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Os impactos financeiros do desperdício de energia limpa no Brasil

Escrito por Paulo H. S. Nogueira
Publicado em 29/08/2025 às 08:24
Torres de transmissão de energia elétrica ao amanhecer com céu alaranjado e azul.
Estruturas de transmissão elétrica se destacam no horizonte durante o nascer do sol.
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Descubra como o desperdício de energia limpa eleva custos e afeta consumidores e investidores no Brasil.

O Brasil mantém historicamente uma matriz energética predominantemente renovável, marcada pela abundância de recursos hídricos, solares e eólicos.

No entanto, apesar dessa riqueza natural, o país enfrenta um problema grave e persistente: o desperdício de energia limpa. Por isso, esse fenômeno compromete o potencial de produção sustentável e gera um custo elevado para a economia, investidores e consumidores.

De fato, o conceito de desperdício de energia limpa, conhecido tecnicamente como “curtailment”, refere-se ao corte compulsório da geração de eletricidade proveniente de fontes renováveis, como a energia eólica e solar, mesmo quando há condições ideais para gerar energia.

Assim, o fenômeno ganhou atenção significativa no Brasil com o crescimento acelerado da geração distribuída e dos grandes parques eólicos e solares, especialmente no Nordeste, região que concentra a maior parte das instalações de geração limpa do país.

Historicamente, a expansão das fontes renováveis no Brasil contou com altos investimentos públicos e privados. Desde a década de 2000, programas de incentivo à energia eólica e solar surgiram para diversificar a matriz energética e reduzir a dependência de fontes fósseis. Como petróleo e gás natural.

Portanto, o país rapidamente se tornou um dos líderes globais em energia renovável. Com projetos de grande escala capazes de fornecer eletricidade suficiente para milhões de residências. Entretanto, a infraestrutura de transmissão não acompanhou o ritmo acelerado dessa expansão.

Além disso, a falta de integração entre diferentes regiões do país agrava o desperdício de energia limpa.

Assim, estados produtores de energia renovável muitas vezes enfrentam dificuldades para enviar eletricidade para áreas com maior demanda. Obrigando o sistema a limitar a geração das usinas mesmo quando há vento ou sol abundante.

Portanto, esse desafio logístico evidencia a necessidade de investimentos em redes de transmissão inteligentes e interligadas, capazes de otimizar o fluxo de energia em todo o território nacional.

Os desafios da infraestrutura e do mercado livre de energia

Consequentemente, o descompasso entre o crescimento da geração renovável e a capacidade das redes de transmissão gera diretamente o desperdício de energia limpa.

Muitas vezes, parques eólicos e solares produzem eletricidade, mas não conseguem entregá-la ao sistema elétrico devido à limitação das linhas de transmissão. Por isso, esse corte compulsório de energia provoca perdas financeiras significativas.

No Nordeste, por exemplo, estimam-se perdas superiores a R$ 2 bilhões, afetando investidores, operadores e, em última instância, o consumidor final.

Além disso, o crescimento desordenado do mercado livre de energia contribui para o problema.

De fato, nos últimos anos, empresas e consumidores buscaram se beneficiar da liberdade de escolher seus fornecedores de eletricidade, incentivando projetos sem coordenar adequadamente com o sistema elétrico nacional.

Assim, essa expansão não planejada adicionou mais de 40 GW ao sistema, sem contrapartidas equivalentes em redes e planejamento estratégico. Como resultado, energia limpa é descartada enquanto o país ainda depende de fontes térmicas muito mais caras para atender à demanda.

Outro fator importante envolve a atuação das autoridades regulatórias e gestores do setor elétrico.

Por exemplo, o Ministério de Minas e Energia (MME), a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) possuem todas as informações sobre novos projetos e a capacidade instalada. No entanto, historicamente, essas instituições não anteciparam os impactos do volume simultâneo de novas conexões, o que levou a cortes arbitrários da geração renovável.

Portanto, o país precisou acionar térmicas com custos entre R$ 1.700 e R$ 2.600 por megawatt-hora (MWh), enquanto a geração limpa custa cerca de R$ 170/MWh.

Consequentemente, esse desequilíbrio aumenta diretamente o preço da energia para o consumidor.

Consequências econômicas e sociais do desperdício

O desperdício de energia limpa provoca efeitos econômicos que vão além do custo imediato da eletricidade.

