Pesquisadores conseguem recriar o azul egípcio, o pigmento sintético mais antigo do mundo, usado por faraós, romanos e artistas renascentistas
Pesquisadores de três instituições importantes conseguiram uma façanha rara: recriar o azul egípcio, o pigmento sintético mais antigo conhecido no mundo.
Utilizado por civilizações antigas, como os egípcios e os romanos, ele desapareceu por séculos e agora está de volta com base em estudos modernos.
O pigmento que atravessou milênios
O azul egípcio foi criado há mais de 5 mil anos. Sua amostra mais antiga foi identificada em uma tigela de alabastro datada de 3250 a.C.
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O pigmento era comum em murais, esculturas, cerâmicas e caixões. Apesar do nome, sua tonalidade variava entre o azul e o verde, dependendo dos ingredientes utilizados.
Depois da queda do Egito antigo, o pigmento seguiu em uso por romanos e artistas do Renascimento, como Rafael. Mas, com o tempo, caiu em desuso. Agora, um novo estudo revelou como trazê-lo de volta.
A pesquisa que revelou a fórmula antiga
O estudo foi feito por cientistas da Universidade Estadual de Washington, do Museu Carnegie de História Natural e do Instituto de Conservação do Museu Smithsonian. Eles publicaram os resultados na revista NPJ Heritage Science.
A equipe criou 12 receitas diferentes usando dióxido de silício cristalino, cobre, cálcio e carbonato de sódio. Depois, essas misturas foram aquecidas a mais de 1.800 graus Fahrenheit por até 11 horas. O resultado foi a formação de pigmentos com variações de cor.
Segundo o pesquisador John McCloy, pequenas mudanças no processo resultaram em grandes diferenças no produto final. Todas as versões tinham algo em comum: o mineral cuprorivaíta.
A luz invisível que revela o azul egípcio
O azul egípcio tem uma propriedade singular. Ele emite luz infravermelha quando estimulado pela luz vermelha.
Essa característica é usada por arqueólogos para detectar sua presença em artefatos, mesmo que o pigmento esteja coberto por outras camadas de tinta.
Segundo McCloy, isso permite identificar áreas reparadas com pigmentos diferentes ou ocultas ao olho nu. A técnica foi usada, por exemplo, para descobrir que Rafael aplicou azul egípcio em uma obra renascentista de 1512.
Usos modernos para uma fórmula milenar
A redescoberta do pigmento abre possibilidades para usos atuais. Por emitir luz invisível, ele pode servir para tecnologias de segurança, como tinta antifalsificação ou revelação de impressões digitais.
Essa ligação entre arte antiga e ciência moderna é o que mais impressiona os estudiosos. Simon Lewis, da Curtin University, destacou a importância de buscar soluções futuras com base em saberes antigos.
A composição e o valor simbólico do pigmento
O ingrediente principal do pigmento recriado é a cuprorivaíta. No entanto, a tonalidade final depende de outros materiais usados na mistura.
Os pesquisadores testaram várias composições e compararam os resultados com pigmentos reais encontrados em dois artefatos do Egito antigo.
Para o arqueólogo Moujin Matin, que não participou do estudo, a produção do azul egípcio exigia um contexto sofisticado e tecnologias avançadas para a época. Ele também lembrou o valor simbólico da cor azul na cultura egípcia, usada em representações religiosas e do cotidiano.
O retorno de uma técnica esquecida
A pesquisa revelou não só a técnica antiga como também sua complexidade. O azul egípcio, muito além de sua aparência, é um exemplo de como conhecimentos milenares ainda podem oferecer respostas e inspirações para os dias atuais.
O estudo marca o retorno de um saber que ficou esquecido por séculos e agora volta a ser estudado com precisão científica.
Olhar para o passado, pode sim representar um passo adiante no futuro. Que matéria espetacular.