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Motorista que pensa em pôr kit gás no carro virou raridade: a maior fabricante de cilindros da América Latina vendeu 1.819 unidades para leves até julho, contra 42.132 em 2021, e a procura migrou para caminhões e ônibus

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 22/10/2026 às 04:20 Atualizado em 22/10/2026 às 04:21
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O kit gás, que já compensou para o motorista de passeio quando o gás custava bem menos que os combustíveis líquidos, quase sumiu dos carros: a MAT, fabricante de cilindros de GNV, vendeu 1.819 unidades para veículos leves até julho de 2026, enquanto as vendas para caminhões e ônibus cresceram 273% em um ano

Os números são da própria MAT e foram divulgados em outubro. Em reportagem do Frota&Cia, a empresa é apresentada como a maior fabricante de cilindros da América Latina.

O retrato mostra um combustível que mudou de dono. O gás natural veicular deixa de ser coisa do motorista comum e passa a ser insumo de frota pesada, de acordo com a leitura da própria fabricante.

De 42.132 cilindros em 2021 para 1.819 até julho de 2026

A queda nos carros leves é contínua. A MAT vendeu 42.132 cilindros para esse segmento em 2021 e 23.398 em 2022, segundo os dados publicados pelo Frota&Cia.

Em 2023, o número despencou para 5.907. Depois vieram 3.745 unidades em 2024 e 3.045 em 2025. Até julho de 2026, a soma estava em 1.819 cilindros.

Na média anual, a comparação é ainda mais dura. Entre 2020 e 2022, a empresa vendia 30.128 cilindros por ano para leves. Entre 2023 e 2025, foram apenas 4.232 por ano.

A retração equivale a 85,95%, conforme o cálculo divulgado pela fabricante. A Transporte Moderno, que também publicou os dados, arredonda a queda para cerca de 86%.

Chassi de caminhão com cilindros amarelos de gás natural instalados na lateral
Cilindros de GNV montados no chassi de um caminhão. Foto: reprodução/Frota&Cia

Diferença menor entre os combustíveis tirou a vantagem do kit

O diretor comercial da MAT, Jorge Mathuiy, explicou ao Frota&Cia que o esfriamento começou ainda em 2022. Foi quando a diferença de preço entre o gás e os combustíveis líquidos encolheu.

Com isso, a economia no posto deixou de compensar o gasto com a instalação do kit. Para o motorista de passeio, a conta simplesmente parou de fechar, segundo a avaliação do executivo.

Mathuiy também apontou o avanço dos carros híbridos e elétricos como outro fator que enfraqueceu o interesse do consumidor comum pelo gás.

Nem o desconto no IPVA do Rio segurou o motorista de passeio

Até em praças tradicionais do GNV, como o Rio de Janeiro, o incentivo fiscal perdeu peso. O desconto no IPVA para quem roda com gás deixou de ser decisivo diante das novas opções tecnológicas, segundo o diretor.

É um sinal forte. Quando nem imposto mais barato convence, o problema deixa de ser o preço do kit e passa a ser a própria escolha do combustível.

Caminhões e ônibus puxam alta de 273% em um ano

No transporte pesado, o movimento é o oposto. A MAT vendeu 492 cilindros para caminhões e ônibus em 2024 e saltou para 1.835 em 2025, um avanço de 273%.

Para 2026, a fabricante projeta passar de 2.100 unidades no segmento pesado. Pela conta da Transporte Moderno, isso representa alta de cerca de 14,4% sobre o ano anterior.

Olhando assim, é difícil não ver a inversão. Em 2021, a fabricante vendia dezenas de milhares de cilindros para carros; em 2025, o segmento pesado já respondia por 1.835 unidades e seguia subindo.

Caminhão de coleta de lixo movido a GNV da Comlurb diante do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Caminhão de coleta movido a GNV no Rio de Janeiro. Imagem ilustrativa. Foto: William Werneck/Prefeitura do Rio

Um cilindro vendido não é um caminhão a mais na estrada

Os números exigem cuidado. Conforme a Transporte Moderno, os dados são só das vendas da MAT e não representam o mercado brasileiro inteiro, nem a quantidade de veículos vendidos ou convertidos.

Um único caminhão pode usar vários cilindros. O Scania X-gas, apresentado em 2023 na configuração G 410 8×2, recebeu 16 cilindros, com 406 metros cúbicos de gás e autonomia anunciada de cerca de 900 km.

Na mesma apresentação, a fabricante sueca informou que as versões com oito cilindros rodavam entre 400 e 500 km. Por isso, o volume de reservatórios não pode ser convertido direto em número de caminhões.

Esse detalhe muda a leitura do crescimento. Os 1.835 cilindros de 2025 podem estar distribuídos em bem menos veículos do que o número sugere à primeira vista.

“O mercado de GNV não está simplesmente desaparecendo”

Para o presidente da MAT, Luis Fernando Assaf, o setor muda de perfil. “O mercado de GNV não está simplesmente desaparecendo. Ele está mudando de perfil”, afirmou à Transporte Moderno.

Na avaliação dele, o uso intenso de caminhões e ônibus aumenta o peso da economia por quilômetro rodado na decisão de investir, além de reduzir a exposição das empresas às oscilações do diesel.

Assaf também citou a pressão para cortar emissões. Segundo ele, esse movimento amplia o interesse por combustíveis de menor intensidade de carbono nas frotas.

Biometano entra na conta das transportadoras

A origem do gás também pesa. Segundo a ANP, citada pela Transporte Moderno, o biometano sai da purificação do biogás e pode substituir o gás natural, desde que cumpra as especificações de qualidade.

Ele pode ser produzido a partir de resíduos orgânicos, inclusive de atividades agropecuárias, aterros e tratamento de esgoto. Há caminhões feitos de fábrica para rodar com gás natural, biometano ou a mistura dos dois.

Caminhão movido a gás abastecendo em posto com bomba de GNV
Caminhão movido a gás no abastecimento. Imagem ilustrativa. Foto: reprodução/Brasil Postos

A conta depende de cada operação e do posto na rota

A vantagem não é automática. Em estudo sobre motorizações alternativas, a EPE aponta que, dependendo da diferença de custo operacional, o gás mais barato pode compensar o investimento extra no veículo e na infraestrutura.

O abastecimento é a outra ponta. A EPE estuda o transporte de gás comprimido por caminhões como alternativa aos gasodutos, para levar gás natural e biometano das unidades produtoras até os pontos de consumo.

Para o dono de carro, a mensagem dos números é clara. Quem pensa em converter o carro de passeio hoje está nadando contra uma corrente que a chegada de caminhões a biometano às concessionárias só reforça.

Você ainda colocaria kit gás no seu carro ou acha que o GNV virou de vez combustível de caminhão e ônibus?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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