Em meio à disputa tarifária entre Brasil e Estados Unidos, a Embraer projeta importações bilionárias dos EUA até 2030, reforça presença em negociações globais e amplia estratégias de diversificação de mercados enquanto pressões políticas seguem em curso.
A Embraer saiu fora do alcance imediato da sobretaxa de 50% aplicada pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, preservando suas vendas de aeronaves ao país.
A fabricante, no entanto, continua sujeita à alíquota de 10% já em vigor desde abril e opera sob o pano de fundo de uma investigação da Seção 301 sobre práticas comerciais do Brasil.
Nesse cenário, a companhia projeta importar US$ 21 bilhões em insumos e serviços dos EUA até 2030, número reiterado em meio a novas rodadas de diálogo empresarial.
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Evento em São Paulo reforça diálogo em meio ao embate
Segundo a revista Times Brasil, nesta terça-feira (26), a Fiesp e o Council of the Americas reuniram, em São Paulo, executivos de empresas com presença nos dois países e autoridades para discutir as relações Brasil–EUA em um ambiente de tensão comercial.
A agenda tratou do papel do setor privado na manutenção de fluxos de investimento, inovação e empregos, com Embraer, Boeing, Amazon Web Services, JBS e Salesforce entre os participantes.
Juliana Villano, da Embraer, constou entre os palestrantes convidados. Ainda no mesmo encontro, líderes empresariais defenderam que a cooperação econômica não deve ser paralisada pela disputa tarifária.
Para a Fiesp, a negociação permanece como caminho preferencial para reduzir incertezas e resguardar cadeias produtivas com forte integração bilateral.
Tarifa de 50% poupou aeronaves, mas 10% segue vigente
A isenção de aeronaves civis e componentes da tarifa adicional de 40 pontos percentuais — que elevou a carga total a 50% para grande parte dos bens brasileiros — evitou um choque direto sobre encomendas e entregas do setor aeroespacial.
A medida, formalizada por ordem executiva no fim de julho, confirma a exclusão do segmento aeronáutico, ao mesmo tempo em que mantém a tarifa-base de 10% do regime “recíproco” instaurado em abril.
Em paralelo, segue em curso uma investigação da Seção 301 conduzida pelo governo norte-americano para avaliar práticas consideradas “injustas” no comércio com o Brasil.
O procedimento, voltado ao país e não a empresas específicas, amplia a incerteza regulatória e pode resultar em novas medidas restritivas.
Projeção de US$ 21 bilhões em compras dos EUA até 2030
Ao detalhar seu plano de suprimentos e exportações, a Embraer projetou comprar US$ 21 bilhões de fornecedores norte-americanos e, na direção oposta, exportar US$ 13 bilhões aos EUA até 2030.
Segundo a empresa, os volumes estimados implicam superávit de US$ 8 bilhões para o lado americano no período, o que reforça a narrativa de interdependência das cadeias e ajuda a qualificar o debate sobre tarifas.
O número voltou a circular no ambiente de articulação empresarial em São Paulo, servindo de referência para mostrar o peso dos EUA como origem de componentes, tecnologia e serviços no ecossistema da fabricante brasileira.
A leitura dentro do setor é que a manutenção de canais previsíveis de comércio é essencial para o cronograma de programas comerciais, executivos e de defesa da companhia.
Diversificação de mercados e leitura do BNDES
Sob pressão tarifária, a Embraer tem buscado diversificar mercados e avançar em negociações em países fora do eixo tradicional, como Índia, de acordo com interlocutores do governo.
Em tom de incentivo à estratégia, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que o mercado americano seguirá importante, mas a empresa “está diversificando e construindo uma relação com outros mercados”.
Ele acrescentou: “Em breve teremos novidades, e o BNDES estará pronto para financiar.”
A fala se alinha ao movimento de financiamento e capitalização de iniciativas tecnológicas ligadas à companhia.
O BNDESPar anunciou um aporte de US$ 74,9 milhões na Eve Air Mobility, subsidiária dedicada ao eVTOL, e passou a deter 4,4% de participação societária na empresa.
A operação fez parte de uma captação de US$ 230 milhões que incluiu BDRs na B3 e recursos para sustentar a fase de desenvolvimento e certificação.
Por que o “alívio” não elimina o risco
Mesmo com a exclusão das aeronaves da sobretaxa de 50%, a tarifa “recíproca” de 10% segue incidindo e pode afetar partes, peças, serviços e logística que orbitam os programas aeronáuticos, a depender das classificações tarifárias.
O risco adicional decorre da própria dinâmica política: a Casa Branca vinculou novos passos a eventuais retaliações do Brasil, o que mantém a espada de ajustes sobre a cabeça das cadeias de suprimento.
Do lado brasileiro, autoridades abriram processos formais para avaliar contramedidas e estudam saídas para atenuar o impacto setorial.
Entre elas estão compras públicas e redirecionamento de exportações, enquanto monitoram vias jurídicas e multilaterais.
Ainda que medidas de curto prazo tragam algum fôlego a segmentos específicos, a leitura predominante entre agentes de mercado é a de que o custo de incerteza se eleva enquanto durar a disputa.
Pressão institucional e próximos passos
A conferência da Fiesp com o Council of the Americas funcionou como plataforma de pressão para que a agenda bilateral permaneça aberta a ajustes técnicos e exceções setoriais, reduzindo prejuízos colaterais.
Ao destacar números de importações e exportações entre as partes, executivos reforçaram o argumento de que cadeias integradas tendem a sofrer com choques tarifários generalizados.
Nesse sentido, defenderam que calibragens por código tarifário seriam mais eficazes para evitar rupturas.
Enquanto isso, a Embraer mantém a estratégia dual: preserva sua presença nos EUA — principal mercado regional para jatos de até 100 assentos e relevante para defesa e serviços — e, em paralelo, acelera conversas em outros polos para diluir exposição a pressões políticas.
O resultado prático dessa postura será medido pela capacidade de manter ritmo de encomendas, navegar o regime tarifário e assegurar financiamento competitivo para seus programas em desenvolvimento.
No fim, a equação que a Embraer tenta apresentar — isenção setorial, projeção de compras nos EUA e diversificação geográfica — busca transformar um ambiente hostil em previsibilidade operacional.
Resta saber se o diálogo empresarial e as janelas regulatórias serão suficientes para conter a escalada política e blindar as cadeias até que surja uma solução negociada.
Na sua avaliação, a combinação de diversificação de mercados e maior integração com fornecedores americanos fortalece a posição da empresa ou aumenta a dependência de um único eixo?