Motor a hidrogênio desenvolvido pela FAW Jiefang avança após certificação ambiental e testes severos de durabilidade, combinando redução de emissões, adaptação a plataformas existentes e preparação industrial, embora a fabricante ainda não tenha definido quando começará a produção comercial em larga escala.
A chinesa FAW Jiefang anunciou, em julho de 2026, que o motor de combustão interna a hidrogênio CA6HV3 recebeu a certificação ambiental nacional e completou 100 mil quilômetros de validação instalado no caminhão-trator Xingyi J6V, projetado para operações com até 49 toneladas.
De acordo com as informações, o avanço tecnológico mostra que o hidrogênio alcançou uma etapa mais próxima da aplicação comercial no transporte rodoviário pesado.
Segundo a companhia, o CA6HV3 tornou-se o primeiro motor de sua categoria a reunir certificação ambiental completa e validação de confiabilidade diretamente no veículo, combinação apresentada como um marco importante para ampliar a industrialização dessa tecnologia em caminhões de grande porte.
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Nesse contexto, a expressão “dupla emissão zero”, adotada pela montadora, descreve a ausência de emissões de carbono durante o funcionamento do propulsor e a redução dos demais poluentes a níveis classificados pela empresa como próximos de zero.
Motor a hidrogênio reduz emissões de NOx
Embora o hidrogênio não contenha carbono, sua combustão em temperaturas elevadas ainda pode produzir óxidos de nitrogênio, conhecidos pela sigla NOx, razão pela qual o conjunto utiliza um sistema específico para tratar os gases liberados pelo escapamento.

De acordo com os resultados divulgados pela fabricante, as emissões de NOx ficaram em 5% do limite estabelecido pelo padrão China VI e em 14% do teto projetado para a futura regulamentação China VII.
Para alcançar esses índices, o CA6HV3 combina um sistema de alimentação de hidrogênio desenvolvido internamente com uma solução SCR, tecnologia de tratamento catalítico empregada para reduzir a concentração de óxidos de nitrogênio antes que os gases sejam liberados.
Ao integrar os dois sistemas, a FAW busca oferecer uma estrutura de longa vida útil, enquanto o pós-tratamento SCR procura equilibrar eficiência ambiental, estabilidade operacional e custos compatíveis com uma futura utilização em frotas comerciais de transporte pesado.
Caminhão de 49 toneladas enfrenta testes extremos
Durante a etapa de validação, o caminhão-trator Xingyi J6V percorreu 100 mil quilômetros em viagens de longa distância, subidas com carga pesada, temperaturas elevadas, frio extremo e ciclos frequentes de partida e parada.
Mesmo submetida a diferentes condições de operação, a combinação entre o motor de combustão a hidrogênio e o sistema SCR manteve o funcionamento e os níveis de emissão dentro dos parâmetros acompanhados pela empresa ao longo dos testes.
Além do desempenho registrado, a montadora informou que o propulsor pode substituir conjuntos convencionais sem exigir alterações profundas na arquitetura do caminhão, característica que tende a reduzir o tempo necessário para adaptar plataformas de veículos pesados já existentes.
Outro aspecto destacado pela companhia foi a compatibilidade com o gerenciamento térmico tradicional dos caminhões, permitindo que a instalação seja realizada sem uma reformulação completa dos circuitos responsáveis pelo controle da temperatura do motor e dos componentes associados.
CA6HV3 foi apresentado pela FAW Jiefang em 2024
Apresentado oficialmente em 5 de dezembro de 2024, o CA6HV3 foi descrito pela FAW Jiefang como o primeiro motor chinês com injeção direta de hidrogênio no cilindro desenvolvido especificamente para veículos comerciais pesados.
Na ocasião, a fabricante informou que a unidade entregava potência máxima de 460 cavalos e torque máximo de 2.100 Nm, além de funcionar com hidrogênio de 90% de pureza, característica apontada como uma vantagem para sua utilização operacional.
Para reduzir o risco de fragilização dos componentes metálicos expostos ao combustível, a empresa declarou ter empregado materiais resistentes ao desgaste e revestimentos especiais nas peças que mantêm contato direto e prolongado com o hidrogênio.
Com essas soluções, o projeto procura limitar a difusão das moléculas de hidrogênio no metal, fenômeno capaz de comprometer a resistência dos componentes e representar um obstáculo técnico para motores submetidos a jornadas intensas e prolongadas.
Linha de produção prepara avanço comercial
O lançamento ocorreu durante a inauguração da superfábrica 6DV da FAW Jiefang, em Dalian, onde foi apresentada uma linha dedicada ao CA6HV3, descrita pela China Hydrogen Alliance como a primeira instalação produtiva desse tipo no mundo.
Na mesma cerimônia, a companhia anunciou um investimento estimado em 614 milhões de yuans para modernizar a produção de motores médios e pesados, incluindo unidades de cinco a sete litros e propulsores abastecidos com hidrogênio.
Dentro da estratégia de novas energias divulgada em setembro de 2021, a FAW Jiefang passou a desenvolver paralelamente veículos com célula a combustível e motores de combustão interna movidos por fontes consideradas de baixo carbono.
Antes da apresentação comercial do CA6HV3, a empresa havia realizado, em 8 de junho de 2022, a primeira ignição bem-sucedida de um motor chinês com injeção direta de hidrogênio destinado a veículos comerciais pesados.
Produção em larga escala ainda não tem calendário
Apesar dos resultados obtidos em certificação e durabilidade, a FAW Jiefang ainda não divulgou calendário, volume anual de fabricação ou mercados definidos para iniciar a produção comercial em larga escala do novo motor.
Por enquanto, também não existe anúncio confirmado sobre a venda do CA6HV3 ou do Xingyi J6V no Brasil, onde uma eventual adoção dependeria de homologação, infraestrutura de abastecimento, disponibilidade de hidrogênio, custos operacionais e suporte técnico.
Com a certificação ambiental e os 100 mil quilômetros de validação, a fabricante passa a reunir dados técnicos para avançar na comercialização, embora o diesel continue presente nas operações e no portfólio da indústria mundial de caminhões.
Resta saber se a possibilidade de adaptar plataformas existentes, preservando parte da arquitetura tradicional dos caminhões, será suficiente para transformar o motor a hidrogênio em uma alternativa comercial competitiva ao diesel no transporte pesado.
