Escavações em Ghent revelaram restos da fortaleza que o imperador Carlos V mandou erguer no século XVI, além de cerâmicas, garrafas, materiais romanos, ferramentas de sílex e uma área de descarte que pode mostrar até o que soldados espanhóis comiam.
Operários preparavam um terreno para um novo complexo de apartamentos em Ghent, na Bélgica, quando as obras trouxeram novamente à luz um lugar que permanecia escondido havia séculos: o castelo espanhol de Ghent, uma fortaleza do século XVI ligada ao imperador Carlos V. Além das estruturas do castelo, arqueólogos encontraram dezenas de esqueletos medievais, cerâmicas, fragmentos de garrafas de vinho, objetos de vidro, materiais do período romano e ferramentas de sílex que indicam ocupação ainda mais antiga do terreno, conforme reportagem publicada pela Popular Mechanics em 28 de agosto de 2026.
O achado começou por causa de uma transformação completamente moderna.
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A área precisava abrir espaço para moradias. Entretanto, quando as equipes começaram os trabalhos, restos de uma fortaleza construída há quase 500 anos reapareceram sob o bairro.
Além disso, os arqueólogos perceberam rapidamente que o local guardava muito mais do que paredes antigas.
Camadas sucessivas revelaram vestígios de diferentes períodos da história da cidade.
Assim, uma obra residencial acabou atravessando séculos de ocupação humana praticamente no mesmo endereço.
Obra para apartamentos revela castelo espanhol do século XVI
A fortaleza ocupava uma área de Ghent, cidade localizada na região de língua flamenga da Bélgica.
No século XVI, o imperador Carlos V mandou construir o castelo para reforçar seu controle sobre a população local depois de uma revolta relacionada à cobrança de impostos.
Portanto, o prédio não surgiu apenas como residência ou estrutura defensiva comum.
O castelo também representava uma demonstração política de poder.
Com o passar dos séculos, entretanto, a estrutura perdeu sua função e entrou em decadência.
Depois, grande parte do local desapareceu sob construções urbanas.
No século XIX, um bairro passou a ocupar parte da antiga área da fortaleza. Como resultado, vários vestígios permaneceram escondidos no subsolo.
A cidade continuou crescendo acima deles.
Até que uma nova transformação urbana abriu novamente o terreno.
Arqueólogos já desconfiavam que havia estruturas escondidas
A descoberta não surgiu completamente sem aviso. Antes de avançar com a obra, os responsáveis realizaram investigações preliminares.

Além disso, equipes abriram poços de teste dentro dos edifícios que seriam demolidos.
Essas sondagens já apontavam para a presença de estruturas antigas.
O arqueólogo Robby Vervoort explicou à emissora pública belga VRT NWS que os testes revelaram partes de pedra ligadas ao castelo e até vestígios mais antigos. A dimensão dos achados, porém, transformou a escavação em algo muito maior.
Vervoort descreveu o local como um verdadeiro tesouro arqueológico.
Ainda assim, paredes e fundações representam apenas uma parte da investigação.
Uma estrutura menos impressionante visualmente pode fornecer informações ainda mais detalhadas sobre quem viveu ali.
Uma antiga fossa pode revelar o que os soldados espanhóis comiam
Entre os pontos que mais despertam interesse dos arqueólogos aparece uma espécie de grande fossa de descarte.
Durante a ocupação do castelo, moradores e soldados jogavam diferentes materiais nesse espaço.
Com isso, objetos, resíduos e restos orgânicos se acumularam em sucessivas camadas.
Agora, os pesquisadores retiram essas camadas cuidadosamente.
Esse trabalho pode revelar detalhes que documentos históricos dificilmente preservam.
Por exemplo, arqueólogos esperam identificar o que os soldados espanhóis consumiam durante sua permanência no local.
Para isso, a equipe procura ossos de animais, sementes e pólen de plantas.
Depois, os pesquisadores poderão reconstruir parte da alimentação cotidiana dos ocupantes.
Assim, aquilo que séculos atrás era simplesmente lixo virou uma fonte de informação científica.
Objetos permanecem excepcionalmente preservados dentro da fossa
A própria composição do depósito ajuda na pesquisa.
Segundo Vervoort, vários objetos encontrados ali apresentam estado excepcional de conservação.
