O dólar enfrenta a maior queda em meio século, ao mesmo tempo em que cresce a busca por ouro, aumenta a influência do Brics e se intensificam tensões políticas nos Estados Unidos. A moeda segue dominante, mas sua posição gera novas incertezas.
O dólar atravessa, em 2025, a maior desvalorização em mais de meio século, acumulando queda de 11% no primeiro semestre no índice criado pelo Federal Reserve (Fed) para medir sua força frente a moedas como o euro, o iene japonês e a libra esterlina.
De acordo com a BBC News Brasil, o desempenho negativo reacendeu questionamentos sobre a sustentabilidade da hegemonia da moeda norte-americana, especialmente diante de mudanças nas reservas internacionais, pressões geopolíticas e da política econômica adotada pelo governo Donald Trump.
Queda nas reservas cambiais
Relatório do banco J.P. Morgan divulgado em julho mostra que a participação do dólar nas reservas cambiais de bancos centrais caiu de mais de 70% no início dos anos 2000 para cerca de 57% em março de 2025, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).
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Embora ainda seja predominante, essa perda de espaço coincide com o crescimento do renminbi, cuja fatia dobrou em dez anos, mas permanece em torno de 2%.
A principal mudança, porém, está no avanço do ouro como reserva de valor. Entre mercados emergentes, o metal passou a representar 9% das reservas, percentual mais que duas vezes superior ao registrado em 2015.
Para analistas, o movimento reforça a busca por ativos considerados menos sujeitos a riscos políticos e cambiais.
Comércio e títulos do Tesouro americano
O comércio internacional também revela sinais de diversificação monetária.
As sanções impostas contra a Rússia impulsionaram transações de petróleo em moedas locais, permitindo que países como Índia, China e Brasil comprassem derivados com pagamentos fora da órbita do dólar.
Isso indica um espaço crescente para outras moedas em setores estratégicos como energia. Outro ponto de atenção está no mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Considerados tradicionalmente ativos de refúgio, eles vêm perdendo participação estrangeira há 15 anos. Antes da crise de 2008, mais de 50% desses papéis estavam em mãos externas; hoje, o índice está próximo de 30%.
Segundo o J.P. Morgan, essa redução revela uma reavaliação global sobre a segurança de manter grandes volumes em dólar.
Desvalorização e turbulência nas bolsas
A moeda americana acumula perdas sucessivas desde 2024, quando já havia registrado sua pior queda desde 1973.
Após breve recuperação em julho de 2025, voltou a cair em agosto, e o Morgan Stanley projeta retração adicional de até 10% até 2026.
O cenário se agravou em abril, quando as bolsas dos EUA enfrentaram a pior semana desde a pandemia, com o índice S&P 500 recuando 10%.
O impacto se espalhou globalmente, levando a queda de mais de 12% do dólar frente ao real no Brasil.
O estopim foi o anúncio de Trump sobre a criação de uma tarifa universal de 10% para importações, além de sobretaxas específicas, como a alíquota de 50% aplicada a produtos brasileiros em agosto.
Desde então, investidores estrangeiros retiraram cerca de US$ 63 bilhões de ações de empresas listadas nos EUA, de acordo com o Goldman Sachs.
O mesmo movimento atinge os títulos da dívida pública, alimentando a percepção de instabilidade.
Instabilidade no Fed e críticas a Trump
Especialistas apontam que a política de tarifas e o uso do dólar como instrumento de sanção internacional ampliaram a desconfiança em relação à moeda.
Conforme destacou a BBC News Brasil, Robert McCauley, pesquisador da Universidade de Boston, lembra que a exclusão da Rússia de parte do sistema financeiro internacional e o congelamento de ativos russos abalaram a ideia do dólar como ativo inquestionavelmente seguro.
Ao mesmo tempo, a dívida pública americana alcançou US$ 35,46 trilhões em 2024, equivalentes a 123% do PIB, alimentando receios de que o governo possa, no futuro, pressionar por desvalorização cambial para reduzir déficits.
O próprio Fed vive um momento delicado.
Trump tem feito críticas constantes ao banco central e chegou a anunciar a demissão de Lisa Cook, integrante do comitê responsável por definir juros, medida que ela contesta judicialmente.
As declarações presidenciais contra Jerome Powell e outros dirigentes reforçam a percepção de interferência política, algo que, segundo economistas, pode afastar ainda mais investidores internacionais.
Brics e a agenda de desdolarização
O debate sobre alternativas ao dólar não é novo, mas ganhou força desde a crise de 2008.
Para Fernanda Brandão, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, aquele episódio expôs a vulnerabilidade de depender de uma única moeda global.
O Brics, que ampliou sua composição com dez novos membros desde 2024, tornou-se o principal articulador de medidas de desdolarização.
Em julho, na cúpula realizada no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender o uso de moedas nacionais no comércio entre países do bloco.
Ele argumentou que “ninguém determinou que o dólar é a moeda padrão” e reforçou que a substituição tende a ser irreversível.
A Rússia, por sua vez, já aposta em uma plataforma digital própria de pagamentos para escapar das sanções.
O bloco também discute a criação de uma moeda comum, hipótese que preocupa Washington, a ponto de Trump classificar a iniciativa como “um ataque ao dólar”.
Estratégia contraditória dos EUA
As medidas do governo americano têm sido vistas como ambíguas.
Enquanto Trump trata a defesa do dólar como questão de soberania nacional, sua política tarifária e declarações de assessores sugerem abertura para enfraquecer a moeda.
Stephen Miran, indicado por Trump ao Conselho de Governadores do Fed, defende que a sobrevalorização do dólar prejudica a indústria americana ao encarecer exportações e estimular a transferência de produção para fora do país.
Essa visão sustenta a ideia de que a desvalorização poderia ser benéfica para o setor produtivo.
Ainda assim, economistas como Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, consideram o argumento limitado, lembrando que os déficits comerciais dos EUA têm múltiplas causas e não podem ser resolvidos apenas por tarifas ou manipulação cambial.
Dólar ainda sem rival imediato
Apesar dos sinais de diversificação, analistas ressaltam que não há, no curto prazo, moeda capaz de substituir integralmente o papel do dólar.
Ele segue dominante em transações internacionais, depósitos bancários e liquidez global.
Mesmo a China, que poderia ser candidata natural, mantém parte significativa de seus financiamentos internacionais em dólar, o que, segundo McCauley, demonstra resistência prática à substituição.
A Rússia, por sua vez, enfrenta dificuldades em retirar completamente a moeda americana de seu sistema financeiro.
Segundo a BBC News Brasil, a dúvida que permanece é se os movimentos atuais configuram apenas ajustes marginais ou se representam o início de uma transformação estrutural nas finanças globais.
Até que ponto o mundo está disposto a reduzir sua dependência de uma moeda que, apesar das turbulências, ainda é vista como rei dos mercados internacionais?