologias de ponta como carros elétricos, turbinas eólicas, smartphones e sistemas de defesa.
O controle da cadeia de produção, do minério bruto aos ímãs de alta performance, tornou Pequim o ator central desse mercado, sem concorrentes capazes de rivalizar em escala e custos.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada nesta sexta-feira (29), Zhang Xigang, diretor da Rising Nonferrous Metals Share — braço de um dos dois conglomerados estatais do setor — afirmou que o domínio chinês deve se manter por muitos anos.
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Ele declarou que a dependência global da cadeia de suprimentos chinesa é inevitável e que as tentativas de países ocidentais de reduzir essa influência tendem ao fracasso.
Dependência ocidental e tentativas de reação
Estados Unidos, União Europeia e Japão vêm tentando criar rotas próprias de produção de minerais críticos e ímãs.
O objetivo é reduzir a dependência da China, que concentra cerca de 70% da extração, 90% do processamento e 93% da fabricação de ímãs à base de terras raras.
Apesar dos investimentos, especialistas consideram improvável que o Ocidente consiga, em curto prazo, quebrar essa hegemonia.
O país asiático construiu um sistema integrado ao longo de décadas, apoiado por políticas estatais, subsídios fiscais e aquisições estratégicas em empresas estrangeiras.
Isso permitiu manter preços baixos, desencorajando rivais a competir.
Em alguns momentos, Pequim utilizou o controle das exportações como instrumento de pressão política.
A União Europeia acusou a China de adotar práticas de chantagem econômica, enquanto Washington já denunciou restrições como forma de barganha em negociações comerciais.
Mesmo quando libera o fluxo de exportações, o governo chinês monitora de perto os volumes enviados, evitando o acúmulo de estoques no exterior.
Estratégia construída ao longo de décadas
A visão de liderança em terras raras remonta ao final dos anos 1980, quando o então líder Deng Xiaoping destacou que, assim como o Oriente Médio possuía petróleo, a China dispunha desses minerais estratégicos.
Nos anos seguintes, a mineração se expandiu rapidamente, favorecida pela frouxidão ambiental que permitia operações de baixo custo.
Nos anos 1990, Pequim passou a mirar etapas mais lucrativas da cadeia.
Duas companhias estatais uniram-se a investidores americanos e adquiriram a divisão de ímãs da General Motors, nos Estados Unidos.
Em menos de uma década, fábricas foram fechadas em solo americano, máquinas transferidas para a China e trabalhadores demitidos.
A operação marcou o início da migração de conhecimento e capacidade produtiva para território chinês.
Na década seguinte, Pequim adotou cotas de exportação e incentivos fiscais, sufocando concorrentes estrangeiros.
Conforme destacou a Folha de S.Paulo, fornecedores ocidentais não conseguiam competir em preço quando clientes obtinham cotações muito mais baixas diretamente da China.
O resultado foi o fechamento das últimas fábricas de ímãs nos Estados Unidos em 2010.
Impacto geopolítico e resposta global
A dependência ficou evidente no mesmo ano, quando um embargo não oficial de Pequim ao Japão expôs a vulnerabilidade das cadeias globais.
Tóquio reagiu criando estoques estratégicos e investindo em reciclagem de minerais extraídos de produtos usados.
Enquanto isso, a China consolidava ainda mais o setor, centralizando a mineração em duas gigantes estatais: China Northern Rare Earth e China Rare Earth Group.
Essa última controla a Rising Nonferrous Metals, cuja direção defende publicamente o poder de influência global do país.
A entrada de mineradoras nos EUA e na Austrália não alterou o cenário.
Sempre que novos concorrentes surgem, Pequim eleva suas cotas de produção e reduz preços, mantendo margens de lucro baixas e dificultando a viabilidade econômica de projetos fora do país.
Obstáculos para os rivais
Especialistas afirmam que alcançar os níveis de eficiência chineses é improvável.
Além da escala de produção, o país detém tecnologias de processamento exclusivas, que não são compartilhadas com estrangeiros.
Isso torna a competição mais cara e arriscada. A Casa Branca vem adotando medidas para tentar estimular a indústria doméstica.
Em julho, o governo dos Estados Unidos garantiu um preço mínimo para a MP Materials, empresa sediada em Las Vegas, assumindo o compromisso de comprar parte de sua produção de neodímio-praseodímio por valores superiores aos praticados pela China.
O objetivo é viabilizar economicamente as operações, mesmo que a custos maiores.
No G7, líderes discutem a criação de padrões internacionais que, no futuro, poderiam limitar a entrada de produtos chineses ultrabaratos.
No entanto, analistas duvidam que haja mercado para ímãs não chineses mais caros fora do setor militar, em que a segurança nacional pode justificar gastos adicionais.
De acordo com a Folha de S.Paulo, mesmo com margens reduzidas, as estatais chinesas continuam investindo pesado, garantindo avanço tecnológico e barreiras quase intransponíveis para competidores internacionais.
O que está em jogo para o futuro
A disputa pelo controle das terras raras mostra como cadeias produtivas estratégicas podem se tornar instrumentos de poder geopolítico.
Para o Ocidente, diversificar fornecedores é um desafio caro e demorado.
Para a China, manter preços baixos e garantir domínio tecnológico significa prolongar sua vantagem.
Enquanto EUA, Europa e Japão investem em alternativas, especialistas alertam que países em desenvolvimento, como o Brasil, podem permanecer dependentes do fornecimento chinês, mesmo possuindo reservas próprias.
O custo de transformação mineral em escala competitiva continua sendo um obstáculo.
Diante desse cenário, a pergunta que persiste é: até que ponto a liderança chinesa nas terras raras pode redefinir o equilíbrio global de poder?