Por isso, a equipe evita retirar todo o material rapidamente.
Em vez disso, os arqueólogos raspam cuidadosamente uma camada depois da outra.
Cada nível pode representar um período diferente de utilização.
Consequentemente, remover tudo sem registrar posição e contexto destruiria informações importantes.
A localização de um objeto pode dizer tanto quanto o objeto em si.
Assim, um fragmento de cerâmica encontrado ao lado de determinados restos animais pode revelar um contexto diferente daquele de uma peça semelhante localizada vários centímetros abaixo.
A arqueologia transforma, dessa forma, o próprio solo em uma linha do tempo.
Castelo ocupou terreno onde existia uma abadia muito mais antiga
A história do terreno, porém, começou muito antes da fortaleza espanhola.
O castelo ocupava uma área anteriormente ligada à Abadia de São Bavão, cuja origem remonta ao século VII.
A Popular Mechanics destaca que essa construção provavelmente esteve entre as primeiras grandes edificações de Ghent.
Séculos depois, entretanto, Carlos V utilizou justamente esse espaço para construir a fortaleza destinada a controlar a cidade.
Essa sobreposição cria uma sequência incomum.
Primeiro, o local teve importância religiosa.
Depois, ganhou função militar e política.
Posteriormente, recebeu construções urbanas.
Agora, os arqueólogos trabalham enquanto um novo projeto residencial prepara outra transformação.
Portanto, uma única parcela urbana registra diferentes funções acumuladas ao longo de mais de mil anos.
Dezenas de esqueletos apareceram em antigo cemitério medieval
Os vestígios da abadia trouxeram outra descoberta relevante.
O antigo local religioso também possuía uma área funerária.
Durante as escavações, os arqueólogos encontraram dezenas de esqueletos medievais.
Os pesquisadores datam os restos humanos de um intervalo entre os séculos XIII e XVI.
Essa cronologia significa que alguns sepultamentos ocorreram centenas de anos antes da fortaleza espanhola.
Além disso, os esqueletos podem ajudar especialistas a estudar a população que viveu na região durante a Idade Média.
Dependendo do estado de conservação e das análises futuras, ossos podem fornecer informações sobre idade, doenças, alimentação, traumas e condições de vida.
Entretanto, a Popular Mechanics não apresenta resultados bioarqueológicos detalhados desses indivíduos.
Por isso, a descoberta permite afirmar que os esqueletos existem e que os pesquisadores os situam entre os séculos XIII e XVI, mas não sustenta conclusões específicas sobre suas causas de morte ou identidades.
Cerâmicas e garrafas ajudam a reconstruir rotina dentro da fortaleza
Os arqueólogos também recuperaram numerosos objetos ligados ao cotidiano.
Entre eles aparecem tigelas de vidro, fragmentos de garrafas de vinho e peças de cerâmica.
Individualmente, esses materiais podem parecer pequenos diante das muralhas de um castelo.
Entretanto, eles ajudam a reconstruir como as pessoas realmente utilizavam o espaço.
Uma fortaleza não reunia apenas soldados em posições de combate.
Ali também havia alimentação, armazenamento, descarte de resíduos e inúmeras atividades cotidianas.
Por isso, objetos domésticos complementam aquilo que estruturas militares mostram sobre o local.
A combinação entre arquitetura e artefatos cria uma visão mais completa da ocupação espanhola.
Enquanto grandes obras modernas impressionam por escala — como o recente túnel belga montado com oito blocos de 160 metros e 60 mil toneladas cada —, esse sítio revela outra dimensão da construção: aquilo que sobrevive depois que um edifício desaparece.
Achados romanos empurram história do terreno ainda mais para trás
A escavação não parou na Idade Média.
Os pesquisadores também encontraram materiais de construção da época romana.
Isso indica atividade no local muito antes da abadia medieval e do castelo espanhol.
Entretanto, a fonte não descreve uma estrutura romana completa.
Portanto, o dado exige cautela.
Os materiais demonstram presença ou utilização do terreno naquele período, mas não permitem afirmar, com base apenas na reportagem, que os arqueólogos encontraram uma vila, forte ou cidade romana inteira sob o castelo.
Mesmo assim, o achado amplia significativamente a cronologia.
