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Os celulares terríveis que só existem na Coreia do Norte

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 16/07/2025 às 17:19
Coreia do Norte, celulares
Foto: Reprodução
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Embora muita gente imagine que a Coreia do Norte esteja desconectada do mundo, o país possui um mercado de celulares em funcionamento. Mas o que parece um simples smartphone, na verdade, é parte de um sistema de vigilância e controle rígido, diferente de qualquer outro no planeta.

A Coreia do Norte tem uma das redes móveis mais restritivas do mundo, e os celulares vendidos no país revelam uma realidade única, onde até um simples jogo pode esconder um sistema de vigilância massiva.

Um celular que voa — mas só na propaganda

O Arirang 151 é um dos modelos disponíveis no país. Ele vem em três cores, possui câmera, bateria e, curiosamente, pode ser conectado a um teclado de tamanho padrão.

Mas antes que alguém se empolgue, é bom saber que esse celular não está à venda fora da Coreia do Norte.

Na verdade, ele é apenas um exemplo do que se encontra no mercado local: aparelhos básicos, cheios de limitações, mas com funções de controle rígido impostas pelo governo.

A chegada tardia dos celulares

Os telefones móveis são uma novidade relativamente recente na Coreia do Norte.

A primeira rede funcional só surgiu em 2008. Antes disso, existiam apenas linhas fixas limitadas, e 90% delas estavam conectadas a órgãos do governo ou empresas estatais.

Houve uma tentativa entre 2002 e 2004 de instalar uma rede móvel usando equipamentos antigos da Hungria, mas a experiência durou apenas 18 meses.

Um atentado quase matou Kim Jong-il, e a rede foi encerrada. Não havia relação direta entre os eventos, mas a punição foi coletiva: todos ficaram sem acesso.

A rede roubada

Em 2008, a Coreia do Norte tentou novamente.

A empresa egípcia Orascom foi convencida a instalar a rede chamada Koryolink, que acabou sendo tomada pelo governo local.

A rede atende 15 cidades e algumas ferrovias, mas é extremamente limitada.

Só é possível fazer chamadas dentro do país, todos os números têm o mesmo prefixo e, claro, não há acesso à internet.

Em vez disso, os aparelhos acessam o Kwangmyong, uma rede local com cerca de 5 mil sites sancionados pelo Estado. É possível assistir a filmes de propaganda, ver notícias controladas e acessar serviços locais — tudo sob censura rígida.

Smartphones falsos e fábricas fantasmas

Em 2014, imagens mostraram Kim Jong-un visitando uma suposta fábrica de smartphones.

O modelo anunciado era o AS1201, apresentado como totalmente fabricado no país.

AS1201

Mas a realidade é outra. O aparelho é quase certamente uma versão rebatizada do Uniscope U1201, um celular barato chinês.

O mesmo acontece com outros modelos como o Arirang 171 e o Samtong 8. A Coreia do Norte provavelmente não fabrica celulares.

Ela apenas importa e modifica. O que realmente muda é o sistema operacional dos aparelhos.

Android modificado e cheio de jogos

Os celulares norte-coreanos usam uma versão personalizada do Android. O modelo Pyongyang 2407, por exemplo, foi analisado por pesquisadores alemães.

Eles descobriram um sistema cheio de limitações e controle.

Porém, os celulares vêm recheados de jogos. O Arirang 151, por exemplo, inclui cinco versões de Angry Birds, uma cópia de Candy Crush, um emulador de Super Mario Galaxy e até um aplicativo que emite ruídos para espantar insetos.

Mas há um motivo para tanto jogo: não é possível baixar novos apps. Sem acesso à internet e sem uma loja online, os usuários só podem adquirir novos aplicativos fisicamente.

A loja de aplicativos… física

Na Coreia do Norte, existe uma “loja de aplicativos” no sentido literal.

Geralmente, é um balcão dentro de outro comércio, como um supermercado ou loja de eletrônicos. Lá, os apps são instalados diretamente no telefone, a partir de um computador.

Todos os aplicativos precisam ser aprovados pelo governo. Se o app não for verificado, o sistema do celular simplesmente não permite que ele seja executado.

Assinatura obrigatória e sistema fechado

Todo arquivo — foto, música ou aplicativo — precisa ter uma assinatura criptografada. Há dois tipos:

  • A Nata Sign, emitida pelo governo, garante que o arquivo é “seguro”.
  • A Self Sign, gerada pelo próprio celular, serve para arquivos criados no aparelho, como fotos tiradas com a câmera.

Se o arquivo não tiver nenhuma dessas assinaturas, ele é automaticamente apagado ao ser aberto.

Vigilância constante

Para garantir que o sistema de verificação não seja removido, os celulares vêm com um programa chamado Red Flag, que roda em segundo plano o tempo inteiro. Ele verifica o sistema e registra uma captura de tela toda vez que um aplicativo é aberto.

Essas capturas vão para uma pasta que só o governo pode acessar. O usuário não pode deletar, editar ou visualizar essas imagens. Mas pode ver que elas existem por meio de um aplicativo pré-instalado chamado Trace Viewer, que serve apenas para lembrar o usuário de que está sendo monitorado.

Liberdade? Só na aparência

O resultado é um sistema fechado, controlado e cheio de limitações. Os celulares norte-coreanos não são apenas aparelhos de comunicação: são ferramentas de controle. Mesmo com jogos e visual moderno, eles são feitos para vigiar e limitar.

Na Coreia do Norte, até um jogo de Angry Birds pode fazer parte da vigilância do Estado.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor. Para sugestões de pauta ou qualquer dúvida, entre em contato pelo e-mail flclucas@hotmail.com.

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