Economista-chefe da ARX alerta que defesa do atual presidente por moeda do BRICS pode custar até R$ 30 bi ao PIB do Brasil e reacender disputa comercial com os EUA.
A polêmica sobre a criação de uma moeda alternativa ao dólar no âmbito dos BRICS voltou a ganhar força e já gera fortes repercussões no mercado financeiro. O economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros, lançou um alerta contundente no dia 17 de agosto de 2025 em entrevista ao portal Poder360: “a insistência do Brasil em defender essa proposta pode custar ao país até R$ 30 bilhões no PIB e ainda reacender uma disputa comercial com os Estados Unidos.”
Segundo ele, a fala recente do presidente Lula em defesa de uma moeda comum dos BRICS foi interpretada em Washington como um gesto hostil, capaz de estimular retaliações imediatas por parte do governo norte-americano. Entre as possíveis respostas, estariam sobretaxas a produtos brasileiros, barreiras não tarifárias e uma revisão no fluxo de investimentos diretos ao país.
O peso dos EUA para a economia brasileira
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China, e respondem por uma fatia relevante das exportações brasileiras de bens de alto valor agregado, como manufaturados e produtos da indústria química. Além disso, o país norte-americano ocupa posição de destaque no estoque de Investimento Estrangeiro Direto (IED), com bilhões aplicados em setores estratégicos como energia, tecnologia e infraestrutura.
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Perder parte desse mercado e desse capital em função de uma disputa política internacional pode ter impactos devastadores.
Para Gabriel Leal de Barros, o risco maior não está apenas nas tarifas sobre exportações, mas também no efeito psicológico sobre investidores que, diante da instabilidade, podem redirecionar aportes para outros países da América Latina, como México e Chile.
“Os Estados Unidos continuam sendo o maior mercado consumidor do planeta e a principal referência de estabilidade para investidores. Criar atritos em nome de uma agenda política de médio prazo pode custar caro para o Brasil no curto prazo”, afirmou o economista.
BRICS e o dólar
A proposta de uma moeda comum dos BRICS não é nova. Desde 2023, líderes do bloco discutem formas de reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais.
Na prática, a iniciativa busca proteger economias emergentes de choques externos e ampliar a autonomia em negociações globais.
No entanto, para especialistas, a defesa explícita dessa medida por parte do Brasil em um momento de tensão política com os EUA foi interpretada como uma provocação. Washington, que já vinha monitorando os movimentos de China e Rússia dentro do bloco, agora enxerga o posicionamento brasileiro como um possível realinhamento estratégico.
Esse cenário alimenta o risco de medidas retaliatórias, sobretudo em um contexto em que os EUA buscam proteger cadeias produtivas e reforçar sua influência geopolítica em regiões estratégicas como a América Latina.
Impacto estimado: até R$ 30 bilhões no PIB
O cálculo da ARX Investimentos parte de um cenário de sobretaxas tarifárias impostas pelos EUA a produtos brasileiros, especialmente commodities agrícolas e industrializados.
Caso os aumentos cheguem a níveis semelhantes aos praticados em guerras comerciais anteriores, como a disputa entre EUA e China em 2018, a perda para o Brasil poderia alcançar R$ 30 bilhões anuais no PIB.
Esse valor não é apenas estatístico: ele se traduziria em menos investimentos, queda nas exportações e redução de empregos em setores que dependem do mercado norte-americano. Somente no agronegócio, por exemplo, os EUA absorvem cerca de US$ 9 bilhões anuais em produtos brasileiros, como aço, celulose, café e carnes. A aplicação de barreiras nesse segmento geraria efeito cascata em toda a cadeia produtiva.
O dilema estratégico do Brasil
Para o governo brasileiro, a defesa de uma moeda dos BRICS é vista como uma estratégia de longo prazo para reforçar a soberania e diversificar parceiros. Porém, especialistas como Gabriel Leal de Barros alertam que essa postura pode trazer um custo imediato elevado.
“O pragmatismo precisa falar mais alto. O Brasil não pode se dar ao luxo de perder mercado e investimentos agora, quando o mundo já vive uma desaceleração econômica. A busca por alternativas ao dólar pode ser legítima, mas não deve ser feita de maneira a colocar em risco relações comerciais estratégicas”, ressaltou.
Risco de isolamento e fuga de capital
Além do impacto tarifário, há o risco de que investidores internacionais interpretem a movimentação brasileira como um sinal de instabilidade geopolítica. Isso poderia reduzir o fluxo de dólares no país, pressionar o câmbio e aumentar o custo do crédito.
Em 2024, o Brasil recebeu cerca de US$ 62 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto, segundo o Banco Central. Se parte desse capital migrar para mercados mais previsíveis, como México e Colômbia, os efeitos seriam sentidos na geração de empregos, no financiamento de grandes obras de infraestrutura e na capacidade de inovação da indústria nacional.
O alerta da ARX Investimentos reforça que, em meio ao novo tabuleiro global, o Brasil precisa equilibrar suas apostas. De um lado, os BRICS oferecem acesso privilegiado à China, Índia e Rússia; de outro, os EUA permanecem como destino central de exportações e origem de investimentos estratégicos.