Um terreno que inicialmente chamou atenção por causa de uma construção do século XVI passou a fornecer indícios de ocupação muito mais antiga.
Então apareceu outra camada ainda mais surpreendente.
Ferramentas de sílex indicam atividade humana desde a pré-história
Entre os objetos recuperados aparecem também ferramentas de sílex.
Para Vervoort, esses materiais indicam que pessoas utilizaram a área ainda em tempos pré-históricos.
Assim, a sequência arqueológica se estende por períodos muito diferentes.
Há vestígios pré-históricos.
Depois aparecem materiais romanos.
Em seguida vem a ocupação medieval ligada à abadia.
Posteriormente, surge a fortaleza do século XVI.
Finalmente, construções urbanas modernas cobriram parte do sítio.
Essa sobreposição ajuda a explicar por que os arqueólogos consideram o terreno tão valioso.
Não se trata apenas de encontrar um castelo perdido.
O solo registra diferentes fases da própria formação e transformação de Ghent.
Imperador construiu fortaleza depois de revolta contra impostos
O contexto político também torna o castelo incomum.
Carlos V tinha uma relação direta com Ghent, mas enfrentou resistência dos moradores.
A população se revoltou contra exigências fiscais do imperador.
Depois de controlar a rebelião, Carlos V adotou medidas para consolidar sua autoridade sobre a cidade.
Entre elas apareceu a construção da fortaleza.
Portanto, a estrutura transmitia uma mensagem.
As muralhas não protegiam apenas a cidade de ameaças externas.
Elas também ajudavam o poder imperial a controlar os próprios moradores.
A Popular Mechanics descreve a construção como uma espécie de ataque arquitetônico deliberado contra uma população que havia desafiado os impostos do imperador.
Com isso, a arqueologia recupera não apenas pedras.
Ela recupera também uma materialização física de um conflito político ocorrido quase cinco séculos atrás.
Soldados espanhóis provavelmente viveram dentro da fortaleza
As evidências apontam ainda para a presença de integrantes do exército espanhol na estrutura.
Entretanto, os arqueólogos continuam investigando exatamente como esses soldados viviam.
É justamente aí que a fossa de descarte ganha importância.
Os objetos e restos encontrados dentro dela podem mostrar hábitos alimentares e padrões de consumo.
Além disso, a distribuição dos materiais poderá ajudar os especialistas a interpretar diferentes áreas da fortaleza.
A Popular Mechanics afirma que todos os sinais indicam uso do local por soldados espanhóis.
Ainda assim, os pesquisadores procuram mais evidências.
Portanto, a investigação continua aberta em vez de partir de uma conclusão definitiva sobre todos os ocupantes e funções do castelo.
Apartamentos ainda serão construídos, mas projeto terá de respeitar o sítio
Encontrar ruínas e dezenas de esqueletos não cancelou automaticamente o empreendimento imobiliário.
O complexo residencial ainda poderá avançar.
Porém, os responsáveis adaptaram a construção às condições arqueológicas.
O projeto deverá evitar, em grande parte, a criação de porões.
Dessa forma, as equipes reduzem novas interferências nas camadas históricas que permanecem sob o terreno.
Além disso, os arqueólogos decidiram preservar uma parte do lote sem escavação completa.
Essa escolha pode parecer contraditória.
Afinal, se existe algo escondido, por que não retirar tudo agora?
A resposta está na evolução da própria tecnologia.
Arqueólogos deixam parte dos achados para pesquisadores do futuro
Vervoort explicou que parte da área permanecerá intocada propositalmente.
Os pesquisadores acreditam que arqueólogos do futuro terão ferramentas melhores.
Por isso, retirar tudo hoje poderia eliminar oportunidades de aplicar técnicas que ainda nem existem.
A decisão transforma preservação em parte do método científico.
Em vez de enxergar o sítio como um depósito que precisa ser esvaziado, os especialistas tratam parte dele como uma reserva de informações.
Assim, futuras gerações poderão voltar ao mesmo ponto com sensores, métodos de datação e técnicas de análise mais avançados.
É uma lógica semelhante à de outras áreas científicas, nas quais pesquisadores preservam amostras para tecnologias futuras.
