Astrônomos anunciaram a descoberta de uma estrutura colossal no universo, chamada de Grande Anel, que desafia as teorias tradicionais da cosmologia e pode mudar nossa visão sobre a organização cósmica.
Nosso canto do universo parece organizado quando observado de perto. No entanto, ao ampliar a visão, padrões imensos surgem e se estendem por bilhões de anos-luz. Novos trabalhos de mapeamento mostram que a nossa galáxia pertence a uma bacia muito maior moldada pela gravidade. Além disso, outra descoberta revelou um vasto arranjo em forma de anel de galáxias distantes.
A pesquisa foi conduzida por Alexia Lopez, da Universidade de Central Lancashire. Em uma análise revisada por pares, baseada em dados de absorção de quasares, os cientistas identificaram uma estrutura quase circular de galáxias. Ela foi batizada de Grande Anel.
Essa formação tem um diâmetro aproximado de 1,3 bilhão de anos-luz e uma circunferência de quase 4,1 bilhões de anos-luz. O Grande Anel está localizado a cerca de 9,2 bilhões de anos-luz de distância. Sua posição no céu é próxima ao local onde já havia sido identificado o Arco Gigante.
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Os cálculos da equipe mostraram desvios estatísticos de até 5,2 sigma para testes específicos. Isso torna improvável que o alinhamento seja apenas fruto do acaso.
Outro detalhe surpreendente é que o Grande Anel não é um simples círculo. Quando visto de frente, se parece mais com uma espiral.
Desafios ao princípio cosmológico
A cosmologia se apoia no chamado princípio cosmológico, que afirma que, em escalas muito grandes, a matéria tende a se distribuir de forma uniforme. Muitos especialistas consideram que o limite para estruturas coerentes é de cerca de 260 megaparsecs, algo próximo a 1,2 bilhão de anos-luz.
O Grande Anel, porém, ultrapassa essa escala. Ele também está próximo de outra formação colossal, na mesma região do céu. Portanto, as descobertas levantam dúvidas sobre até onde vai a regularidade do universo em dimensões ainda maiores.
O papel da oscilação acústica bariônica
Um parâmetro importante para a cosmologia é a oscilação acústica bariônica, conhecida pela sigla BAO. Trata-se de uma espécie de “régua padrão”, com escala típica de 150 megaparsecs, ou cerca de 490 milhões de anos-luz.
O Grande Anel, no entanto, é muito maior que essa medida. Além disso, não apresenta o formato de concha esférica esperado de uma BAO. Isso significa que a hipótese de que seja resultado desse processo não se sustenta.
Via Láctea ligada a uma bacia maior
Pesquisas mais próximas revelaram algo igualmente intrigante. Reconstruções recentes do fluxo local de galáxias identificaram regiões onde a matéria flui em direção a mínimos gravitacionais, chamados de bacias de atração.
Segundo o novo estudo, baseado no catálogo Cosmicflows-4 e dentro do modelo cosmológico padrão, a Via Láctea não estaria em uma bacia independente de Laniakea. Em vez disso, faria parte da imensa bacia de Shapley.
Esse achado sugere que nossa galáxia está dentro de uma área de captação dinâmica muito maior do que se acreditava antes. A maior bacia registrada no levantamento está associada à Grande Muralha de Sloan, já conhecida como uma das estruturas mais extensas.
Alexia Lopez explicou: “Com base nas teorias cosmológicas atuais, não achávamos que estruturas nessa escala fossem possíveis. Poderíamos esperar talvez uma estrutura extremamente grande em todo o nosso universo observável. Nenhuma dessas duas estruturas ultragrandes é fácil de explicar com base em nossa compreensão atual do universo.”
Teorias alternativas e cautela
Alguns teóricos lembram da hipótese das cordas cósmicas, possíveis remanescentes do universo primitivo. Essas cordas não uniriam as galáxias pelo mesmo mecanismo da gravidade, mas poderiam gerar formas incomuns.
Outros especialistas destacam que erros estatísticos ou efeitos de seleção sempre precisam ser considerados. Uma estrutura que parece marcante em um conjunto de dados pode desaparecer em levantamentos mais amplos.
O método usado para identificar o Grande Anel foi engenhoso. A equipe não contou apenas com galáxias brilhantes. Em vez disso, usou espectros de quasares para encontrar absorvedores de magnésio (Mg II). Esses elementos indicam a presença de galáxias e grupos que não podem ser vistos diretamente em imagens a essas distâncias.
Os quasares, nesse caso, funcionam como faróis de fundo. A matéria tênue entre eles e a Terra deixa assinaturas de absorção, que ajudam a mapear a distribuição. Com esses dados, os cientistas montaram um mapa tridimensional e aplicaram testes de significância independentes.
Próximos passos da investigação
Para confirmar a existência do Grande Anel, será necessário coletar mais informações de outros levantamentos. Dados obtidos com diferentes instrumentos e critérios de seleção poderão mostrar se a estrutura se mantém em catálogos independentes.
Outra prioridade é buscar novas formações semelhantes em outras partes do céu. Se o padrão se repetir em mais regiões e em diferentes distâncias, aumentará a confiança de que não se trata de algo isolado.
Por outro lado, se não surgirem outros exemplos, pode ser que o Grande Anel seja uma exceção rara. De qualquer forma, o achado reforça a ideia de que o universo possui estruturas maiores e mais complexas do que se imaginava.
Impacto na cosmologia
As descobertas não significam uma crise para a ciência atual. No entanto, indicam que modelos precisam ser ajustados. Escala, forma e evolução do universo podem esconder mais segredos.
O fato de a Via Láctea estar ligada a uma bacia maior e de existir uma estrutura como o Grande Anel aponta para um mesmo caminho. Ambos sugerem que o cosmos pode ser mais organizado em grande escala do que as imagens simplificadas mostram.
Esse tipo de resultado funciona como um alerta para os cientistas. As suposições que pareciam sólidas precisam ser testadas com dados cada vez mais amplos. O universo pode se revelar menos homogêneo do que a teoria prevê.
Publicação científica
O estudo que descreve o Grande Anel foi publicado no Journal of Cosmology and Astroarticle Physics. A divulgação marca um passo importante para abrir novas linhas de investigação.
Pesquisadores agora têm diante de si a tarefa de checar os dados, repetir os levantamentos e explorar outras regiões. Cada novo detalhe pode redefinir os limites do que sabemos sobre a formação das galáxias e o papel da gravidade.
Portanto, a descoberta não apenas amplia a dimensão das estruturas conhecidas, mas também reacende o debate sobre como o universo realmente se organiza em escalas gigantescas.