Rubens Ometto atravessa um dos períodos mais turbulentos de sua trajetória empresarial, com prejuízos bilionários, endividamento crescente e desinvestimentos que colocam em xeque a sustentabilidade do conglomerado que construiu ao longo de décadas.
Neste ano, sobretudo neste mês de agosto, o conglomerado de Rubens Ometto, 75, atravessa a fase mais dura desde a criação da Raízen.
A companhia registrou prejuízo de R$ 1,8 bilhão no 1º trimestre da safra 2025/26, viu a dívida líquida saltar para R$ 49,2 bilhões e a alavancagem chegar a 4,5 vezes o Ebitda ajustado.
No dia 14 de agosto, as ações RAIZ4 tocaram R$ 1,02 na mínima intradiária, em meio à leitura de que será preciso acelerar desinvestimentos e ajuste de capital.
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Raízen enfrenta dívida e vende usinas
O balanço mais recente acendeu o alerta de caixa. Além do encarecimento financeiro, analistas apontaram a necessidade de ajustar capex, reduzir o trading e vender ativos não essenciais para destravar o fluxo de caixa.
Em resposta, a Raízen anunciou, em 29 de agosto de 2025, a venda das usinas Passa Tempo e Rio Brilhante, no Mato Grosso do Sul, para a Cocal, por R$ 1,325 bilhão em dinheiro no fechamento, valor que pode alcançar R$ 1,54 bilhão ao incluir investimentos de entressafra assumidos pelo comprador.
A transação reduz capacidade e ajuda na desalavancagem de curto prazo.
Enquanto isso, rumores de uma eventual entrada da Petrobras no capital ou em ativos da Raízen chegaram a impulsionar os papéis, mas a estatal negou que existam estudos ou projetos nesse sentido, esfriando a hipótese de um reforço societário imediato.
Cosan perde fôlego apesar da venda da Vale
A holding Cosan também sente os efeitos.
No 2º trimestre de 2025, a companhia reportou prejuízo de R$ 946 milhões e terminou junho com dívida líquida de R$ 17,54 bilhões, alta de 18,7% em doze meses.
Os números mostram que, apesar do alívio obtido em janeiro com a venda de 4,05% da Vale por cerca de R$ 9 bilhões para reduzir endividamento, o balanço segue pressionado pelos resultados de suas controladas.
A alienação da participação na mineradora, concluída em 16 de janeiro de 2025, foi explicada por Ometto como um movimento forçado pelo nível de juros no país.
A operação levantou recursos relevantes, mas não encerrou a necessidade de um programa de desinvestimentos que pode somar até R$ 15 bilhões até o fim de 2025, com foco principalmente na Raízen.
O tamanho do império agrícola
No campo, o número que dá a medida do império segue impressionante: 1,3 milhão de hectares de área agrícola cultivada sob gestão da Raízen.
Embora popularmente associado à “posse” de terras, o dado oficial se refere à área cultivada pela empresa e parceiros — não integralmente à propriedade direta.
Etanol de segunda geração gera perdas
A aposta bilionária no etanol de segunda geração (E2G), que usa palha e bagaço da cana, continua estratégica, mas a rentabilidade ficou aquém do plano.
Em fevereiro de 2025, Rubens Ometto admitiu que a empresa está “apanhando e pagando por isso”, após investir aproximadamente R$ 9 bilhões no portfólio.
O discurso confirma a revisão de ritmo e a busca de parceiros para viabilizar a expansão com menor consumo de capital próprio. Ainda assim, o projeto não parou.
Em janeiro de 2025, o BNDES aprovou R$ 1 bilhão para uma nova planta de E2G em Andradina (SP), reforçando a leitura de que a tecnologia segue relevante na transição energética — desde que financiada com estrutura de capital mais equilibrada.
Desinvestimentos e ajustes em curso
Para recompor o balanço, além das usinas no Mato Grosso do Sul, a Raízen avalia alienar ativos não estratégicos e já havia colocado em revisão seu portfólio de varejo de proximidade (Oxxo), operado em joint venture com a Femsa pelo Grupo Nós.
A empresa buscou capital de giro adicional para a rede enquanto estudava a venda de participação. Essas medidas integram a lista de opções para reduzir a alavancagem consolidada.
Ferrovia Rumo avança com lucro
Nem todos os negócios andam no mesmo compasso. A Rumo, operadora ferroviária do grupo, reverteu prejuízo e lucrou R$ 333 milhões no 2º trimestre de 2025, com Ebitda ajustado de R$ 2,28 bilhões e alavancagem em 1,8 vez.
O desempenho ajuda a diluir parte da percepção de risco do conglomerado, mas não compensa, por si, o peso da dívida e dos investimentos nas frentes de energia.
De Piracicaba ao topo do agronegócio
Filho de Piracicaba e engenheiro de produção pela USP, Rubens Ometto construiu, desde os anos 2000, um conglomerado que verticalizou açúcar, etanol, combustíveis e logística.
A compra da Esso no Brasil em 2008 e a criação da Raízen com a Shell em 2011 moldaram a plataforma integrada de energia que hoje domina a paisagem do grupo — e que, neste ciclo, também concentrou os problemas.
O futuro em jogo
No curto prazo, a equação depende de três movimentos: desalavancagem via vendas de ativos, disciplina de investimentos e eventual reforço de capital se o cenário exigir.
O próprio mercado vê com bons olhos medidas de capitalização se acompanhadas de cortes de despesas financeiras e foco em ativos rentáveis.
Qualquer notícia sobre novos sócios ou operações de M&A no core business tende a ser o gatilho mais relevante para os preços, desde que confirmada e bem estruturada.
Por outro lado, juros altos continuam a pressionar o custo da dívida e a atratividade de projetos de longo prazo — um ponto que o empresário repete com frequência.
A curva de redução da alavancagem definirá o ritmo de retomada, bem como a capacidade de a Raízen transformar um parque de ativos intensivo em capital em geração consistente de caixa.
Enquanto o grupo acelera desinvestimentos e apertos de gestão, a pergunta-chave permanece: o pacote de ajustes será suficiente para preservar o império de 1,3 milhão de hectares sob gestão e devolver tração às controladas?
E, para você, as decisões de Rubens Ometto abrem um novo ciclo de eficiência ou elevam o risco para o futuro da Cosan?