Mesmo no “melhor cenário” do agro — soja + milho tomando toda a Amazônia Legal — a renda per capita iria só de US$ 10 mil para US$ 16 mil; uma cidade high-tech de 500 km² renderia US$ 9 trilhões e levaria o Brasil a US$ 52 mil por pessoa.
O debate sobre o futuro econômico do Brasil costuma se dividir entre defensores do agronegócio e aqueles que pedem maior investimento em tecnologia. Um estudo apresentado por Daniel Uchoa, do canal Investland, confronta diretamente essa visão ao mostrar que mesmo no cenário extremo de desmate total da Amazônia para soja e milho, a riqueza gerada seria menor do que a de uma única cidade high-tech planejada em 500 km².
Quanto valeria transformar a Amazônia em soja e milho?
Os números impressionam à primeira vista, mas perdem força na comparação. Segundo as projeções, com soja a US$ 400 por tonelada e produtividade de 360 t/km², ocupar os 5 milhões de km² da Amazônia Legal geraria US$ 720 bilhões por ano. Se incluir o milho, o total chegaria a US$ 1,3 trilhão anuais, algo em torno de US$ 6 trilhões em uma década.
Ainda assim, esse cenário elevaria a renda per capita brasileira de cerca de US$ 10 mil para apenas US$ 16 mil, patamar distante dos países desenvolvidos. O cálculo evidencia um ponto crucial: mais área plantada não significa automaticamente mais prosperidade.
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O peso do valor agregado: a provocação da “cidade high-tech”
O mesmo estudo propõe um exercício inverso: imaginar uma cidade industrial tecnológica de 500 km², inspirada no modelo da TSMC, gigante de semicondutores. Com base na produtividade dessa referência, o polo renderia US$ 9 trilhões por ano — o suficiente para adicionar US$ 42 mil à renda per capita nacional, levando o Brasil a US$ 52 mil por pessoa, equivalente a países ricos.
A comparação ilustra a diferença entre somar hectares de commodities e multiplicar valor com inovação. Em termos de peso, o contraste é ainda mais evidente:
- 1 kg de ouro ≈ R$ 583 mil
- 1 kg de iPhone ≈ R$ 21,5 mil
- 1 kg de soja ≈ R$ 2,20
O agro é vital, mas não suficiente
O estudo não desmerece a relevância do agronegócio, que garante divisas, empregos e exportações, com base científica sólida em instituições como a Embrapa. Mas reforça que soja e milho sozinhos não podem sustentar o salto de desenvolvimento necessário.
Países frequentemente citados como modelos agroexportadores, como Austrália e Nova Zelândia, possuem produção manufatureira per capita muito superior à brasileira: +155% e +216% em valores nominais, respectivamente. Em poder de paridade de compra, esses números ainda superam o Brasil em +60% e +125%.
O que o Brasil precisa decidir
A mensagem central é clara: a Amazônia vale mais em pé, aliada à indústria de alta tecnologia, do que transformada em monocultura. Complexidade econômica é o motor do desenvolvimento. Isso exige uma política industrial consistente, integração público-privada e investimento pesado em inovação — sem abrir mão da força do agro, mas usando-o como base para alavancar setores de maior valor.
O Brasil tem dois caminhos: apostar apenas em soja e milho ou combinar o agro com polos tecnológicos capazes de multiplicar a riqueza nacional.
E você, acredita que o futuro do Brasil deve seguir pela expansão agrícola ou pela criação de cidades high-tech? Deixe sua opinião nos comentários e participe desse debate sobre qual modelo pode realmente transformar o país.