Em Sichuan, cidade da Dinastia Han reúne telhas inscritas, documentos de bambu e estruturas que ajudam pesquisadores a investigar administração, produção e circulação de mercadorias.
Arqueólogos identificaram, no sítio de Chengba, no sudoeste da China, vestígios de uma cidade da Dinastia Han com cerca de 2.000 anos. Localizado no condado de Quxian, na porção oriental da província de Sichuan, o assentamento reúne muralhas, ruas e evidências de produção de ferro. Uma área junto ao rio Qujiang também pode ter funcionado como ponto de fiscalização de pessoas, embarcações e mercadorias.
Os achados foram apresentados pelo HeritageDaily em reportagem publicada em 20 de setembro de 2026. A pesquisa científica que descreve o conjunto, porém, foi publicada on-line pela revista Antiquity em 6 de novembro de 2024 e integra sua edição de abril de 2025. O trabalho reúne pesquisadores da Universidade de Sichuan e do Instituto Provincial de Relíquias Culturais e Arqueologia de Sichuan.
Muralha de 725 metros delimitava a área urbana

A área identificada como cidade da Dinastia Han ocupa aproximadamente 50 mil metros quadrados, cercados por uma muralha com cerca de 725 metros de perímetro. O sistema incluía portões e um fosso ao redor. No interior desse espaço, as escavações localizaram ruas e fundações de construções, permitindo reconhecer parte da organização do assentamento.
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Os objetos recuperados indicam que a construção inicial das muralhas ocorreu no começo do período Han Ocidental, entre 202 e 141 a.C. Os pesquisadores também identificaram sucessivos reparos. A estrutura passou, portanto, por intervenções ao longo da ocupação, e seus vestígios precisam ser analisados considerando essas diferentes etapas de construção e uso.
Telhas com inscrições apontam para a antiga Dangqu
Uma das pistas sobre a identidade do lugar está nas telhas encontradas em Chengba. Muitas trazem caracteres que correspondem ao nome “Dangqu”. Registros históricos mencionam a criação do condado de Dangqu durante a Dinastia Han, vinculado à Comenda de Ba, uma divisão administrativa da época. As descrições de sua localização também são compatíveis com o sítio.
Ao reunir inscrições, documentos históricos e informações geográficas, os pesquisadores consideram muito provável que Chengba corresponda à antiga cidade de Dangqu. A identificação resulta da combinação dessas evidências. Os objetos inscritos fornecem uma referência material para comparar o assentamento escavado com os lugares citados nos registros, mas a conclusão permanece apresentada como uma interpretação dos pesquisadores.
Possível portal de água ficava junto ao Qujiang
Na parte noroeste do sítio, os arqueólogos reconheceram uma área de cais na margem do rio Qujiang. Sua posição e o conteúdo de documentos de bambu recuperados no local levaram à hipótese de uma passagem de controle terrestre e fluvial. Ali, autoridades poderiam inspecionar viajantes e barcos, além de acompanhar recursos e mercadorias em circulação.
Se essa função for confirmada, a estrutura seria o único portal de água do período Han identificado na China, segundo o estudo. A expressão descreve um possível acesso fiscalizado associado ao rio. O cais é um vestígio identificado; sua utilização como ponto de controle e a singularidade atribuída a ele dependem da interpretação arqueológica.
Mais de 20 mil fragmentos registram a produção de ferro
As escavações recuperaram mais de 20 mil fragmentos relacionados à metalurgia. O conjunto inclui escória, material de revestimento dos fornos e ventaneiras, peças pelas quais o ar era introduzido no interior dessas estruturas. São resíduos e componentes ligados à produção, e não uma coleção de 20 mil objetos de ferro acabados.
A datação por radiocarbono, considerada junto à quantidade de escória encontrada, indica atividade de fundição entre o final do período Han Ocidental e meados do Han Oriental. Esses materiais permitem investigar a produção de ferro no leste de Sichuan e sua circulação regional, acrescentando informações sobre o trabalho realizado no assentamento além das funções administrativas sugeridas pelos textos.
Documentos de bambu tratam de justiça, finanças e ensino
Os textos preservados em tiras de bambu abordam assuntos judiciais, finanças e educação. Entre os conteúdos educacionais estão caligrafia, literatura e aritmética. Esse material oferece registros escritos que podem ser estudados em conjunto com as construções e os objetos, ampliando as fontes disponíveis para compreender as atividades desenvolvidas na cidade da Dinastia Han.
Alguns documentos contêm informações de registro domiciliar. Segundo a pesquisa, textos dessa natureza em bambu, relativos ao período Han, são raramente encontrados na China. O material de Chengba pode ajudar a examinar como a administração local registrava os domicílios, além de fornecer elementos sobre as instituições e a vida dos habitantes durante o período Han Ocidental.
Rio e passagem nas montanhas conectavam diferentes regiões

Chengba fica na margem leste do Qujiang, rio que segue para o Jialing e, depois, para o Yangtzé. Ao norte, o Passo Micang oferecia uma rota pelas montanhas Daba em direção às Planícies Centrais chinesas. Essa combinação de caminhos fluviais e terrestres ajuda os pesquisadores a interpretar a posição do assentamento nas conexões entre diferentes regiões.
O relevo montanhoso dificultava o transporte por terra, enquanto o acesso ao rio oferecia outra possibilidade de deslocamento. A localização do cais precisa ser considerada dentro dessa geografia. Ela aproxima os vestígios urbanos das rotas de circulação e sustenta a investigação sobre o papel que Chengba pode ter desempenhado no movimento de pessoas e produtos.
Objetos de bronze mostram ocupação anterior à fase Han
A história do sítio começou antes da cidade fortificada atribuída aos Han. Vasos rituais e armas de bronze datados do Período dos Reinos Combatentes indicam atividades no local quando a região fazia parte do antigo estado de Ba. Também foram recuperados outros objetos de bronze, entre eles um instrumento musical.
Esses achados levaram pesquisadores a relacionar a fase mais antiga do assentamento à chamada Cidade de Cong. A referência a uma cidade de aproximadamente 2.000 anos descreve, assim, uma parte de uma ocupação mais longa. As evidências analisadas abrangem vários séculos, desde o final dos Reinos Combatentes e ao longo das dinastias Qin e Han.
Próximas pesquisas vão detalhar os setores do assentamento
Ao redor da área urbana, os arqueólogos identificaram um cemitério, um setor de produção de cerâmica e o cais. A distribuição desses vestígios permite estudar onde diferentes atividades aconteciam. Chengba também amplia o registro urbano Han no leste de Sichuan, enquanto os sítios desse período conhecidos na província se concentram principalmente na Planície de Chengdu.
O estudo prevê novas investigações para localizar outras áreas funcionais e examinar a organização interna dos setores já reconhecidos. Outra frente será estabelecer uma cronologia mais detalhada do desenvolvimento do sítio, relacionando as etapas de ocupação às construções e aos materiais recuperados. Esse trabalho deverá aprofundar a análise de como os diferentes espaços da cidade se articulavam.
