Mesmo com a missão encerrada há décadas, alguns satélites continuam ativos e surpreendem cientistas ao enviarem sinais do espaço. Conheça os casos impressionantes do LES1 e da lendária Voyager 1.
Em um universo onde a maioria dos satélites tem vida útil de poucos anos, alguns equipamentos desafiam o tempo e continuam funcionando mesmo depois de abandonados por suas agências criadoras. São estruturas silenciosas, muitas vezes esquecidas, que ainda orbitam o planeta ou cruzam o espaço profundo, emitindo sinais que ninguém esperava mais ouvir.
Dois exemplos chamam atenção: o LES1, um satélite militar dos anos 60, e a lendária Voyager 1, lançada em 1977. Ambos continuam transmitindo, mesmo com suas missões encerradas há décadas, provando que a tecnologia do passado, em alguns casos, pode ser surpreendentemente resiliente.
O satélite militar que acordou depois de 46 anos
O LES1 (Lincoln Experimental Satellite 1) foi lançado em 1965 pelos Estados Unidos como parte de um projeto de comunicações militares. Mas algo deu errado: o estágio de lançamento não separou corretamente, e o satélite entrou em uma órbita imprevisível.
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Sem função operacional, ele foi considerado perdido e sua missão declarada encerrada. Ninguém esperava mais nada — até que, em 2013, quase meio século depois, um rádio amador britânico captou um sinal contínuo vindo de um ponto específico no céu. Era o LES1.
O que aconteceu? Aparentemente, o satélite permaneceu funcional, mas sua antena só foi posicionada de forma favorável à Terra quando o eixo de rotação natural finalmente se estabilizou. Desde então, emite sinais intermitentes, como um eco tecnológico de uma era que parecia enterrada.
“Satélite zumbi”
O LES1 virou um símbolo do que muitos chamam de “satélite zumbi” — equipamentos que tecnicamente estão mortos, mas ainda têm circuitos ativos e conseguem transmitir sinais.
Esses satélites desafiam o tempo não porque foram feitos para durar tanto, mas por causa de uma combinação improvável de:
- Componentes robustos para os padrões da época
- Falta de software sofisticado, o que diminui o risco de falhas lógicas
- Exposição estável ao Sol, garantindo que painéis solares ainda alimentem os sistemas básicos
É o caso do LES1, que hoje não serve mais para comunicação militar, mas se transformou em um objeto de estudo valioso para engenheiros e cientistas que monitoram o comportamento de tecnologias em longos períodos de exposição espacial.
Voyager 1: mais de 45 anos cruzando o vazio e ainda enviando dados
Se o LES1 é impressionante por ter retornado à vida, a Voyager 1 é ainda mais extraordinária. Lançada em 1977 com destino ao sistema solar externo, a missão da sonda já era ambiciosa: visitar Júpiter e Saturno. Mas ela foi além — e segue viva até hoje, a mais de 24 bilhões de quilômetros da Terra.
Mesmo em um ambiente extremamente hostil, com temperaturas próximas ao zero absoluto e exposta à radiação cósmica, a Voyager 1 ainda transmite sinais para a NASA. E não apenas sinais — mas dados científicos.
A energia vem de geradores de radioisótopos (RTGs), que transformam o calor do decaimento de plutônio em eletricidade. Esse sistema, com pequenas perdas ao longo das décadas, ainda fornece energia suficiente para manter alguns instrumentos funcionando e uma antena ativa.
Em 2024, mesmo após breves períodos de falha de comunicação, a equipe conseguiu restaurar parcialmente o controle e a recepção de dados. É como conversar com um fantasma eletrônico viajando pelo infinito.
O que esses satélites ainda podem nos ensinar?
Muito mais do que curiosidade, o funcionamento contínuo do LES1 e da Voyager 1 é de enorme importância científica e técnica:
- Permite estudar a degradação de componentes eletrônicos no espaço
- Ajuda a testar a longevidade de materiais e sistemas em condições extremas
- Dá pistas sobre como construir sondas e satélites mais duráveis para missões futuras
- Inspira projetos de manutenção de satélites abandonados, algo cada vez mais relevante diante da saturação da órbita terrestre
Além disso, o caso do LES1 levantou questões importantes sobre o monitoramento do lixo espacial. Se ele voltou a transmitir após 46 anos, quantos outros satélites “mortos” ainda estão lá em silêncio, prontos para reaparecer?
Comunicação além do tempo
Em uma era marcada pela obsolescência programada, ver um equipamento de 1965 ou 1977 ainda funcionando desafia a lógica contemporânea. Isso reforça um ponto fundamental: a engenharia clássica, mesmo com suas limitações, pode superar expectativas e deixar legados duradouros.
Tanto o LES1 quanto a Voyager 1 fazem parte de uma linhagem tecnológica que valorizava resiliência e robustez, com poucos sistemas automatizados e mínima dependência de software. Isso se tornou, paradoxalmente, uma vantagem para resistir ao tempo.
Satélites ‘zumbis’ e sobreviventes
Com a explosão dos lançamentos de satélites privados e comerciais nos últimos anos, estima-se que mais de 3.000 satélites inativos estejam atualmente em órbita da Terra. A maioria será apenas lixo — mas alguns, como o LES1, podem surpreender no futuro.
Há também um interesse crescente em reativar ou reaproveitar satélites “abandonados”, seja para pesquisa, seja para integrar novas missões de baixo custo. A reprogramação remota e a utilização de robôs espaciais para manutenções já são discutidas em agências como NASA, ESA e JAXA.
O LES1 e a Voyager 1 não são apenas máquinas em órbita — são mensageiros silenciosos do passado, lembrando-nos de que a engenharia humana pode criar legados que atravessam gerações.
Esses satélites continuam circulando, emitindo sinais, superando falhas e sobrevivendo ao vazio espacial — mesmo quando todos já haviam desistido deles. Em tempos de inovação acelerada, eles nos convidam a olhar para trás e reconhecer que, às vezes, o que parece obsoleto pode ser, na verdade, eterno.


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