Por isso, o Brasil perde competitividade no mercado global, uma vez que os custos mais altos desestimulam novos investimentos. Além disso, empregos em setores de energia renovável podem sofrer impacto, e a arrecadação tributária do país diminui devido à menor eficiência da produção energética.

Portanto, o país corre o risco de retroceder na transição energética, comprometendo metas de redução de emissão de gases de efeito estufa e a consolidação de um modelo mais sustentável.

Historicamente, países que investiram em energia renovável integraram melhor sua infraestrutura de transmissão e sistemas de gestão.

Por exemplo, na Europa, o planejamento centralizado e os investimentos em redes inteligentes reduziram drasticamente o desperdício de energia eólica e solar. Entretanto, o Brasil, embora possua um potencial extraordinário de recursos naturais, ainda precisa avançar em planejamento, coordenação e inovação tecnológica para alcançar o mesmo nível de eficiência.

Além disso, a população também sente os impactos sociais do desperdício de energia limpa.

De fato, a necessidade de acionar fontes mais caras e poluentes provoca aumentos frequentes na tarifa de energia, afetando famílias de baixa renda e pequenas empresas.

Além disso, a percepção de ineficiência no setor elétrico pode reduzir a confiança da sociedade e de investidores na capacidade do país de gerenciar seu setor energético de forma sustentável.

Caminhos para reduzir o desperdício

Portanto, resolver o problema do desperdício de energia limpa no Brasil exige ações estratégicas.

Primeiramente, o governo deve acelerar as obras de transmissão, garantindo que a energia gerada chegue ao consumidor sem desperdícios.

Em paralelo, é necessário revisar os critérios de corte compulsório de geração, adotando regras que priorizem a utilização de fontes limpas antes do acionamento de térmicas caras.

Além disso, outra medida fundamental envolve valorizar a flexibilidade do sistema elétrico, integrando novas tecnologias de armazenamento e distribuição que equilibrem oferta e demanda de forma eficiente.

Ademais, integrar o planejamento de grandes projetos e da geração distribuída também é crucial.

Embora a geração distribuída, como sistemas solares em residências e indústrias, tenha crescido rapidamente e recebido forte incentivo público, a falta de planejamento estratégico aumenta o desperdício de energia limpa.

Assim, uma coordenação mais efetiva entre os novos projetos e a infraestrutura existente reduz cortes arbitrários e aumenta a eficiência do sistema elétrico.

Além disso, investir em inovação tecnológica também é essencial.

Por exemplo, soluções de armazenamento, como baterias de grande escala, permitem usar a energia gerada em horários de pico quando necessário, diminuindo o desperdício e aumentando a confiabilidade do sistema.

Sistemas de previsão de vento e radiação solar, aliados a redes inteligentes, otimizam a geração e reduzem perdas financeiras.

Consequentemente, o consumidor brasileiro já sente os efeitos do desperdício de energia limpa.

A necessidade de acionar térmicas mais caras eleva a conta de luz, tornando a energia mais cara e menos previsível.

Por isso, esse cenário reforça a urgência de investimentos em transmissão, planejamento integrado e políticas públicas que incentivem não apenas a produção, mas também a utilização eficiente da energia renovável.

Um paradoxo a ser resolvido

Portanto, o desperdício de energia limpa representa um paradoxo do setor elétrico brasileiro.

O país possui uma das matrizes mais sustentáveis do mundo, mas ainda enfrenta perdas financeiras e ambientais significativas devido à falta de coordenação, infraestrutura insuficiente e regulamentação deficiente.

Assim, resolver esse problema não é apenas uma questão econômica, mas uma oportunidade de fortalecer a transição energética, reduzir custos e promover desenvolvimento sustentável.

Em resumo, o Brasil precisa alinhar crescimento da geração renovável, infraestrutura de transmissão e planejamento estratégico para reduzir o desperdício de energia limpa.

Só assim será possível aproveitar plenamente o potencial de fontes como eólica e solar, garantindo energia acessível, sustentável e confiável para toda a população, além de consolidar o país como referência mundial em eficiência energética e inovação sustentável.

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Paulo H. S. Nogueira

Sou Paulo Nogueira, formado em Eletrotécnica pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), com experiência prática no setor offshore, atuando em plataformas de petróleo, FPSOs e embarcações de apoio. Hoje, dedico-me exclusivamente à divulgação de notícias, análises e tendências do setor energético brasileiro, levando informações confiáveis e atualizadas sobre petróleo, gás, energias renováveis e transição energética.

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