Um nascimento raro no Zoológico de Belo Horizonte abre uma nova etapa no esforço para conservar uma ave brasileira que desapareceu das florestas e hoje depende de reprodução controlada para continuar existindo.
O ovo era acompanhado diariamente pela equipe do Zoológico de Belo Horizonte quando a casca começou a se romper sem ajuda humana.
De dentro dele saiu um filhote de mutum-de-alagoas, ave brasileira que desapareceu de seu ambiente natural e hoje depende de instituições e criadouros para continuar existindo.
O nascimento foi divulgado pela Prefeitura de Belo Horizonte em 16 de janeiro de 2026.
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Naquela data, o filhote tinha pouco mais de 15 dias e vivia com os pais em um recinto reservado, fora da área aberta aos visitantes.
A diferença estava na maneira como ele veio ao mundo.
Segundo a administração municipal, foi o primeiro exemplar da espécie nascido no Brasil a romper sozinho o ovo, sem o uso de chocadeira, e a permanecer sob os cuidados da própria mãe.
Para uma população formada por pouco mais de 100 animais sob cuidados humanos, cada nascimento amplia as possibilidades de conservação.
No Zoo de BH, havia quatro adultos e o novo filhote quando o caso foi anunciado.
Nascimento sem chocadeira chamou atenção no Zoo de BH
Chocadeiras são usadas para controlar temperatura, umidade e outras condições necessárias ao desenvolvimento do embrião.
Em programas de conservação, elas podem ajudar quando os pais abandonam o ninho, quebram os ovos ou não conseguem completar a incubação.
No caso de Belo Horizonte, a equipe decidiu investir em condições para que todo o processo ocorresse dentro do recinto.
O ovo permaneceu com a fêmea, o filhote rompeu a casca por conta própria e passou a ser criado pelos pais.
A chefe da seção de aves do zoológico, a bióloga Márcia Procópio, explicou que esse tipo de nascimento era buscado por ser considerado mais adequado às possíveis etapas futuras de reintrodução.
A criação parental permite que o animal cresça em contato com comportamentos naturais da espécie, em vez de depender integralmente do manejo humano.
O resultado não surgiu na primeira tentativa.
A equipe acompanhava o casal havia anos e já havia registrado cruzamentos, mas nenhum tinha produzido um filhote autônomo nas mesmas condições.
Casal de mutum-de-alagoas precisou aprender a conviver
Os pais chegaram a Belo Horizonte ainda jovens, em 2018, por meio do Plano de Ação Nacional para a Conservação do Mutum-de-alagoas.
A fêmea tinha pouco mais de um ano, enquanto o macho estava com cerca de seis meses.
Formar o casal exigiu intervenções graduais.
No início, a fêmea não aceitava a aproximação porque o macho ainda não havia alcançado a maturidade sexual.
Mais tarde, já crescido, ele passou a atacá-la durante algumas tentativas de contato.
“No começo, a fêmea não aceitava o macho, pois ele ainda não havia alcançado a maturidade sexual. Depois, ele passou a atacá-la nas tentativas de aproximação”, relatou Márcia Procópio.
Para evitar ferimentos, os profissionais montaram uma área cercada dentro do próprio recinto.
Dessa maneira, as aves podiam se ver e permanecer próximas, mas sem contato físico permanente.
O tempo de convivência foi ampliado aos poucos.
A observação diária orientou mudanças no ambiente e ajudou a equipe a identificar os momentos em que os dois animais toleravam melhor a presença um do outro.

Recinto foi adaptado para lembrar uma floresta
Além do acompanhamento comportamental, o espaço recebeu mudanças no paisagismo.
A equipe criou barreiras artificiais e naturais, incluindo paredes de plantas, para oferecer pontos de isolamento.
Áreas de sombra buscaram reproduzir características de um ambiente florestal.
Poleiros e ninhos foram diversificados, permitindo que as aves escolhessem diferentes locais para descansar, se esconder ou permanecer afastadas.
O objetivo era reduzir situações de desconforto e oferecer condições para que o casal expressasse comportamentos reprodutivos.
De acordo com a bióloga, a decisão de não recorrer imediatamente à chocadeira esteve ligada à expectativa de que uma ambientação adequada pudesse favorecer a incubação natural.
Após as alterações, os profissionais continuaram monitorando o ovo.
O momento esperado ocorreu quando o filhote rompeu a casca e, nos primeiros dias, já começou a pular do ninho.
Quando o anúncio foi publicado, a família ocupava uma área de aproximadamente 20 metros quadrados.
O recinto permanecia fechado à visitação para preservar o desenvolvimento do filhote e a rotina dos pais.
Outros dois mutuns-de-alagoas podiam ser vistos pelo público na Praça das Aves do Zoológico de Belo Horizonte.
