Rompimento em instalação ligada à recuperação de ouro e prata abriu uma brecha de cerca de 23 metros; a pluma tóxica percorreu rios de vários países e ainda era detectável aproximadamente 2 mil quilômetros depois.
O desastre de Baia Mare, ocorrido em 30 de janeiro de 2000, liberou cerca de 100 mil metros cúbicos de água e rejeitos contaminados com cianeto no noroeste da Romênia. A poluição entrou em uma extensa rede fluvial, alcançou a Hungria e a então República Federal da Iugoslávia, chegou ao Danúbio e seguiu em direção ao Mar Negro.
O acidente ocorreu em uma instalação operada pela Aurul S.A., empresa que reprocessava rejeitos de antigas atividades de mineração da região para recuperar ouro e prata. O episódio transformou um rompimento localizado em uma emergência ambiental transfronteiriça, com mortandade de peixes e interrupções em sistemas de abastecimento ao longo dos rios atingidos.
Segundo a Comissão Europeia, aproximadamente 100 mil m³ de lama e águas residuais entraram no rio Lăpuș e, posteriormente, alcançaram o Someș, conhecido como Szamos na Hungria, o Tisza, o Danúbio e finalmente o Mar Negro.
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Desastre de Baia Mare começou com rompimento em reservatório de rejeitos
A instalação fazia parte do chamado Baia Mare Tailings Retreatment Project. A atividade aproveitava grandes volumes de rejeitos deixados por antigas operações de mineração, que ainda possuíam baixos teores de ouro e prata.
O projeto havia sido dimensionado para processar aproximadamente 2,5 milhões de toneladas de rejeitos por ano. Depois de diferentes etapas de processamento, os resíduos eram bombeados para um reservatório localizado cerca de sete quilômetros ao sul de Baia Mare, na área de Sasar.
Esse reservatório ocupava aproximadamente 96 hectares e era cercado por estruturas de terra. A água contendo cianeto era reaproveitada no próprio processo produtivo, em um sistema de ciclo fechado. Dessa forma, o reservatório permanecia com concentrações elevadas da substância durante a operação.
Na noite de 30 de janeiro, a estrutura sofreu uma ruptura. A UNECE registra que o rompimento ocorreu por volta das 22h e liberou mais de 100 mil metros cúbicos de material contaminado. A entidade comparou esse volume ao conteúdo de cerca de 40 piscinas olímpicas.
Condições meteorológicas e problemas técnicos contribuíram para o acidente
O rompimento aconteceu depois de condições meteorológicas extremas. O documento da Comissão Europeia registra presença de gelo e neve no reservatório e precipitação elevada, de aproximadamente 36 litros por metro quadrado.
Os rejeitos depositados no aterro interno ficaram encharcados, comprometendo sua estabilidade. O deslocamento localizado evoluiu para uma brecha de aproximadamente 23 metros. A água passou por essa abertura, ocupou a área entre os dois aterros e transbordou a estrutura externa.
A explicação, entretanto, não se limitou ao mau tempo. O relatório da missão UNEP/OCHA, publicado em março de 2000, apontou uma combinação de falhas de projeto, condições inadequadas de operação e condições meteorológicas adversas entre os fatores que contribuíram para o acidente.
A Comissão Europeia também destacou posteriormente problemas relacionados aos procedimentos de licenciamento e fiscalização, além da necessidade de melhorar projetos e sistemas de contenção capazes de suportar aumentos previsíveis no volume de água armazenada.
Pluma contaminada avançou por uma cadeia de rios
Depois de deixar a instalação, a água contaminada percorreu canais de drenagem até alcançar o rio Lăpuș. A partir dali, a poluição seguiu para o Someș, entrou no Tisza e posteriormente alcançou o Danúbio.
A extensão do acidente ficou evidente nos dias seguintes. Em 1º de fevereiro de 2000, medições realizadas em Satu Mare, no rio Someș, registraram concentração máxima de cianetos de 7,8 miligramas por litro. O documento europeu compara esse resultado com um valor-limite para águas superficiais de 0,01 mg/L.
