Pesquisas mostram como o aquecimento global e as práticas de manejo influenciam a eficiência da produção de leite no Brasil, reduzindo a pegada hídrica e promovendo sustentabilidade no campo
A produção de leite no Brasil enfrenta um dos maiores desafios de sua história: equilibrar a crescente demanda por alimentos com o uso sustentável da água em meio às mudanças climáticas, segundo uma matéria publicada.
Um estudo recente conduzido por pesquisadores brasileiros e alemães analisou 67 propriedades no Rio Grande do Sul e revelou dados inéditos sobre a eficiência hídrica da atividade leiteira.
Ao todo, foram feitas 192 combinações entre boas práticas e cenários climáticos para avaliar como o aquecimento global e o manejo influenciam a pegada hídrica.
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As descobertas mostram que pequenas mudanças no manejo podem reduzir centenas de litros de água por quilo de leite produzido, ao mesmo tempo em que melhoram o desempenho produtivo das vacas e garantem sustentabilidade às propriedades rurais.
Eficiência hídrica e manejo sustentável na pecuária leiteira
Entre as principais conclusões, os pesquisadores destacam que o aumento da produtividade das culturas agrícolas, como milho e soja, e o manejo adequado dos dejetos têm papel central na eficiência da produção de leite no Brasil.
Segundo o estudo, a média de pegada hídrica foi de 704 litros de água por quilo de leite corrigido para proteína e gordura, com variações entre 299 e 1.058 litros, dependendo do sistema de produção.
Nas fazendas a pasto, os valores oscilaram de 299 a 1.058 litros, enquanto nos sistemas confinados variaram entre 562 e 950 litros.
Os sistemas semi-confinados apresentaram valores intermediários, de 656 a 965 litros por quilo de leite. Essas diferenças estão ligadas, principalmente, à eficiência na conversão alimentar e à produtividade diária por vaca.
Em propriedades confinadas, onde há melhor controle da dieta e do ambiente, as vacas chegam a produzir 23 litros de leite por dia, enquanto em fazendas semi-confinadas a média cai para 15 litros.
Essa variação explica parte da diferença na pegada hídrica azul e verde entre os sistemas.
O estudo seguiu as diretrizes do Manual de Avaliação da Pegada Hídrica, considerando o uso direto e indireto da água, desde o consumo pelos animais até a irrigação e a lavagem das salas de ordenha.
Foram avaliadas as águas verde (da chuva e do solo), azul (de fontes superficiais e subterrâneas) e cinza (necessária para diluir poluentes).
Impactos do aquecimento global e da alimentação animal na pegada hídrica
Os resultados indicam que o aquecimento global tende a aumentar a pegada hídrica da produção de leite no Brasil.
Elevações de temperatura entre 1,5 °C e 2,5 °C reduzem o rendimento do milho, elevando o consumo de água verde, e fazem com que as vacas bebam mais água, ampliando a pegada azul.
Esse efeito combinado pode elevar a demanda hídrica total em até 2%.
Por outro lado, práticas de manejo adequadas podem compensar boa parte desses impactos. Aumentar em 25% a produtividade das lavouras de milho e soja, utilizadas na alimentação dos bovinos, reduz significativamente a pegada hídrica verde.
Do mesmo modo, diminuir o consumo de água na limpeza das salas de ordenha e tratar corretamente os efluentes ajuda a reduzir a pegada azul e a cinza.
O pesquisador Julio Palhares, da Embrapa Pecuária Sudeste, destacou que ações como o reaproveitamento da água de lavagem e o tratamento do esterco são determinantes para a sustentabilidade hídrica da pecuária.
Essas medidas não apenas economizam recursos, mas também reduzem a carga poluente lançada no solo e nas águas superficiais.
A pegada hídrica verde representou mais de 98% do total nos sistemas a pasto e semi-confinados e 99% nos confinados.
Essa predominância está ligada ao uso de ração e forrageiras, que demandam grande volume de água em seu cultivo.
O estudo mostrou ainda que, em cenários de aumento de produtividade agrícola, os valores médios de pegada verde ficaram em 519 litros por quilo de leite nos sistemas a pasto, 580 litros nos semi-confinados e entre 313 e 549 litros nos confinados.
Práticas sustentáveis e metas globais de redução da pegada hídrica
O relatório também associou a produção de leite no Brasil aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente os de número 2 (fome zero e agricultura sustentável), 12 (consumo e produção responsáveis) e 13 (ação contra a mudança global do clima).
Entre as estratégias de curto prazo, o aumento dos rendimentos agrícolas aparece como uma das medidas mais eficazes para reduzir o uso de água, já que a pegada verde domina o total da atividade.
As ações mitigadoras incluem a adoção de sistemas de irrigação eficientes, o uso racional da água nas ordenhas e a seleção genética de animais com melhor desempenho alimentar.
Em fazendas onde essas medidas foram implementadas, a redução da pegada hídrica chegou a 30%.
A pesquisa reforça que, independentemente do sistema de produção, seja a pasto, semi-confinado ou confinado, a sustentabilidade depende da gestão eficiente da água e da produtividade.
Quando bem administradas, até as propriedades com menor tecnologia podem atingir bons índices ambientais e econômicos.
O foco, segundo os pesquisadores, deve ser o equilíbrio entre produção e conservação, garantindo que cada litro de leite gerado utilize a menor quantidade possível de recursos hídricos.
As descobertas têm relevância direta para o futuro do agronegócio, especialmente em regiões vulneráveis às mudanças climáticas.
Medidas que aprimorem o desempenho hídrico não apenas reduzem custos de produção, mas também reforçam a imagem do setor como aliado da sustentabilidade e da segurança alimentar.
A produção de leite no Brasil, quando orientada por boas práticas e manejo consciente, pode se tornar referência global em eficiência hídrica e baixa emissão ambiental, contribuindo para o cumprimento da Agenda 2030 da ONU.

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