Hoje, inclusive, equipamentos cada vez mais sofisticados mudam tarefas antes feitas exclusivamente de forma manual, como mostra o uso de drones que já ajudam centenas de pequenos agricultores a realizar pulverizações em poucos minutos.
Na arqueologia, a mesma evolução tecnológica pode permitir analisar o subsolo no futuro sem destruir tantas camadas.
Obras modernas frequentemente revelam cidades antigas escondidas
A descoberta de Ghent também mostra um desafio recorrente na construção civil de cidades históricas.
Quanto mais antiga a ocupação urbana, maior a possibilidade de uma obra moderna encontrar vestígios anteriores.
Assim, escavar fundações para apartamentos, garagens, metrôs ou redes de infraestrutura pode atravessar camadas de vários séculos.
Por isso, estudos arqueológicos preliminares assumem papel essencial.
Eles permitem identificar riscos antes de máquinas removerem informações de forma irreversível.
Em Ghent, os testes anteciparam a existência de estruturas.
Entretanto, somente a escavação mais ampla mostrou a riqueza do conjunto.
A engenharia contemporânea também enfrenta desafios complexos quando precisa trabalhar em áreas densamente ocupadas. Grandes grupos, por exemplo, ampliam a atuação em energia, transmissão e grandes projetos de infraestrutura que exigem conciliar novas obras com sistemas já existentes.
No sítio belga, porém, parte da infraestrutura existente estava escondida havia centenas de anos.
Castelo desapareceu da superfície, mas sobreviveu sob o bairro
O caso mostra ainda que demolir uma construção não significa apagar completamente sua existência.
Depois que o castelo perdeu importância, partes dele desapareceram.
Mais tarde, o crescimento urbano cobriu o local.
Casas e outras estruturas surgiram por cima.
Assim, para várias gerações, a antiga fortaleza praticamente deixou de fazer parte da paisagem visível.
Entretanto, fundações, fossas e diferentes objetos permaneceram protegidos pelo próprio solo.
Séculos depois, uma demolição destinada a criar novos apartamentos fez exatamente o contrário do que se esperava.
Em vez de apenas remover edifícios antigos para abrir espaço à construção, ela revelou uma estrutura ainda mais antiga.
Achado reúne quase 1.500 anos de história documentada no mesmo terreno
Considerando apenas os elementos datáveis descritos na reportagem, o sítio reúne uma sequência extraordinária.
A Abadia de São Bavão remonta ao século VII.
Os esqueletos medievais encontrados no cemitério vão dos séculos XIII ao XVI.
O castelo espanhol surgiu no século XVI.
Além disso, materiais romanos empurram a ocupação para uma época ainda anterior.
Finalmente, ferramentas de sílex indicam atividade humana pré-histórica.
Portanto, o terreno não representa apenas um momento congelado.
Ele funciona como uma pilha de diferentes fases históricas.
Cada geração construiu, destruiu, reutilizou ou cobriu aquilo que veio antes.
Agora, os arqueólogos precisam separar essas camadas.
Descoberta do castelo espanhol de Ghent começou com uma obra residencial
A transformação final resume o contraste que torna a história tão incomum.
Uma equipe chegou ao terreno para preparar apartamentos modernos.
Então apareceram pedras de uma fortaleza que Carlos V mandou erguer no século XVI.
Depois vieram objetos ligados aos soldados.
Em seguida, o antigo cemitério revelou dezenas de esqueletos dos séculos XIII ao XVI.
Os arqueólogos também encontraram peças de vidro, cerâmica e fragmentos de garrafas.
Mais profundamente na cronologia, surgiram materiais romanos e ferramentas pré-históricas de sílex.
Agora, o empreendimento residencial seguirá adiante com adaptações para proteger parte do patrimônio.
Ao mesmo tempo, os especialistas deixarão uma área intocada para que pesquisadores futuros possam voltar ao sítio com tecnologias melhores.
Assim, o terreno continuará exercendo duas funções ao mesmo tempo.
Acima dele, Ghent construirá parte de sua cidade do século XXI.
Abaixo, permanecerão vestígios de pessoas que ocuparam o mesmo espaço centenas — e talvez milhares — de anos antes.
Quantas outras construções, cemitérios e vestígios de civilizações antigas ainda podem estar escondidos sob bairros modernos sem que ninguém saiba?

