Mistura do biodiesel com óleo diesel pode danificar motores e aumentar o preço dos combustíveis, dizem entidades que representam mais de 200 mil empresas do setor

Flavia Marinho
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15-05-2021 10:56:04
em Petróleo, Óleo e Gás
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O aumento da mistura do biodiesel no diesel aumetará os custos para o transporte de cargas e de passageiros e consequente aumento de preços de produtos para os brasileiros

O aumento na mistura do biodiesel no diesel tem preocupado entidades que representam mais de 200 mil empresas produtoras, distribuidoras, importadoras, revendedoras e transportadoras, além de indústrias relacionadas ao consumo de diesel. De acordo com eles, há sérios problemas no padrão de qualidade do combustível comercializado hoje, que poderiam gerar aumento no preço dos combustíveis, além de acarretar no mal funcionamento dos motores a diesel.

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O aumento do percentual de mistura do biodiesel no diesel aumetará os custos para o transporte de cargas e de passageiros e consequente aumento de preços de produtos para os brasileiros. Também lançará o país em um cenário de estagnação tecnológica, impactará no desenvolvimento da indústria automotiva e de equipamentos e comprometerá a prestação de serviços.

As entidades destacam que, a partir do ano que vem, entrarão em vigor no Brasil novos limites de emissões de poluentes com a adoção de tecnologias veiculares mais modernas, para as quais não há experiência com teores elevados de biodiesel e que exigem a redução do teor e alterações profundas na especificação do biodiesel.

O grupo relata que os aumentos recentes do biodiesel no diesel tem gerado problemas de cristalização, higroscopia, baixa filtrabilidade e formação de borras do biodiesel, e, consequentemente, provoca danos a máquinas e motores; diminuição da vida útil; e baixa performance de equipamentos, além de aumento dos custos de manutenção e prejuízos aos mais diversos setores da economia e os brasileiros.

Como é produzido o Biodiesel?

Produção de Biodiesel/ Fonte: Embrapa

Além disso, teores elevados de biodiesel no diesel promovem aumento das emissões de óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos e monóxido de carbono, com impactos negativos que afetam a saúde humana e o meio ambiente, além de elevar o consumo de combustível, gerando ainda mais emissões e custos adicionais, que são transferidos a toda população.

Isso sem contar os impactos ambientais de descarte mais frequente de produtos perigosos contaminantes como borra, filtros, peças mecânicas, entre outros.

Demanda por etanol e gasolina despenca, enquanto consumo por diesel dispara no Brasil

A crise causada pelo coronavírus, que gerou restrições de mobilidade, além da disparada dos preços dos combustíveis, fez com que a demanda pelo etanol e pela gasolina despencasse no Brasil no mês de março. Já o diesel, apesar de vir sofrendo altas mesmo com os impostos PIS e Cofins, congelados pelo Governo, teve um comportamento completamente contrário, por conta da demanda sustentada por setores como a agricultura e o transporte.

A demanda por diesel apresentou um comportamento oposto ao da gasolina e do etanol, atingindo 1,13 milhão de barris por dia apenas no mês de março, o que representa um aumento significativo de 125 mil barris por dia em relação ao mês anterior. As informações acima provém do Relatório de Petróleo da América Latina da S&P Global Platts Analytic.

Redução de biodiesel no combustível pode resultar em tiro pela culatra e desencadear falência de indústrias e desemprego

A medida do Governo em reduzir o biodiesel no combustível pode impactar indústrias que expandiram suas capacidades de atuação contando com a alta demanda, e por conseguinte, gerar desemprego, uma vez que a cadeia produtiva de biodiesel emprega mais de 1,5 milhão de pessoas.

Cerca de 80% do biodiesel consumido no país é produzido a partir de óleo de soja puro e recuperado, cuja produção estimula a produção de farelo de soja, principal insumo da cadeia de rações – que, por sua vez, alimenta aves, peixes e suínos. O consequente impacto na inflação vai atingir a sociedade como um todo, inclusive os setores que hoje pretendem se beneficiar com a redução do combustível na bomba. Ou seja, a intervenção pode resultar em um tiro pela culatra.

Um parecer econômico realizado pela GO Associados, de Gesner Oliveira, ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Sabesp, aponta que a redução pode levar à falência das empresas que realizaram investimentos e aumentaram a sua capacidade produtiva confiando no cronograma do Conselho Nacional de Política Enérgica (CNPE), definido por resolução de outubro de 2018, que foi repentinamente modificado na quarta-feira, 14, no leilão do produto que será colocado no mercado em maio e julho. “É uma medida que vai na contramão de vários aspectos da política pública. A cúpula do clima é bem ilustrativa. Neste momento em que há todo um esforço mundial e que deveria ser nacional, de reduzir emissões, não faz nenhum sentido interromper um cronograma que já havia sido estabelecido”, diz Oliveira a VEJA.

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Flavia Marinho
Engenheira de Produção pós graduada em Engenharia Elétrica e Automação. Experiente na indústria de construção naval onshore e offshore. Entre em contato para sugestão de pauta, divulgação de vagas de emprego ou proposta de publicidade em nosso portal.