Uma onda contaminada com extensão estimada entre 30 e 40 quilômetros avançou pelo Tisza. Durante a passagem da pluma, fitoplâncton e zooplâncton chegaram a níveis próximos de zero em trechos afetados, enquanto peixes morreram durante ou logo depois da passagem da contaminação.
O alcance não terminou no Tisza. Quatro semanas depois, a pluma de cianeto ainda podia ser medida no delta do Danúbio, a aproximadamente 2 mil quilômetros do ponto onde ocorreu o vazamento.
Autoridades húngaras estimaram mais de mil toneladas de peixes mortos
Os impactos sobre a vida aquática foram especialmente intensos no Tisza. A Comissão Europeia registrou que autoridades húngaras estimaram em mais de mil toneladas a quantidade total de peixes mortos.
Os registros apresentaram diferenças entre os países. Autoridades romenas relataram uma quantidade muito menor de peixes mortos em seu território, enquanto autoridades iugoslavas informaram grande mortalidade na parte do Tisza que atravessava o país. Não foram registradas grandes mortandades de peixes no próprio Danúbio.
A UNECE também descreve o acidente como responsável por mortandade substancial de peixes em trechos dos rios afetados, além de interrupções significativas no abastecimento de água.
Os documentos da época fizeram uma distinção importante entre os efeitos imediatos e possíveis consequências de longo prazo. Logo depois da passagem da pluma, microrganismos aquáticos começaram a se recuperar rapidamente em alguns trechos. Já os efeitos duradouros sobre a biodiversidade ainda exigiam acompanhamento e análises adicionais naquele momento.
Abastecimento de cidades exigiu medidas de emergência
O avanço da contaminação provocou preocupação com o fornecimento de água às comunidades localizadas ao longo dos rios.
Segundo a Comissão Europeia, a troca rápida de informações e as medidas preventivas adotadas por autoridades da Romênia, Hungria e então Iugoslávia ajudaram a reduzir os impactos. Entre elas estavam o uso de fontes alternativas de água e outras ações de emergência.
O documento informa que o abastecimento de Szolnok, então com aproximadamente 120 mil habitantes, e Szeged, com cerca de 206 mil, não foi colocado em risco devido à rápida atuação das autoridades locais.
Comunidades próximas à área do acidente também receberam fontes alternativas de água. A avaliação apresentada pela Comissão considerou baixo o risco imediato à saúde humana provocado exclusivamente pelo derramamento, embora apontasse preocupação com a poluição crônica por metais pesados que já existia na região devido ao histórico de mineração e processamento de metais.
Acidente colocou segurança de rejeitos minerais no centro das atenções
O desastre teve repercussões que ultrapassaram a área diretamente atingida. A missão conjunta do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários foi realizada após solicitações dos governos da Romênia, Hungria e então República Federal da Iugoslávia.
Especialistas internacionais percorreram a área entre 23 de fevereiro e 6 de março de 2000, realizando análises, coleta de amostras e avaliações sobre a barragem, a qualidade da água, sedimentos, solos e sistemas de emergência.
A própria Comissão Europeia afirmou posteriormente que o episódio expôs a necessidade de rever medidas destinadas à prevenção de acidentes envolvendo atividades de mineração e rejeitos. O caso passou a ser usado como referência na discussão sobre segurança de instalações de rejeitos e prevenção de poluição transfronteiriça.
Dez anos depois, a UNECE voltou ao episódio ao defender esforços contínuos para evitar acidentes industriais. A organização destacou novamente o volume superior a 100 mil metros cúbicos liberado em Baia Mare e os danos provocados nos sistemas fluviais atingidos.
O acidente de 30 de janeiro de 2000 permanece, assim, marcado pela combinação de um volume enorme de rejeitos contaminados, uma brecha em uma estrutura ligada ao processamento mineral e uma cadeia de rios que permitiu que a poluição deixasse a Romênia e avançasse por cerca de 2 mil quilômetros, transformando um desastre industrial local em um episódio ambiental internacional.
