Residência projetada pelo Hersen Mendes Arquitetura no Jardim Botânico preservou a vegetação existente, adaptou seus volumes ao declive natural e foi reconhecida em 2026 depois de ser concluída dois anos antes.
Antes de definir paredes, quartos ou corredores, os arquitetos Matheus Mendes e Anastácia Hersen encontraram no terreno de Brasília um elemento que mudaria completamente o projeto: sete árvores de maior porte que já faziam parte da paisagem.
Elas foram mapeadas, preservadas e usadas como condicionantes da implantação. Em vez de decidir onde construir e depois retirar a vegetação necessária, a equipe fez o movimento contrário: identificou o que deveria permanecer e passou a considerar como área edificável os espaços disponíveis entre as árvores.
O resultado foi a Casa das 7 Árvores, residência de 512 m², projetada em 2022, concluída em 2024 e que, em abril de 2026, terminou em 3º lugar geral no Prêmio Obra do Ano, promovido pelo ArchDaily Brasil.
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Uma pintura com folhas ajudou a mudar o projeto
Antes do início do trabalho, a proprietária mostrou aos arquitetos uma pintura feita com folhas recolhidas no próprio terreno.
Segundo relato publicado pelo Designboom, a obra funcionava quase como uma lembrança antecipada das árvores que poderiam desaparecer quando a construção começasse.
A imagem provocou uma pergunta simples: seria realmente necessário sacrificar aquela paisagem para erguer a casa? A partir daí, o escritório passou a tratar a vegetação não como obstáculo, mas como parte do projeto.
Declive e pedras determinaram onde a casa poderia tocar o chão
O terreno, localizado na região do Jardim Botânico, apresenta declive, solo duro e rochoso e fica diante de uma reserva florestal.
Os arquitetos aproveitaram os trechos mais planos e fizeram com que alguns volumes se afastassem gradualmente do solo conforme a inclinação aumentava. A estratégia ajudou a preservar a permeabilidade do terreno e o fluxo natural da água.
A casa, portanto, não é inteiramente suspensa. O elemento mais radical aparece na parte alta do lote.
Ateliê foi elevado sobre dois pilares que lembram árvores
O ateliê da proprietária, destinado a atividades de arte e costura, fica completamente elevado.
Sua estrutura se apoia sobre dois pilares de concreto aparente cuja forma remete a árvores. Designboom descreve esses apoios como prismas hexagonais entrelaçados, permitindo que o volume avance sobre a inclinação natural do terreno.
Uma passarela com brises metálicos amarelos conecta o ateliê à área social e ajuda a controlar a incidência solar.
Paredes utilizam blocos de terra que não passam por queima
Outro elemento pouco convencional está nos fechamentos da residência.
A casa utiliza blocos de terra comprimida, conhecidos como BTC, deixados aparentes em vários pontos. Diferentemente do tijolo cerâmico tradicional, esses blocos não passam pelo processo de queima em forno, eliminando o consumo energético associado especificamente a essa etapa.
O projeto também emprega lajes BubbleDeck, que incorporam esferas plásticas recicladas para substituir parte do volume de concreto estruturalmente desnecessário.
Luz, ventilação e energia solar completam a estratégia
A residência recebeu ainda sistema fotovoltaico, ventilação cruzada, jardins internos e aberturas posicionadas para ampliar a iluminação e a circulação natural do ar.
As fontes disponíveis não informam a potência dos painéis nem permitem afirmar que a casa seja autossuficiente energeticamente. O sistema solar funciona como complemento ao consumo da residência.
Quatro anos depois de ser projetada, a Casa das 7 Árvores chegou ao grupo de 15 finalistas do Prêmio Obra do Ano 2026 e terminou atrás apenas do Complexo Gastronômico da Sabiaguaba e do Cultura Artística.
No fim, o elemento que tornou a casa diferente não foi uma tecnologia criada depois da obra, mas uma decisão tomada antes do primeiro traço: as árvores permaneceriam e a arquitetura teria de encontrar seu lugar entre elas.
Você construiria uma casa menor ou mais complexa para preservar as árvores que já existiam no terreno?

