BRICS retoma fundo de US$ 100 bi em 2025 para blindar emergentes de choques cambiais, reduzir poder do FMI e projetar protagonismo do Brasil.
Em 2015, o BRICS lançou discretamente o Arranjo Contingente de Reservas (CRA), um fundo de US$ 100 bilhões destinado a proteger suas economias de crises cambiais — um passo histórico rumo à independência do bloco em relação ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Por anos, o CRA permaneceu quase invisível, eclipsado por outras iniciativas mais visíveis como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).
Mas em 2025, diante da crescente instabilidade global, o fundo voltou ao centro das atenções. Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do NDB e especialista em mecanismos BRICS, defende que o arranjo pode se transformar em escudo contra fuga de capitais e ataques especulativos. Nesse contexto, o Brasil pode assumir um papel de protagonismo inesperado neste novo capítulo da arquitetura financeira global.
Por que o fundo ganha relevância em 2025?
Os últimos anos mostraram como economias emergentes seguem vulneráveis à maré dos mercados globais. Basta o Federal Reserve (banco central dos EUA) elevar juros, e bilhões de dólares migram rapidamente de países como Brasil, Índia ou África do Sul para títulos americanos, em busca de segurança.
-
Por 90 dias, EUA estendem exclusões para algumas importações chinesas, beneficiando hospitais, indústria tecnológica e energia limpa em meio à disputa comercial
-
Trabalhadores rejeitam escala 6×1 e comércio encontra dificuldades para preencher vagas de emprego no Brasil
-
Esse é o calendário mais aguardado da B3: Saiba quando a Vale (VALE3) paga seus dividendos bilionários
-
Brasil perde espaço no mundo: investimento estrangeiro cai para US$ 33,8 bilhões em 2025 – pior nível em quatro anos e país já fica atrás de México e Índia
Foi o que aconteceu em 2024, quando o Brasil registrou uma saída líquida de US$ 1,8 bilhão em investimentos de portfólio em apenas um mês. Embora as reservas internacionais brasileiras sigam robustas, em torno de US$ 340 bilhões, a pressão sobre o real reforçou o alerta: sem instrumentos adicionais, choques cambiais podem gerar instabilidade perigosa.
É nesse ponto que o fundo de US$ 100 bilhões do BRICS se torna estratégico. Ele foi desenhado justamente para fornecer empréstimos de emergência entre os membros, reduzindo a necessidade de recorrer ao FMI — instituição vista historicamente como uma ferramenta de influência do Ocidente.
Como funciona o CRA
O Arranjo Contingente de Reservas opera como uma espécie de poupança coletiva do BRICS.
- A China responde pela maior contribuição, com US$ 41 bilhões.
- A Índia, a Rússia e o Brasil entram com US$ 18 bilhões cada.
- A África do Sul completa o total com US$ 5 bilhões.
Em troca, cada país pode sacar valores em momentos de necessidade, de acordo com cotas proporcionais. Isso significa que, em caso de fuga de capitais ou depressão cambial, o Brasil poderia acessar rapidamente recursos bilionários, sem depender de longas negociações ou das duras condicionalidades do FMI.
O papel do Brasil nesse novo arranjo
Para o Brasil, o CRA ganha importância em um momento delicado.
- O país já enfrenta volatilidade cambial sempre que o dólar se fortalece globalmente.
- O Banco Central recorre com frequência a swaps cambiais — instrumentos caros e de curto prazo.
- A economia brasileira ainda é fortemente dependente de commodities, vulnerável a oscilações de preços globais.
Com o CRA fortalecido, o Brasil poderia contar com um escudo de liquidez imediata, reduzindo custos e garantindo maior estabilidade financeira. Além disso, ao lado da China, o país pode se posicionar como líder político na agenda de independência do BRICS frente ao FMI.
O contraste com o FMI
O grande objetivo do fundo não é apenas técnico: é simbólico. Por décadas, países emergentes foram obrigados a recorrer ao FMI em crises, aceitando condicionalidades duras como privatizações, cortes de gastos e reformas estruturais.
O CRA representa a possibilidade de uma alternativa “do Sul global para o Sul global”. Ao invés de depender de Washington, os países poderiam resolver problemas de liquidez entre si, criando um sistema paralelo.
Claro, a escala ainda é limitada: US$ 100 bilhões não se comparam aos trilhões disponíveis em instituições como o FMI. Mas o fundo é uma semente de autonomia, que pode crescer se os países aumentarem suas contribuições.
O fator geopolítico: FMI x BRICS
A disputa é evidente.
- Para os EUA e a Europa, a criação de instrumentos como o CRA representa uma ameaça à influência ocidental no sistema financeiro internacional.
- Para a China, é uma oportunidade de consolidar seu papel de liderança global, oferecendo alternativas concretas ao dólar.
- Para o Brasil, pode ser a chance de se posicionar não como seguidor, mas como ator relevante em uma nova ordem financeira multipolar.
Em 2025, com as discussões reacendidas, especialistas avaliam que o Brasil pode usar o fundo não apenas como proteção, mas como instrumento diplomático para aumentar seu peso no bloco.
O CRA do BRICS em 2025 é, ao mesmo tempo, uma vitória estratégica e uma armadilha potencial.
- Vitória, porque representa um passo real rumo à independência financeira, reduzindo a vulnerabilidade diante do FMI e do dólar.
- Armadilha, porque sua escala limitada pode dar a falsa sensação de segurança, levando os países a adiar reformas internas mais profundas.
Para o Brasil, a mensagem é clara: o fundo de US$ 100 bilhões pode ser o trunfo para proteger sua economia em tempos de fuga de capitais. Mas, se não vier acompanhado de planejamento interno, continuará sendo apenas um colchão temporário em um mundo financeiro ainda dominado pelo dólar.
O Brasil como protagonista da nova ordem financeira?
Em meio ao debate, a questão central é: até que ponto o Brasil está disposto a assumir protagonismo dentro do BRICS?
Com reservas robustas, uma das maiores economias do bloco e proximidade crescente com a China, o país tem condições de usar o CRA como vitrine de uma nova postura internacional: não mais como seguidor de políticas impostas por organismos ocidentais, mas como coprodutor de uma nova arquitetura financeira global.
Se o Brasil aproveitar essa janela, poderá transformar sua participação no CRA em símbolo de soberania e em instrumento de influência internacional.