Começada em 1981 na Tchéquia, a casa de Bohumil Lhota combina um pavimento residencial móvel, piscina, jardim de inverno e acessos subterrâneos. A estrutura pode mudar de direção e baixar até ficar protegida pelo terreno, reduzindo sua exposição ao frio, ao vento e às variações de temperatura.
No alto de uma encosta em Velké Hamry, cerca de 100 quilômetros a nordeste de Praga, uma construção circular parece ter sido encaixada dentro do terreno. O que aparece acima da vegetação, porém, é apenas a parte móvel de uma casa capaz de girar até 180 graus e descer cerca de dois metros sob a terra.
O autor é Bohumil Lhota, projetista e construtor tcheco que começou a trabalhar na residência em 1981. A parte principal ficou pronta por volta de 2002, depois de aproximadamente duas décadas de construção feita por ele com a ajuda de amigos, embora novas adaptações tenham continuado depois dessa data.
Lhota havia passado boa parte da vida profissional projetando edifícios convencionais. Ao construir a própria moradia, decidiu aproveitar o terreno inclinado e criar uma estrutura que pudesse mudar de posição, receber luz por diferentes lados e interferir menos na paisagem rural ao redor.
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A residência não se desloca para outro terreno nem funciona como um veículo. O movimento acontece ao redor de um eixo central e na direção vertical, fazendo o pavimento habitável subir como um periscópio ou baixar para dentro da base construída na encosta.
Uma coluna central faz a casa subir, descer e mudar de direção

O núcleo do projeto fica no centro de uma grande estrutura circular de concreto. Um cilindro sustenta a área residencial, enquanto um macaco de fuso permite controlar o movimento vertical e baixar o pavimento superior até cerca de dois metros abaixo de sua posição mais elevada.
A rotação ocorre em torno desse mesmo eixo. Não são as janelas que mudam de lugar na fachada, mas todo o módulo habitável que gira, alterando a direção para a qual as aberturas estão voltadas.
Com isso, o proprietário pode orientar a sala e os demais espaços para receber mais sol ou escolher outro ponto da paisagem. A casa já foi posicionada em direção às montanhas Krkonoše, visíveis à distância, mas o giro também permite acompanhar outras partes da encosta.
A geometria circular facilita a distribuição dos ambientes ao redor da coluna. O mecanismo, entretanto, depende de uma base projetada especialmente para suportar cargas, permitir a rotação e manter a ligação entre os níveis fixos e móveis, algo muito diferente de simplesmente instalar uma casa convencional sobre uma plataforma giratória.
O movimento vertical é acionado por controles. A rotação pode ser feita manualmente, empurrando a parte móvel ao redor do eixo central, como mostram registros da estrutura em funcionamento. Essa combinação reduziu a necessidade de sistemas industriais mais complexos, embora exija manutenção das peças, roldanas, apoios e pontos de contato.
Ao baixar a estrutura, o terreno passa a trabalhar como proteção térmica

Quando o pavimento é rebaixado, as paredes ficam menos expostas ao vento e ao ar gelado. A camada de terra ao redor da construção ajuda a amortecer as mudanças bruscas de temperatura, enquanto o formato compacto diminui a superfície diretamente atingida pelas condições externas.
Segundo a página do projeto mantida pela E.ON, a casa pode ficar até dois metros abaixo do nível superior, usando o solo como isolamento. A empresa também informa que grandes janelas e painéis de policarbonato permitem a entrada de luz solar, enquanto coletores instalados no telhado aquecem a água da piscina.
O projeto não deve ser confundido com uma casa equipada originalmente com aquecimento geotérmico. O Departamento de Energia dos Estados Unidos define bombas de calor geotérmicas como sistemas que usam circuitos para trocar energia com o terreno; na residência de Lhota, o benefício inicial vinha principalmente da estabilidade térmica e da proteção física oferecidas pelo solo.
Baixar o módulo também reduz a visibilidade da casa quando ela não está sendo usada. Na posição inferior, boa parte do pavimento residencial fica escondida na encosta, protegida contra intempéries e menos acessível a invasores.
O interior reúne piscina, jardim de inverno e um mirante sob a cúpula
O pavimento circular tem aproximadamente nove metros de diâmetro. A área habitável utiliza piso de tábuas de madeira, grandes aberturas com estruturas metálicas e paredes feitas parcialmente com Makrolon, nome comercial de um policarbonato que deixa a luz atravessar.
Abaixo dele está uma piscina circular construída ao redor do apoio central. Plantas crescem próximas à água, formando uma espécie de jardim de inverno com samambaias, heras, figueira, kiwi e até romãzeira.
A parte mais alta funciona como um mirante coberto por uma cúpula transparente. A posição elevada oferece visão da região montanhosa, mas a entrada intensa de sol também pode deixar esse nível quente durante os dias mais claros, enquanto a área próxima à piscina permanece mais fresca.
Lhota ampliou o projeto para dentro da encosta. De acordo com a reportagem publicada pelo Novinky em 22 de novembro de 2010, ele cavou uma passagem subterrânea ligando a residência a um ateliê e a uma garagem próxima da estrada, permitindo chegar ao automóvel sem atravessar a neve durante o inverno.
Boa parte da mecânica foi comprada como sucata e adaptada durante a construção. Essa escolha ajudou a manter o projeto viável nas décadas de 1980 e 1990, mas torna difícil calcular quanto uma reprodução atual custaria, pois seria necessário fabricar peças específicas e atender às normas modernas de estrutura, impermeabilização e segurança.
A experiência doméstica acabou premiada como projeto ambiental
Em 2012, a residência recebeu o prêmio principal do E.ON Energy Globe Award da República Tcheca. O projeto venceu sua categoria e foi escolhido como ganhador geral da edição, reconhecimento concedido pelo uso combinado da energia solar, do isolamento proporcionado pelo terreno e dos materiais translúcidos.
A premiação transformou a casa de Velké Hamry em uma curiosidade conhecida fora da Tchéquia. Fotografias feitas em agosto daquele ano mostraram Lhota operando o controle de altura, empurrando manualmente o módulo giratório e caminhando diante da residência parcialmente coberta pela vegetação.
Apesar da solução incomum, a construção não virou um modelo residencial produzido em série. O funcionamento depende do relevo inclinado, da fundação circular, do eixo central e de mecanismos feitos para aquela estrutura, o que limita a reprodução em terrenos urbanos pequenos ou planos.
A casa mostra, porém, uma aplicação concreta de princípios usados em construções semienterradas. Em vez de depender somente de equipamentos de climatização, o projeto combina orientação solar, proteção do solo, áreas translúcidas e possibilidade de alterar a exposição da edificação conforme o clima.
Você moraria em uma casa capaz de girar e descer sob a terra ou consideraria o sistema complexo demais para o uso diário? Deixe nos comentários o que mais chamou sua atenção no projeto de Bohumil Lhota.