Mutum-de-alagoas desapareceu após perda de floresta e caça
O mutum-de-alagoas, de nome científico Pauxi mitu, é uma ave de grande porte ligada à Mata Atlântica nordestina.
Seus registros históricos mais seguros vêm de Alagoas, embora pesquisadores considerem possível que sua distribuição original tenha alcançado outras áreas do chamado Centro de Endemismo Pernambuco.
A destruição das florestas para expansão agrícola e a caça reduziram progressivamente a população.
Um dos últimos grupos conhecidos foi localizado na década de 1970, período apontado pela Prefeitura de Belo Horizonte como o momento em que a espécie chegou à extinção na natureza.
A BirdLife International registra que o último avistamento não confirmado teria ocorrido no fim dos anos 1980.
Apesar dessa diferença entre as referências históricas, não existe atualmente uma população selvagem estabelecida e autossustentável reconhecida pela avaliação internacional, que mantém a ave na categoria “extinta na natureza”.
A sobrevivência só foi possível porque alguns exemplares foram mantidos e reproduzidos sob cuidados humanos.
Programas de cruzamento passaram a controlar a origem dos animais e a buscar indivíduos com maior pureza genética para futuras ações de soltura.
Poucos animais deram origem à população atual
A história da espécie sob cuidados humanos começou com uma base genética muito pequena.
Documentos sobre sua conservação relatam que três exemplares capturados deram origem ao programa de reprodução que impediu o desaparecimento total do mutum-de-alagoas.
Essa origem limitada representa um desafio.
Quando uma população começa com poucos indivíduos, aumenta o risco de parentes próximos se reproduzirem e de a diversidade genética diminuir ao longo das gerações.
Por isso, os cruzamentos são planejados.
Instituições participantes trocam informações sobre parentesco, nascimento e características genéticas antes de formar novos casais.
No caso do Zoo de BH, os dois pares recebidos em 2018 faziam parte desse trabalho coordenado.
O nascimento natural amplia o conhecimento disponível sobre comportamento, formação de casais, escolha de ninhos e criação dos filhotes.
A Prefeitura de Belo Horizonte informou que, após o resultado, o zoológico também passaria a atuar como espaço de estudo e pesquisa sobre a reprodução da espécie.
Reintrodução do mutum-de-alagoas começou em Alagoas
Embora o mutum-de-alagoas continue classificado como extinto na natureza, tentativas de reintrodução já começaram.
Em 2019, três casais foram encaminhados para uma área de Mata Atlântica em Rio Largo, na Região Metropolitana de Maceió, após uma fase de preparação.
O programa permaneceu ativo nos anos seguintes.
Em 2023, uma publicação da Prefeitura de Maceió informou que os três casais haviam sido reintroduzidos na Mata do Cedro, área localizada na Usina Utinga.
Em julho de 2025, o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas voltou a divulgar sua participação nas ações destinadas a devolver a ave ao habitat original e garantir sua sobrevivência no estado.
Soltar alguns animais, no entanto, não muda automaticamente a classificação da espécie.
Para deixar a condição de extinta na natureza, é necessário comprovar que existe uma população livre, estável e capaz de se reproduzir durante um período suficiente sem depender integralmente de reposições vindas de criadouros.
O nascimento em Belo Horizonte integra outra parte do mesmo processo.
Antes de avaliar uma soltura, os programas precisam manter uma população segura sob cuidados humanos, preservar diversidade genética e produzir aves capazes de desenvolver comportamentos compatíveis com a vida fora dos recintos.
Ave foi confundida por séculos com espécie amazônica
O mutum-de-alagoas aparece em registros feitos no século XVII pelo naturalista alemão Georg Marcgrave, integrante da expedição científica ligada a Maurício de Nassau.
Uma xilogravura produzida naquele período preservou a aparência da ave, mas a semelhança com o mutum-cavalo, espécie amazônica, provocou uma confusão que durou séculos.
Durante muito tempo, estudiosos consideraram os dois animais como uma única espécie ou classificaram o mutum-de-alagoas como uma subespécie.
O debate começou a mudar em 1951, quando o ornitólogo Olivério Pinto analisou um exemplar vindo de Alagoas e identificou características próprias.
Pesquisas posteriores reforçaram a separação entre as espécies.
Décadas depois, o animal que quase desapareceu antes mesmo de ser completamente compreendido pela ciência passou a depender de recintos cuidadosamente preparados, controle genético e acompanhamento constante.
No início de 2026, um filhote conseguiu atravessar a própria casca no Zoo de BH e permaneceu junto aos pais, repetindo dentro de um ambiente protegido uma etapa que a espécie precisará realizar sem assistência para voltar a ocupar as florestas.

